À noite no museu com Reagan, Putin, Arafat e outros

A cineasta Salomé Lamas apresenta esta semana no CCB a sua primeira criação para palco: "Fatamorgana", uma viagem ao Médio Oriente e uma reflexão sobre os tempos modernos.

Hanan é uma mulher libanesa que fica presa no Hall of Fame, o museu de cera em Beirute, depois da hora de fecho. Ali fica, uma noite inteira, à espera que o marido a venha buscar. Enquanto isso, vai falando com as várias figuras de cera que lá estão, sobretudo personalidades políticas como Bill Clinton a Ronald Reagan, Muhammar Khadafi, Yaser Arafat, Hosni Mubarak, Vladimir Putin, mas não só (há por exemplo Sabah, que era uma cantora muito conhecida).

Podia ser um filme de Hollywood mas é Fatamorgana, o novo projeto de Salomé Lamas e o primeiro que cria para um palco. A oportunidade surgiu com o convite de John Romão e da bienal Boca, que decorre até ao fim do mês e tem desafiado a artistas para saírem da sua zona de conforto. A cineasta Salomé Lamas, de 30 anos, aproveitou para pôr de pé um projeto ambicioso que há de chegar a ser um filme mas que, primeiro, se estreia no Pequeno Auditório do CCB, na próxima quarta-feira.

No palco estará a atriz Antónia Terrinha, que interpreta Hanan. "Uma espécie de Molly Bloom ou de Penélope moderna", diz Salomé Lamas, fazendo referência às personagens de Ulisses, de James Joyce, e de Odisseia, de Homero. Também Hanan está em frente de um tear enquanto espera o marido e vai tecendo uma camisola para o filho que, imaginamos, estará numa prisão síria ou, quem sabe, talvez já morto. A espera e a solidão desta mulher são interrompidas pelas conversas que vai mantendo com as figuras de cera do museu. "Existem muitos museus de cera no Médio Oriente. Alguns são muito elaborados. Por exemplo neste, nos arredores de Beirute, há sensores e as figuras movem-se", conta Salomé Lamas.

A realizadora tem há anos um fascínio pelo Médio Oriente e desde que teve oportunidade de visitar, primeiro, o Egito e, depois, o Líbano ficou com a certeza que queria realizar um projeto naquela região. O museu de cera foi só a porta para entrar na complicada teia de interesses políticos e económicos que dominam as vidas das pessoas comuns. Da maioria das personagens falam com Hanan apenas ouvimos a voz, mas há algumas que aparecem via Trump. São discursos verdadeiros, nas línguas originais, criando uma autêntica Babel de vozes que se atropelam e contradizem. E Hanan (como nós) no meio do caos.

"A Hanan tenta entender e entrar em diálogo com as personagens, que dialogam também entre sim, ela tenta fazer sentido da realidade em seu redor até que termina desarmada, de rastos, rendida à evidência que ela não consegue criar uma linha", explica Salomé Lamas. "O projeto demonstra aquilo que é uma evidência para todos nós: é o caos e é muito complicado perceber."

A Fada Morgana é uma feiticeira das lendas do Rei Artur e a expressão "efeito de Fata Morgana" é usada hoje em dia para referir uma miragem de grandes proporções, devido a uma inversão térmica, na linha do horizonte. A confusão entre realidade e ficção atravessa também todo o espetáculo Fatamorgana, como, aliás, acontece com os outros trabalhos de Salomé Lama, apesar de ser conhecida sobretudo pelos documentários Terra de Ninguém (2013) e Eldorado XXI (2016). "Eu parto sempre do real, mas há um questionamento do que é a tradução do real", explica.

No dia em que estrear, o mais provável é que o espetáculo Fatamorgana já esteja desatualizado. Salomé Lamas tem consciência disso e é por isso que no final, em vez do tradicional "The end" hão de aparecer as palavras "To be continued". "É um texto em aberto, é um projeto em aberto", diz a artista (o texto foi escrito pela jornalista Isabel Ramos). Não se pode parar a história. E se ainda foi possível colocar lá a eleição de Donald Trump como presidente americano talvez já lá não estejam os 59 mísseis que foram disparados ontem mesmo pelos EUA contra uma base aérea de Shayrat.

Se, por um lado, a ausência de alguns acontecimentos é inevitável, por outro lado, é assumida. Salomé Lamas vê a história (e, como consequência, a narrativa histórica) como uma espécie de "escrita criativa". "Nós vamos acumulando evento, selecionando uns, pondo outros de parte, e o que é vai ficando? O texto podia continuar sempre a ser fabricado."

E vai ser assim, pelo menos durante mais algum tempo, porque neste momento Salomé Lamas está já a trabalhar filme: "Eu vejo-o como um projeto que se chama Fatamorgana e depois tem diferentes outputs. Vai ser um espetáculo, um filme mas penso que pode resultar, por exemplo, também como uma instalação sonora."

Fatamorgana
Centro Cultural de Belém, Lisboa
12 e 13 de abril, 21.00
Bilhetes: 15 euros.

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