A música íntima do amor

O AMOR É UMA COISA ESTRANHA Ira Sachs

Um dos abraços mais comoventes que vi nos últimos tempos está neste filme. John Lithgow e Alfred Molina são os atores que se unem nesse gesto comovente, com eco em cada detalhe de O Amor é Uma Coisa Estranha. De facto, não é possível pensar neste filme sem percorrer a sua estrada emocional, cheia de semáforos narrativos que nos levam a parar para viver com as personagens, e experimentar a sua contida mágoa.

Ben (Lithgow) e George (Molina) são um casal homossexual que, oficializando a relação 39 anos após iniciarem vida conjunta, se veem obrigados a deixar o apartamento, devido ao despedimento de George, professor de música numa escola católica. Atrás da situação embaraçosa de pedir sofá aos amigos e familiares, enquanto procuram casa, vem a própria complicação do mercado imobiliário, que vai corroendo a esperança e resiliência dos dois.


Fugindo ao retrato arrumadinho e superficial de uma situação temporária, o filme de Ira Sachs tem a delicadeza e sinceridade de um Make Way for Tomorrow (1937), de Leo McCarey, que se encontra aqui com as notas de Chopin, cientes de uma tristeza suave.

classificação: ****

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.