A grande festa do fado regressou a Alfama

A cumprir a quinta edição, o Caixa Alfama é hoje uma espécie de segundo Santo António, que anualmente celebra o fado pela ruas vielas do popular lisboeta. Marina Mota, Antonio Zambujo ou os irmãos Pedro e Helder Moutinho foram alguns dos cabeças de cartaz do primeiro dia de festival

Pouco passava das sete e meia da tarde, quando a Marcha de Alfama partiu do Centro Cultural Magalhães Lima, bairro abaixo, com uma multidão de gente, entre locais e muitos turistas, a acompanhar os marchantes. "Parece que é Santo António outra vez", exclama à janela, enquanto bate palmas ao compasso da marcha, uma sorridente anciã. Não é, mas "é quase", dizia ao DN, minutos antes, o marchante Diogo Vaz, a quem hoje cabe liderar a marcha, dando assim início, como já é da tradição, a mais uma edição do Caixa Alfama, um festival criado em 2013, o primeiro dedicado em exclusivo ao fado e que rapidamente se assumiu como a grande festa do fado.

São quase meia centena os artistas presentes nesta quinta edição, distribuídos por onze palcos, alguns deles situados em lugares emblemáticos do popular bairro lisboeta onde terá nascido o fado, como são o Largo Chafariz de Dentro, o Largo das Alcaçarias, as igrejas de São Miguel e de Santo Estêvão ou coletividades como a Sociedade Boa União, o Grupo Sportivo Adicense ou Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, onde ontem atuaram os irmãos Pedro e Hélder Moutinho, naquele que era um dos momentos mais aguardados desta primeira noite.

"Não é um espetáculo conjunto, que eu não gosto cá de misturas", diz Pedro, pouco antes de subir ao palco, provocando uma gargalhada ao irmão. "Realmente só no Natal e no Caixa Alfama é que nos juntamos", responde Hélder, lembrando as muitas vezes que já estiveram presentes neste festival, às vezes até do lado do público. "É a grande festa anual do fado e até para nós, artistas, tem um lado de descoberta, porque o cartaz aposta sempre muito em novos valores."

O responsável pela programação do festival é José Gonçalez, também ele fadista e a quem coube ontem, na companhia dos Sangre Ibérico, abrir o palco principal do festival, situado em frente ao rio Tejo. Para este responsável, o balanço destas cinco edições "é ótimo". Segundo José Gonçalez e "tal como aconteceu em anos anteriores", o festival vai esgotar. Ou seja, em cada uma destas duas noites, haverá mais de 15 mil pessoas a deambular por Alfama de palco em palco.

Marina Mota diz que é fadista até quando está calada

"Não parece, é mesmo um segundo Santo António", admite Gonçalez, cuja principal preocupação, enquanto programador destes dois dias "é unicamente a de celebrar o fado". Daí a aposta em nomes históricos, "que honrem o passado", nos grandes artistas do presente, nas esperanças do futuro e também "em projetos vindos de outras áreas musicais, exteriores ao fado, mas que com ele tenham pontos de contacto, como é o caso dos Sangre Ibérico com que hoje subirá ao palco. "São um grupo que une o flamenco ao fado, com quem já atuei o ano passado e foi o público a exigir de novo a sua presença, mas agora num palco maior", revela.

Quem também está de regresso um ano depois e igualmente promovida para o palco principal, é Marina Mota, que atuou antes de António Zambujo, o grande cabeça-de-cartaz desta primeira noite. "Estou apavorada", confessa ao DN a artista no seu camarim. Não pelo palco principal, claro, que a isso está Marina Mota habituada, seja no teatro ou na televisão, mas sim "pela falta de treino nas cordas vocais". Apesar de cantar o fado "há mais de 40 anos", Marina Mota não o faz com a regularidade que gostaria. "Sou fadista até quando estou calada, mas a minha vida não me permite cantar com a regularidade que gostaria. A última vez que o fiz foi há um ano, aqui mesmo. É por isso que sempre que canto é como se fosse uma estreia", confessa com um sorriso.

Lisboa à Noite em coro

A marcha de Alfama levou um segundo Santo António ao Bairro

A Marcha de Alfama já passou entretanto por todos os palcos, terminando, como habitualmente, em frente ao palco principal. Por Alfama começam finalmente a ouvir-se, aqui e ali, os trinados das guitarras e as vozes a soltarem-se. Dois dos locais mais concorridos, neste início de noite, eram o Largo de São Miguel e o Largo do Chafariz de Dentro, lugar dos espetáculos de entrada livre, oferecidos pela organização do festival ao bairro.

Especialmente o primeiro, onde, seis vezes por noite, se realiza o Fado à Janela, juntando uma verdadeira multidão, que se acotovela nas escadarias na Igreja de São Miguel para ouvir o trio composto por Jorge Silva (guitarra portuguesa), Miguel Monteiro (viola) e José Manuel Rodrigues tocar clássicos como a Rosinha dos Limões ou Lisboa à Noite, cantados por todos em coro. E ali estarão de novo esta noite, para o segundo momento deste Festival Caixa Alfama, que recebe hoje nomes como Alexandra, Ana Sofia Varela, Marco Rodrigues, Paulo Bragança ou Gisela João. É seguir o som das guitarras bairro fora, de palco em palco.

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...