"A crítica internacional está muito recetiva ao cinema português"

Em Portugal como convidado do Porto/Post/Doc, Dennis Lim, programador de cinema do New York Film Festibal, falou com o DN e não escondeu o seu entusiasmo pelo cinema português

Ao longo dos anos tem mostrado ser um entusiasta do cinema português, quer como crítico quer como programador. Já deu por si a refletir de onde provém esse seu amor pelo nosso cinema?

É difícil de dizer, talvez seja mais puxado para um certo tipo de cinema, não sei... Portugal tem das maiores concentrações de cineastas interessantes por metro quadrado. Refiro-me não só aos que estão atualmente em atividade, mas também os do passado, como Oliveira, António Reis, César Monteiro e todos esses gigantes. Creio que só nos últimos dez anos é que o resto do mundo está a descobrir essas figuras... Torna-se muito excitante poder descobrir o cinema português.

Há também uma nova vaga...

Que não é assim tão nova, sobretudo os que agora estão com mais pujança, como o Miguel Gomes, o João Pedro Rodrigues e o Pedro Costa, que já estão em atividade há mais tempo. O interessante é que são todos cineastas muito diferentes. Não podemos dizer que o cinema português esteja ligado através de uma temática em particular. É muito invulgar um país como Portugal ter uma cultura cinéfila tão forte. Fico sempre espantado como as pessoas aqui levam tão a sério o cinema.

É um facto que os festivais internacionais, sobretudo os mais relevantes, recebem sempre de forma calorosa o cinema português. Diria então que a sua diversidade é um dos fatores dessa boa recetividade?

Sim, é incrível como um país que não produz tanto cinema acaba por ter maior impacto do que, por exemplo, o cinema espanhol. É importante que se perceba isso! A crítica internacional está muito recetiva ao cinema português. Pode não se produzir muito cinema em Portugal, mas a percentagem selecionada para os festivais é fortíssima e muito mais elevada do que a maioria dos países.

Como um dos programadores do New York Film Festival, pode afirmar que a seleção passa por refletir o melhor dos melhores que veio dos outros festivais?

Sim, sempre foi esse o conceito. Não queremos ser um festival de indústria, queremos que as pessoas olhem para a nossa programação e possam perceber que aqueles são os melhores filmes do ano segundo os nossos programadores.

Uma das tendências da imprensa online neste momento é tentar colocar críticas dos filmes instantaneamente após o primeiro visionamento. Isso preocupa-o?

Não gosto, diria assim... Para se escrever uma crítica é preciso algum tempo. Nos festivais acontece isso imenso! Mal um filme é mostrado, são necessárias umas frases logo nos primeiros cinco minutos...

No Porto/Post/Doc foi convidado para programar com carta-branca. Qual foi o seu critério?

Tal como em 2014, a ideia foi trazer alguns filmes que tivesse programado, mas, como em 2015 o festival tinha uma ideia específica para o Fórum do Real, pediram-me para ter isso em mente. Acabou por ser uma carta-branca mais alargada em termos temáticos. O programa com Notícias de Casa (1976), de Chantal Akerman, foi óbvio, pois estava com ela em mente logo após a sua morte. É um dos meus filmes favoritos da sua filmografia - estão lá muitos filmes e combina muito bem o "pessoal" e o "formal". A minha outra escolha, dois filmes de Apichatpong Weerasethakul, O Hino (2006) e Síndromes e Um Século (2006), têm a ver com a abertura que há na definição de "imaginário" e "real". Quando ouvi pela primeira vez a frase "documentar o imaginário" pensei logo neste cineasta.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.