A música que se escuta "Entre o Céu e a Terra" vai de Bach até à Síria

Magdalena Kozena

O novo ciclo da Gulbenkian passa pelo Panteão Nacional e marca o regresso de Elisabete Matos ao palco da fundação.

Entre o Céu e a Terra fala do sagrado?, pergunta-se a Risto Nieminen, diretor do serviço de música da Gulbenkian, acerca deste ciclo que começa amanhã e que terá oito concertos, de Bach a Stockhausen, passando por música da Síria e cantos religiosos da Argélia. "Eu diria que fala mais de espiritualidade, porque depende da pessoa, como o entende. Às vezes pode ser música religiosa ou, como no concerto que dirige Joana Carneiro, obras com uma tendência católica. Mas depois temos, por exemplo, música argelina, que é de uma outra religião, música síria, Stimmung, de Stockhausen, que é uma obra meditativa mas não ligada a uma religião. A ideia principal é tratar a espiritualidade na música em vários tipos diferentes: música barroca, contemporânea, vocal", explica.

Amanhã, o ciclo abre em casa, na sala da Avenida de Berna, com o Ludovice Ensemble, dirigido por Miguel Jalôto. A soprano israelita Keren Motseri, o contratenor David Feldman, o tenor André Lacerda e o barítono Hugo Oliveira dão voz ao concerto O Barroco Sefardita, composto por música das comunidades judaicas da Europa barroca. "No final do século XV, os judeus foram expulsos de Portugal, e a música era a forma de se sentirem em casa. Ele [Jalôto] encontrou compositores pouco conhecidos, e também pelo menos uma compositora, que mesmo hoje em dia não é muito comum". Trata-se de Leonora Duarte, que ali aparece ao lado de Salomone Rossi, e de compositores anónimos da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, cidade para onde foram muitos judeus após a expulsão em 1496.

Segue-se a meio-soprano checa Magdalena Kozená, no dia 8, com o coletivo de música barroca espanhola Private Musicke, e Antonio El Pipa, Compañía de Flamenco. Um concerto, chamado Entre o céu e o inferno, que beneficiará da preparação de Kozená para o papel de Carmen, na ópera de Bizet, em 2012. "Ainda não vi o espetáculo mas tenho a sensação de que ela também vai talvez dançar um pouco no palco, pelo menos diz que já estudou, e vamos ver como resulta", sugere Risto.

E depois, claro, Bach. Desta vez interpretado pelo brasileiro Antonio Meneses, que tocará três suites para violoncelo. "Se há alguém que personifica a espiritualidade na música, é Bach. "Compunha missas, paixões, mas também muita música instrumental, que não foi escrita para a igreja, mas que tem esta graça de levantar a alma da pessoa que está a ouvir."

Até aqui, tudo acontece no grande auditório, mas nos dias 11 e 12, com o Canto e UD da síria Waed Bouhassoun, e com os solistas do Coro Gulbenkian em Stimmung, de Stockhausen, respetivamente, o ciclo passa os muros da Fundação Gulbenkian e chega ao Panteão Nacional, onde decorrerão esses dois concertos. "Vão beneficiar desta acústica, mais do que numa sala normal. E, visualmente, estar num local grandioso que não é uma igreja, é um monumental nacional, mas que tem as dimensões e acústica de uma igreja... Tenho muitas expectativas para estes dois concertos", explica o finlandês.

Entre o Céu e a Terra regressa à Avenida de Berna no dia 13, com Cantos Sacros da Argélia, por Houria Aïchi, que interpretará canções berberes. Para fechar (em grande) o ciclo a que Risto chama um "quase minifestival", a Orquestra Gulbenkian sobe ao palco dirigida por Joana Carneiro, com a voz da soprano Elisabete Matos, que assim regressa à Gulbenkian depois de mais de uma década sem pisar aquele palco. Ouvir-se-á a Sinfonia n.º 3 de Górecki, "que já é um clássico da música contemporânea religiosa", além das duas peças encomendadas para celebrar o centenário das aparições em Fátima: Salve Regina, de Eurico Carrapatoso, e The Sun Danced, de James MacMillan. "Diria que é um grande regresso, porque vai cantar nas três obras", diz o diretor musical.

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