A luta armada que Cunhal autorizou por Pacheco Pereira

No quarto volume da biografia política de Álvaro Cunhal que José Pacheco Pereira vai publicar há novos aspetos sobre o mítico secretário-geral do PCP. o da luta armada é um deles.

Em 1999, José Pacheco Pereira publicou o primeiro volume da Biografia Política de Álvaro Cunhal. Ainda o próprio secretário-geral comunista estava vivo e era grande o receio - tal como a curiosidade - dos militantes do PCP em assumir que liam ou consultavam o volume. Os tempos mudaram, a investigação do historiador cresceu de três para cinco volumes, tal como a documentação disponível em arquivos estrangeiros. Enquanto isso, os militantes começaram a testemunhar depois de ver o que existia no primeiro volume. E o próprio Álvaro Cunhal nunca pronunciou uma fatwa sobre a obra de José Pacheco Pereira.

Com o quarto volume a chegar às livrarias, o autor recusa comparar as dificuldades na escrita dos vários títulos: "Cada volume tem problemas próprios." Mas não nega que em O Secretário-Geral exista uma característica que o torna diferente dos volumes anteriores: "Há mais fontes orais, mais gente viva que saiu do PCP e fala à vontade. Mas, a minha orientação era dar grande atenção aos documentos, porque um dos problemas da historiografia do comunismo, que se revelou com a abertura dos arquivos soviéticos e romenos e os dos partidos comunistas francês, italiano e espanhol, é o das pessoas tenderem a reconstruir a sua memória dos acontecimentos."

A investigação de duas décadas também levou Pacheco Pereira a mudar de opiniões, designadamente sobre o movimento comunista internacional: "Há muitas coisas que hoje vejo de forma diferente, como a ideia de que há um monolitismo no movimento comunista e que era a União Soviética que dava as orientações e que os partidos estrangeiros as seguiam. Hoje, não tenho essa ideia, mesmo nos que lhe estão mais próximos, pois pude ler atas e descrições internas que mostravam como a dada altura os soviéticos tinham de conciliar muitas das suas posições com os partidos comunistas italiano, francês, romeno, búlgaro e mesmo com o português." Entre as novidades, está também "um vasto conjunto de pormenores relativos a aspetos da ação internacional de Cunhal" a que o historiador acedeu nos arquivos do FBI sobre o Partido Comunista Americano.

Excerto da pré-publicação capítulo O PCP e a Luta Armada

"Até que ponto o pensamento de Cunhal sobre a insurreição armada era uma vénia sem consequências a um leninismo tardio, pressionado pelo esquerdismo, ou era para tomar a sério? Dez anos de críticas esquerdistas, entre Rumo à Vitória e o 25 de Abril, acentuam apenas a dificuldade das «condições» que Cunhal considerava serem necessárias para a insurreição, como uma forma de parecer revolucionário, mas atuar como um reformista.

Tal crítica não vai ao âmago das questões colocadas por Rumo à Vitória, nem pelo que se sabe da atuação de Cunhal em relação com a luta armada. A crítica esquerdista minimizava a particular personalidade política de Cunhal, a sua biografia no PCP, sempre na vanguarda, quer das retificações contra a «direita», quer contra o browderismo de Piteira, como contra Fogaça. Precisava de fazer um downgrade da identidade revolucionária de Cunhal e para isso ocultar a sua contínua reafirmação, singular no contexto do movimento comunista da época, da luta armada, ou, como afirmou na I Conferência da FPLN, do «choque violento». Nos últimos anos, Cunhal não faz outra coisa que discutir ações armadas, «operações especiais», violência revolucionária. Mas fá-lo quase sempre para contrariar ideias e planos que considera irresponsáveis e aventureiros. Cunhal, aliás, ironiza com aqueles que o acusavam de insistir tanto nas «condições»:

«Alguns amigos nossos ficam perplexos ou desanimados com "tantas condições" que o Partido Comunista coloca para o desencadeamento da insurreição. "Assim nunca mais se lá chega", dizem eles. Chega-se, sim.»

A crítica esquerdista esquece ou minimiza o facto de que, na mesma altura em que Rumo à Vitória se publicou, o PCP, sob a direção de Cunhal, estava a preparar uma organização para realizar ações violentas, que acabaram por surgir muito mais tarde, mas que datam, na sua conceção e tentativa de materialização, desta época. Contrariamente à crítica esquerdista, Cunhal tentou avançar com a preparação e o desencadeamento de ações violentas, muito antes de aparecer a ARA. E não é um novo plano, mas uma decorrência consistente com as posições de Cunhal desde que fugiu da cadeia.

Cunhal aliás di-lo com clareza em Rumo à Vitória, explicando inclusive o modus operandi. O partido tem uma «tarefa nova»:

«organizar ações de autodefesa das massas, ações que visem atingir mais diretamente o aparelho militar da Guerra Colonial, que criem dificuldades ao aparelho repressivo, que dificultem a propaganda fascista e deem novos aspetos à agitação e propaganda antifascista. A execução de tais ações não pode ser deixada à espontaneidade. Tem de ser encarada no terreno prático»".

Leia entrevista a José Pacheco Pereira e pré-publicação na edição em papel do DN ou e-paper

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