A carta sonora de Carmen e Theo: para dizer que a vida são dois dias

Ela canta, ele toca baixo e contrabaixo. Saíram os dois de Portugal para Londres há oito anos. Tornam agora com concertos, de Lisboa a Estarreja

O discurso de Carmen Souza é circular. Não que seja repetitivo, é coeso. Por exemplo, falamos de Moonlight Serenade, a versão da música de Glenn Miller com voz dela e o baixo de Theo Pascal, última faixa do novo disco dos dois, Epístola. "Moonlight Serenade faz parte da nossa infância. Quando ouvíamos este tema, levava-nos logo para grandes salas, muito bonitas, em que uma big band está a tocar e as pessoas estão naqueles bailes muito antigos e que agora praticamente já não existem. Agora o que existe são as discotecas, em que as pessoas estão a abanar a cabeça, mas não existe uma harmonia, não é precisa, basta existir um beat."

Disse-o pelo telefone, de Londres, onde ela e Theo vivem há oito anos. Só chegariam hoje, dia do primeiro concerto em Portugal, às 21.30 na Culturgest, Lisboa. Mais à frente - e este é um dos pontos onde o círculo se fecha, como aconteceria depois uma e outra vez - Carmen lança: "Faz parte de mim tentar ter fé em que o ser humano vai voltar a ser humano, e não tanto máquina, como nos estamos a tornar." (Lembram-se do beat e da harmonia big band há pouco?)

Falávamos da fé porque tratávamos da sua música. Tornávamos ao início na altura em que ela lança Epístola, seu sétimo álbum. Começou a cantar num coro gospel da igreja evangélica que frequentava e em cuja fé foi educada. Vivia em Almada com a mãe, cabo-verdiana de Santo Antão. "O meu pai passava o tempo todo a trabalhar fora. Trabalhava em barcos de carga pelo mundo inteiro. Era capaz de passar 11 meses a trabalhar e passava um mês cá de férias." Quando tinha "18, 20 anos" apareceu Theo Pascal, baixista e contrabaixista de Lisboa. E Theo tinha "aqueles discos todos de jazz". Não se largaram mais. Até aí, em casa dos pais "ouvia-se muito Bana, Cesária [Évora], Luís Morais, Travadinha".

Com Theo, a tropa era outra. Entra Billie Holiday, entra Thelonious Monk. "Ouvi vários artistas de jazz, de pianistas a cantores, de saxofonistas a trompetistas, e todos eles me tocaram pela maneira como encaravam a música como própria." É normal, portanto, que lhe oiçamos Billie na voz em Moonlight Serenade ou Maria João em Cape Verdean Blues - aqui voltaremos. É normal que exista um tema intitulado Afro Monk. Uma homenagem a Thelonious. Afro. Como a música que se ouvia em sua casa e "o andar com os pés descalços no chão" que os seus pais lembravam de Cabo Verde, que ela visitou pela primeira vez aos 10 anos. Agora tem 34. E já percorreu o mundo quase todo. Como, aliás, o seu pai. "Não existe um país por onde eu passe e o meu pai não tenha já por lá passado", conta.

Uma história de vários sons

Do pai voltamos a casa e à fé em que foi educada. A alegria da sua música vem em parte daí. "Não vou à igreja todos os domingos, mas continuo a tentar seguir tudo aquilo que aprendi. E penso que é também isso que a minha música poderá fazer a quem esteja a ouvir. Poder tocar as pessoas e fazer ver que a vida são dois dias." Depois há a morna ao lado do funaná, a melancolia. Mas a alegria prevalece.

Esta Epístola é tudo isso. "Uma carta que tem vários sons, várias histórias." Histórias de uma viagem que continua e que, diz Carmen Souza, todos os dias avança. "Descubro coisas diferentes. Às vezes são coisas tão mínimas, os músicos têm essas particularidades. Compram 30 sets de guitarra e ouvem diferenças em todos esses sets, mas não ouvem a mulher a chamar do outro lado da sala." Ri-se muito. Falamos de Horace Silva, o americano filho de um cabo-verdiano e cujo swing tinha algo que, nos EUA, poucos sabiam identificar. "Aquilo era um swing cabo-verdiano", diz Carmen. Em Protegid (2010) já a ouvíramos interpretar Song for My Father, de "Horácio da Silva". Em Epístola escutamos Cape Verdean Blues.

Após os concertos em Portugal - Lisboa, Coimbra e Estarreja -, Carmen e Theo continuam na estrada. O pai percorria o mundo em barcos de carga, Carmen faz o mesmo, mas em vez de cereais leva música. "O mais engraçado é que foi quando ele deixou de viajar que eu comecei." Um círculo, portanto. Nos dois dias que a vida tem.

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