A paixão pelo "jazz que vem mesmo do jazz"

Nasceu e cresceu ao som do "jazz" e nunca teve dúvidas do seu caminho. Ricardo Toscano tem 23 anos, dá aulas há três e quer tocar com Hancock.

Ricardo Toscano chega ao CCB de mochila às costas e saxofone ao ombro. Dentro da mochila traz o futuro disco que está gravado desde abril, numa drive. Não tem pressa de o editar mas queria registar "esta fase". Tem 23 anos, uma vida inteira de jazz, e a certeza do que quer: "Tocar com os grandes." Não acredita no destino, mas numa viagem de turismo a Nova Iorque cruzou-se com Wynton Marsalis e passou um par de horas em casa do músico, a aprender. Aquilo que, garante, quer continuar sempre a fazer.

Voltemos ao disco. "Seis originais e cinco standards com arranjo meu, claro que não vão ficar onze temas num disco de jazz, por isso ainda não sei o que vai acontecer mas vai acontecer alguma coisa", diz Ricardo Toscano, que anda num desassossego a tocar sempre que o chamam. "Honestamente, há muita gente que acha que precisa de disco para andar a tocar e nós temos tido a sorte de ser convidados sem disco e para mim devia ser assim. Ouvem-nos e gostam, chamam-nos." Tem sido assim. O saxofonista multiplica-se em três formações: o Ricardo Toscano 4tet, o duo com João Paulo Esteves da Silva e o septeto do Hot Clube de Portugal. Mas vai falando de outros projetos e de espetáculos que deu, aqui e ali. No CCB, naquele dia, ia tocar no Sunset, com um trio de standards. "Tocamos standards mesmo antigos, tocamos da forma mais direta, é aquilo e bem. Isso é muito difícil porque a malta hoje é formatada para desenvolver os solos. Isto é esclarecido, objetivo, não há dúvidas", diz. E é esse o jazz que quer fazer soar no seu belíssimo saxofone, um Selmer, modelo Mark VI, de 1974. "O que eu gosto não é uma coisa que se faça muito cá. Eu gosto do jazz que vem mesmo do jazz. Há muita influência do rock e dos cantautores... eu não quero que isto soe mal mas não é isso que eu quero. Eu gosto do jazz americano, do swing, do jazz afro-americano. É isso que eu quero. Foi o que eu cresci a ouvir e eu sinto que isso é o meu fado."

Filho de um saxofonista, Ricardo "ouviu dizer" que em bebé era embalado ao som de discos de jazz. "Já ouvia na barriga da minha mãe, o meu pai é músico e consumidor de jazz. Cresci a ouvir jazz, nasci e cresci com o jazz na cabeça. Sabia que mais tarde ou mais cedo... nunca tive dúvidas do que é que ia acontecer", diz. Com 8 anos entrou para a filarmónica da Amora, aos 13 foi para o Conservatório Nacional, aos 15 para a escola profissional da Orquestra Metropolitana de Lisboa. "Foi o melhor que podia ter acontecido porque a escola do Hot Clube é no primeiro andar... No segundo ano entrei para o Hot, estudava clarinete na Metropolitana e saxofone no Hot Clube." Aos 17 anos, chegou à Escola Superior de Música, no regime de sobredotado. Dá aulas no Hot Clube há três anos e zanga-se com os alunos que "apanha a brincar".

Em novembro vai voltar a Nova Iorque. Quer apalpar terreno para uma estada mais prolongada, a estudar. Quando aterrar vai ligar a Wynton Marsalis. Conheceu-o no meio da rua, "no episódio mais surreal" da sua vida "até hoje", graças à namorada da altura, que o interpelou. O trompetista viu o saxofone que Toscano levava ("tinha acabado de comprar uma boquilha nova") e convidou-o a ir até casa dele, que tinha uns 15 minutos livres para o ouvir. "Subimos até ao apartamento, alto casarão em East Village. Ele tinha um prato da Nazaré em cima do exaustor da cozinha. Disse-me "monta aí a corneta". Enquanto eu monto o saxofone ele começa a tocar trompete pela sala e eu caio em mim: "É ele." Pensei, vou dar o meu melhor, ele não me conhece de lado nenhum, não tenho quaisquer expectativas. Toquei para a frente, com fé. Depois foram duas horas." Foi uma masterclass inesperada, que lhe deu muito: "Ele fez uma coisa que só malta desse nível é que faz. A primeira pessoa que mudou a minha vida foi o [pianista] Danilo Perez, num workshop aqui no CCB. Depois foi o Wynton. Essas pessoas de um nível incrível, ao qual eu ambiciono chegar, são uns pedagogos incríveis. Eles não nos destroem por fazermos alguma coisa mal, eles fazem-nos sentir bem com o que fazemos bem e deixam-nos conscientes daquilo que não fazemos tão bem. E, para mim, é assim que se faz."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.