A história do hip hop tuga vai passar pela Ericeira

Os maiores nomes do hip hop nacional juntam-se no Sumol Summer Fest. De Black Company a Capicua

"Bantú não sabe nadar yo, K.J.B. não sabe nadar yo, Madnigga não sabe nadar yo, Makkx não sabe nadar yei." Parece que foi ontem, mas já passaram mais de duas décadas desde que este refrão entrou na memória coletiva da música portuguesa. O hip hop nacional dava então os primeiros passos e os Black Company assumiam-se como um dos pioneiros deste novo movimento cultural, nascido nos subúrbios de Lisboa e Porto e apresentado ao mundo na coletânea Rapública, cuja faixa de abertura era precisamente Não Sabe Nadar. O tema viria a transformar-se no primeiro grande êxito do hip hop nacional, anunciando, antes do tempo, um sucesso que apenas viria a tornar-se realidade mais de uma década depois.

"O Nadar deixou de ser nossa, foi uma música que se tornou de todos e extravasou por completo as fronteiras do hip hop", recorda Bambino, um dos mc do grupo, na altura conhecido como Madnigga. "Na altura éramos muito novos, não havia estrutura para nada. Assinámos com a Sony e lembro-me de nos dizerem que se vendêssemos mil CD já dava para pagar as despesas. Acabámos por vender 80 mil. Abrimos para a Tina Turner e para o Prince, tocámos na primeira edição do festival Super Rock e, hoje, a letra do Nadar até está nos livros escolares. Foi um feito único na história do hip hop português", acrescenta por seu turno o dj KJB, vindo de propósito da Holanda, onde vive desde há alguns anos, para esta reunião da formação original da banda, uma das convidadas do espetáculo A História do Hip Hop Tuga, que será amanhã um dos pontos altos do primeiro dia do Sumol Summer Fest, na Ericeira.

Vai ser uma espécie de seleção nacional do hip hop, a que vai passar pelo palco do festival, que para além dos Black Company vai também receber nomes como Nel" Assassin, Bispo, Sam the Kid, Dealema, Chullage, Capicua, Allen Halloween, Dengaz, NGA, Dillaz, Grognation, Holly Hood, Mind da Gap, Valete, Sir Scratch, Bob the Rage Sense, NBC e Tekilla. A ideia partiu do músico e produtor Sensi, que no ano passado fez uma curadoria de hip hop num dos palcos da semana académica de Lisboa. "Começava com um DJ set e depois juntávamos alguns MC. Correu muito bem e começámos a pensar em elevar esse espetáculo a um outro nível", explica. E tendo em conta a atual força do hip hop nacional, lembrou-se de fazer um espetáculo que explicasse às gerações mais novas o percurso desta cultura desde os seus primórdios, algures na viragem entre as décadas de 80 e 90 do século passado.

Preservar a memória

"Para chegarmos onde estamos hoje houve muita gente que teve de andar na luta, a desbravar caminho. É um projeto de celebração desta cultura, de uma forma quase educacional, porque há muita gente, em especial nas gerações mais novas, que não conhece o percurso do hip hop português", sustenta, dando o exemplo do irmão mais novo. "Há uns tempos fiz uma versão do Jorge Palma, para a Antena 3, e o meu irmão não fazia ideia de quem ele era. Dei-lhe os discos para ir estudar aquilo e como o nosso pai é músico (Sensi é filho de Kalu, o baterista dos Xutos e Pontapés) ainda levou um calduço, porque tinha obrigação de conhecer. Se nem o Jorge Palma conhecem, como vão saber quem foram os Mind da Gap ou o Chullage, que não são artistas tão transversais, mas durante anos alimentaram a base da cultura hip hop?"

O critério de seleção, tanto dos artistas como dos temas, teve portanto que ver com a relevância de cada um nos determinados momentos da história do hip hop. E foram alguns, segundo Sensi: "no início dos 90, com o Rapública, no ano 2000 com o Valete, o Xeg ou o Sam the Kid e depois em 2005 e 2015, que foram anos também muito importantes." Houve, ainda assim, "uma espécie de negociação com o promotor do festival". Foram cerca de 50 os nomes propostos, mas, depois, "teve de haver uma escolha, porque o espetáculo apenas vai ter duas horas". Para ninguém ficar de fora, os que não puderam estar presentes vão ser homenageados em vídeo. Certo é que este será um momento único na história do hip hop nacional, com passado, presente e futuro a cruzarem-se no mesmo espaço e tempo. Porventura mesmo irrepetível, como sublinha Sensi: "Já tivemos convites para fazer mais, mas só pode acontecer uma vez, porque não queremos banalizar nem tirar partido deste momento. Vai ser aquela noite e quem lá estiver jamais a vai esquecer."

Sumol Summer fest

DJ Big, Digital Farm Animals, História do Hip Hop Tuga e Fat Joe; Deejay Telio & Deedz B, DJ SlimCutz, Valas, Post Malone e Sean Paul

Ericeira Camping, 30 de junho e 1 de julho

Bilhetes de 22 a 38 euros

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.