A moçambicana Tânia Tomé reúne poesia em "Showesia"

Representante da nova geração de artistas moçambicanos, a pianista e poetisa Tânia Tomé, de 29 anos, apresenta-se pela primeira vez no Brasil, reunindo música, dança e poesia numa mesma perfomance, o "Showesia", espetáculo de canto e movimento.

"Me sinto uma cantora e compositora completa, pois consigo criar as minhas próprias mensagens, e as minhas são cantar o amor. Eu sou uma pessoa de emoções, sentimentos, o que ouço, vejo e toco tem uma base fundamental para mim", disse a escritora à Lusa.

Nascida em 1981, em Maputo, Tânia Tomé surge como uma voz da geração de artistas contemporâneos que exporta a "moçambicanidade" através das dezenas de convites que tem recebido para participar de eventos de música, artes e saraus na Europa, África e América do Sul.

Numa breve passagem pelo Rio de Janeiro, depois de estar no Festival de Medellín, na Colômbia, no início de julho, Tânia fará no próximo dia 15 uma apresentação única do projeto Showesia.

"Eu pergunto como é que me descobriram", questiona-se Tânia que se disse admirada pelas criações poéticas do Brasil. "Além de poeta, sou cantora e compositora, a minha ligação com a música é muito forte".

No espetáculo "Showesia", Tânia afirma que traz a ideia de "cantar um poema". Segundo ela, é um "show" de poesias com vários instrumentos. "Tem tudo: cantar a poesia, teatralizar a poesia e dançar a poesia. Tudo meu é moçambicano, a forma como me movimento em palco é completamente moçambicana".

Para aproveitar a sua vinda ao Brasil, país que visita pela primeira vez, a jovem poetisa, cantora e pianista teve a oportunidade de entrar em contacto com a nova poesia brasileira.

Tânia esteve na noite desta quarta-feira no primeiro Encontro de Poetas, que reuniu mais de 40 artistas brasileiros nos jardins da Biblioteca Nacional no Rio.

"É muito interessante ver e sentir o quanto as pessoas, mesmo distantes do lado do Atlântico e do Índico, estão completamente ligadas. É uma ponte criada, está a ser uma experiência bastante interessante", afirmou Tânia ao referir o contacto com poetas brasileiros.

Artista de múltiplos talentos, Tânia Tomé tem representado Moçambique em vários encontros internacionais.

Em 2010, a moçambicana apresentou seu trabalho na Alemanha, em Portugal, no Porto, e em Lisboa, na Casa da Morna. Ela esteve também no Botswana, Nigéria e África do Sul. "Mas tive que recusar convites do Zimbábue, Nicarágua e Colômbia. Este ano aceitei ir à Colômbia e tenho um convite para voltar ao Brasil, para Brasília, em setembro, mas infelizmente não vai ser possível".

Grávida de quatro meses, Tânia decidiu passar mais tempo em sua cidade, Maputo. No Brasil, ela tem um livro publicado "Agarra-me o sol por trás", pela Editora Escrituras.

A poeta e cantora, já recebeu prémios internacionais, como o do Festival da Canção de Porto, em Portugal; o Soundcity Music Award, na África do Sul; e o Prémio de Música da Organização Mundial de Saúde.

Segundo um dos organizadores do Encontro de Poetas na Biblioteca Nacional no Rio, o produtor cultural Claufe Rodrigues, o trabalho da Tânia assemelha-se muito ao que é desenvolvido no Brasil.

"Fiquei encantado com o livro dela. É a grande irmandade dos poetas conectados. O tipo de trabalho que a Tânia Tomé faz é o que a gente desenvolve aqui no Brasil há 30 anos, uma apresentação pública do poeta, não só declamar, mas cada um diz a poesia à sua maneira, usando o corpo", disse à Lusa.

Para Claufe Rodrigues, apesar das proximidades linguísticas, pouco se sabe da poesia moçambicana. "Costuma se falar muito da poesia da África, que na verdade são várias Áfricas. Me apaixonei pela poesia dela".

Aproveitando a sua breve passagem pelo Brasil, Claufe está a gravar um documentário sobre sua experiência no Rio e, assim como seu livro "Agarra-me o sol por trás", a ideia do documentário é "agarra meu Rio por trás", contou. "Esse contraste e as imbricações culturais, é isso que interessa para o documentário".

Para o jovem poeta brasileiro,Domingos Guimarães, 31 anos, que esteve em Moçambique nos anos de 1990, a poesia e as artes deveriam ser o ponto de contato dos países de língua portuguesa.

"Acho bastante diferente (a poesia moçambicana). Existe a herança de uma literatura portuguesa. Eu não conhecia a Tânia. Achei interessante. Ela mistura a poesia com música, uma poesia que fala sobre danças tradicionais de Moçambique".

Além da língua portuguesa, Tânia compõe versos nas suas línguas maternas, o Xangana e o Bitonga.

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