Richard Zimler conta como foi perseguido na Feira do Livro

O escritor Richard Zimler recorda o que lhe aconteceu na Feira do Livro de Lisboa em 2006, a primeira a que foi dar autógrafos.

Em Maio de 2006, o meu romance "Goa ou o guardião da aurora" saiu. Logo a seguir, fui convidado por um dos telejornais para falar do livro. Foi na véspera da minha primeira sessão na Feira do Livro de Lisboa. Muita gente viu o programa e apareceu no dia seguinte para obter o meu autógrafo. Daí, tinha uma fila longa quase toda a tarde. Fiquei grato, claro. Mas num determinado momento, uma senhora já de uma certa idade, pequena, desmazelada, pôs-se atras de mim, a uma distância de 10 metros, e começou a gritar numa voz áspera e vingativa: "Zimler não é judeu, é Nazi! Zimler não é judeu, é Nazi!" Fiquei chocado e preocupado, pois ficou claro que não regulava bem. Vi-me obrigado a virar para ela constantemente para ter a certeza que não me ia atacar. Sempre que olhava para ela começava a subir o volume dos seus gritos. Foi horrível. E ninguém me ajudou. A polícia nunca apareceu. Passados 20 minutos, foi se embora. Mais tarde, soube que escolheu o Saramago como a sua próxima vítima.

O livro que eu queria encontrar na Feira: Minha Antonia de Willa Cather

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.