A improvisadora que não dispensa a melodia

Susana Santos Silva começou a aprender trompete aos 7 anos pela mão do avô, na banda fundada pelo trisavô. O jazz só entra na sua vida dez anos depois, na Orquestra de Jazz de Matosinhos

O destino de muitos colegas de profissão, em Portugal, é dar aulas ou ter qualquer outra atividade profissional que permita pagar as contas. Quis o destino que Susana Santos Silva, durante seis anos, juntasse um pecúlio graças à sua participação na banda do programa de TV Praça da Alegria. Olha para trás sem orgulho, mas com pragmatismo: "Foi o que foi, mas deu-me oportunidade de juntar muito dinheiro, e isso deu-me uma liberdade muito grande. Musicalmente foi uma experiência difícil, mas ganhei uma almofada para fazer o que queria." Em 2008, com essa almofada no lugar da mala de cartão, Susana Santos Silva sentiu-se livre para sair do Porto, cidade natal, e partir para Roterdão, onde aprofundou os estudos (mestrado em Jazz Performance) e teve a oportunidade de conhecer outros músicos. Um deles português, Gonçalo Almeida. Com o contrabaixista e com o baterista canadiano Greg Smith formou o trio Lama. "De repente tinha liberdade para fazer experimentações, podia procurar o meu caminho e não ter receio de o fazer. A cena no Porto era bastante separada, o jazz da Orquestra de Jazz de Matosinhos (OJM), os músicos da Porta Jazz e os da Sonoscopia, tudo à volta da experimentação. No meio não havia nada, que é onde gosto de me movimentar, onde tudo pode acontecer."

Susana Santos Silva começou a aprender a tocar trompete com 7 anos, na Banda Marcial da Foz do Douro, cuja história se confunde com a da família. O trisavô Joaquim dos Santos foi um dos dois fundadores do agrupamento. E o avô, que ali tocava trompete, ensinou os netos a tocar esse instrumento, mas também trombone e clarinete. Aos 10 anos, Susana prosseguiu os estudos no Conservatório de Música do Porto. "E quando tinha 17 anos, o Carlos Azevedo, que estava a dirigir a OJM, ouviu-me numa audição do conservatório e convidou-me a ir para lá." Até esse momento, admite, a sua relação com o jazz era distante. "Provavelmente só teria o Kind of Blue, de Miles Davis, não tinha muitos conhecimentos. A OJM foi a minha escola, toquei lá durante 20 anos. Tínhamos ensaios todas as semanas e fizemos 300 mil concertos com músicos fantásticos." Desconte-se o pequeno exagero et voilà: "Foi muito importante para o meu desenvolvimento enquanto música, mais do que a escola."

A Orquestra de Jazz de Matosinhos ficou para trás, em definitivo, quando a trompetista e fliscornista trocou a vida errante entre Portugal e a Escandinávia e se fixou em Estocolmo. Coração e razão ditaram a escolha. Conheceu o contrabaixista Torbjörn Zetterberg no Portalegre Jazz Fest e passados dois meses estava na Suécia, onde gravaram o primeiro álbum em duo, Almost Tomorrow. "Além de tocarmos juntos, é meu companheiro desde há quatros anos e meio. A partir do momento em que comecei a passar mais tempo na Suécia conheci mais músicos e fez todo o sentido mudar-me, devido a essa comunidade." Uma cena artística "muito forte" e que lhe permitiu entrar em vários grupos e liderar o quinteto com que se apresentou há dias no Jazz em Agosto, Life and Other Transient Forms, um grupo de música totalmente improvisada. Desengane-se quem associe a improvisação de Susana Santos Silva ao ruído caótico. "A melodia é muito importante para mim, um projeto só com ruído não me ia satisfazer. Neste tipo de música às vezes a dificuldade está em que as pessoas apareçam. Mas nós tocamos para as pessoas, senão não faz sentido."

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