A Eterna Desculpa: reaprender o luto na era da imagem

A Eterna Desculpa é o primeiro filme da japonesa Miwa Nishikawa a estrear nas salas portuguesas .

Eis uma brisa oriental a entrar nas nossas salas. Na mesma semana em que estreia Esplendor, o filme-equívoco de Naomi Kawase, há uma alternativa bastante melhor para satisfazer os desejos de cinema japonês. Chama-se A Eterna Desculpa, teve o seu lançamento no Festival de Toronto, e é também realizado por uma mulher cineasta, cujo trabalho independente nunca antes tinha sido distribuído em Portugal. A voz de Miwa Nishikawa (n. 1974), discípula do mais recente vencedor da Palma de Ouro, Hirokazu Koree-da, com quem se iniciou no cinema como assistente de realização, chega-nos assim numa discreta mas notável expressão dramática. A história parte de um romance da própria realizadora, que o adaptou ao grande ecrã.

A Eterna Desculpa tem como protagonista, justamente, um escritor (Masahiro Motoki, impecável). Um homem das letras frustrado, mais conhecido por fre-quentes aparições televisivas, e desiludido no seu casamento. É pouco depois do início do filme que a sua doce mulher morre num acidente de autocarro, quando ia de viagem para umas férias na neve com a melhor amiga. Nesse momento, estava com a amante e recebe a notícia através de uma mensagem de voz. Sem uma única lágrima para derramar, não permite que isso desfaça a boa imagem perante as câmaras de televisão que acompanharão o seu luto.

Já a câmara de Nishikawa interessa-se pela imperfeição humana e moral deste escritor, pelo tamanho do ego que o move, por exemplo, na pesquisa aflitiva do seu nome na internet para saber o que pensam dele. É, no entanto, o próprio que, carregando toda a ambiguidade do mundo, vai tentar operar uma mudança na sua vida depois de conhecer o marido da amiga da mulher, que também morreu no acidente. Por contraste, este é um homem muito simples, inconsolável no seu luto, condutor de camiões e com dois filhos para criar. O escritor oferece-se para cuidar das crianças enquanto ele trabalha e da relação renasce a sua humanidade.

Desengane-se quem pense que daqui está feito um cenário feliz e repleto de bons sentimentos. Não. Este é um filme onde se escreve torto por linhas direitas, e ainda bem. Nishikawa não quer sublinhar demasiado as emoções, e por isso equilibra o drama com laivos de comédia. Eles permanecem lá, mas arejados. A realizadora confere-lhes um charme realista, presente na atmosfera da mudança das estações, na progressiva maturidade das personagens (e é extraordinário como o mais adulto de todos é uma criança), e até no crescimento do cabelo... A saber, a mulher do escritor era cabeleireira, e a única coisa bonita que ele disse no seu funeral é que nunca mais permitiria que lhe cortassem o cabelo - esse era um lugar só dela.

São estes pormenores, esta sensibilidade (também literária) de Miwa Nishikawa que faz de A Eterna Desculpa um filme delicadamente dramático. A única ambição deste cinema é fazer-se à medida da natureza humana.

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