A (nova) Canção de Lisboa a passar na Graça

É o terceiro da trilogia dos clássicos do cinema português. O DN assistiu à rodagem, um jantar tardio com uma cábula da cena dentro do prato...

Os sinos da Igreja de São Vicente já bateram a meia-noite e as luzes do mosteiro, ali ao lado, já se apagaram quando o jantar chega finalmente à mesa. Os seis convivas já se desentenderam, dois até abandonaram a sala... pelo menos uma meia dúzia de vezes. Agora é a sério, mesmo que entre o prato do jantar se esconda o papel com as falas da cena. "Atenção, é para gravar". Faz-se silêncio entre as cerca de 30 pessoas da equipa técnica. "Ação".

O convento de São Vicente, no bairro lisboeta da Graça, tem sido esta semana o palco da rodagem de A Canção de Lisboa, o remake do clássico de Cottinelli Telmo, de 1933, que reuniu no elenco três nomes do Olimpo do cinema português - Vasco Santana, António Silva e Beatriz Costa. A esta mesa também se sentam o Vasco, a Alice e o pai dela, o trio de personagens em que assentou o enorme sucesso daquele que é considerado o primeiro filme de comédia português. Mas as semelhanças acabam aí. A antiga costureirinha agora tem sotaque brasileiro, o pai alfaiate virou candidato a primeiro-ministro e trouxe um marketeiro do Brasil, a extravagante tia Margot veio de Paris em vez de Trás-os-Montes.

Na pele do estudante de medicina mais dedicado à folia que aos estudos, o ator César Mourão é repetente a interpretar a personagem de Vasco Santana (já o fez no remake de O Pátio das Cantigas). Garante que não pensa no original, até porque a ideia não é replicar o filme dos anos 30. E já que estamos na cena do jantar, a metáfora é gastronómica: "Há muitas maneiras de fazer um bolo de chocolate. A nossa ideia é pegar na receita e fazer o nosso próprio bolo". Maria Vieira encarna Zé, uma tia pouco ortodoxa - tal como a extravagante Margot, interpretada por São José Lapa - também não teme comparações. "É impossível colar. Pelo menos nós, as tias, é impossível. E ainda bem, pelo menos para mim, porque ser comparada com a grande Teresa Gomes não me dava muito jeito", diz a atriz, entre risos. Já Luana Martau arrisca-se a uma comparação mais difícil - interpreta a personagem de Beatriz Costa no original, com a diferença que cresceu não em Lisboa, mas do outro lado do Atlântico. A atriz brasileira confessa "um medinho" com a reação do público português a uma Alice com sotaque: "Espero que os portugueses comprem a minha Alice".

As agruras de uma rodagem

No filme a cena há de durar um minuto, na rodagem Miguel Guilherme (que interpreta José Caetano, o pai de Alice) já se sentou e levantou e vezes sem conta da cadeira. O outro protagonista da cena, César Mourão, tem mais sorte: "Não há nada como takes sentados, isso não há", graceja o ator antes de mais um ensaio. Miguel Guilherme é o veterano da trilogia que agora se fecha, depois de O Pátio das Cantigas e O Leão da Estrela - participou nos três, sempre no papel desempenhado nos originais por António Silva. Se no primeiro há uma piscadela de olho ao intérprete original agora já não é o caso. Este José Caetano nem alfaiate é, é "um pato-bravo arrivista" com ambições à cadeira de primeiro-ministro. "Tem uma evolução interessante, acaba por evoluir num sentido que não é o que se estava à espera" é tudo o que Miguel Guilherme revela.

A Canção de Lisboa chega às salas de cinema a 14 de julho, com duas heranças de peso. Uma explica-se em números: O Pátio das Cantigas e O Leão da Estrela saltaram diretamente para o top ten dos filmes portugueses mais vistos. De acordo com números oficiais do instituto de cinema e Audiovisual, O Pátio das Cantigas teve 607 628 espetadores, o que faz dele o filme português mais visto de sempre. Com números mais modestos O Leão da Estrela teve 198 030 espetadores, fechando o top ten na lista do ICA.

Em contraponto, as críticas foram duríssimas aos dois remakes anteriores. Pedro Varela, o autor de Os Filhos do Rock que agora se estreia na realização em cinema diz não estar preocupado com a receção da crítica. "Não lhe dou assim tanta importância" (ver entrevista). Um encolher de ombros partilhado pela generalidade dos atores, que preferem apontar para os números do público.

Com a exceção óbvia dos dois nomes brasileiros, todos os atores que hoje se sentam à mesa viram A Canção de Lisboa ainda na infância ou juventude, ou não fosse o filme de Cottinelli Telmo um repetente habitual na televisão portuguesa. Todos lhe reconhecem a graça. E estará a ser tão divertido refazê-lo? "Quando eu via o filme tinha uma caneca de leite à frente, bolachas, estava comodamente sentado no sofá com uma lareira à frente e se estivesse cansado parava o filme e descansava um bocadinho. Aqui não". Aqui ouve-se novamente "ação". Os sinos da Igreja de São Vicente há muito que bateram a meia noite. O jantar vai recomeçar.

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