A beleza de Raimund Hoghe não se encontra nas revistas

O coreógrafo alemão que durante dez anos trabalhou com Pina Bausch regressa a Lisboa com "Songs for Takashi", na Culturgest, em Lisboa

Na única vez em que Raimund Hoghe fez uma audição, para Young People, Old Voices (2002), na Bélgica, "toda a gente falava de uma rapariga", a mais bonita de Bruges. Mas o coreógrafo alemão que tomou para si a expressão de Pier Paolo Pasolini "lançar o corpo na batalha", mostrando o seu, corcunda, quando a viu, disse-lhe: "És demasiado bonita." Hoghe explica: "Não procuro a beleza de revista." E, se bem que para a peça lhe possa interessar uma pessoa que encontre a servir à mesa e que não seja bailarino, daqui a duas semanas Hoghe estará no Porto a fazer audições (as inscrições acabam hoje) para a mesma peça, numa versão mais curta, e que deverá estrear em março no Teatro Rivoli.

Agora, porém, Hoghe está em Lisboa, primeiro lugar onde se estreou fora da Alemanha, há 24 anos, para apresentar Songs for Takashi (2015), hoje e amanhã na Culturgest, em Lisboa. Takashi é Takashi Ueno, bailarino japonês com quem o alemão já trabalhou em Si je meurs laissez le balcon ouvert, Pas de Deux, Cantatas ou An Evening with Judy.

No começo de Songs for Takashi, peça fortemente nostálgica, Hoghe está em palco, e ouvimos Liza Minelli cantar Everytime We Say Goodbye. Também é ele que está na frente quando se ouve a voz de Charles Aznavour a cantar Sa Jeunesse. "O Takashi não gosta de estar sozinho em palco, diz que se sente mais livre se eu estiver lá". Tal como acontece em Pas de Deux quando se ouvem as bombas a cair em Hiroshima, agora é a canção Mein lieber herr, uma das mais emblemáticas da Segunda Guerra Mundial, que nos leva a essa época. Hoghe nasceu em 1949 na cidade de Wuppertal, numa Alemanha devastada, que não falava sobre o assunto, mas onde ele, criança, reparava na quantidade de viúvas. Não foi o caso da sua mãe, que ainda assim o criou sozinha, bem como à sua irmã. Ela ia muito ao teatro; já o avô, que lia o jornal na cozinha noite dentro, e com quem também cresceu, levava-o ao cinema.

"Não tínhamos muito dinheiro, mas a minha mãe tinha os seus sonhos. Fazia roupas lindas para nós, e para ela. Quando se olha para as fotografias, ela está sempre muito bem vestida, não como uma mulher pobre." Talvez lhe tenha vindo daí, em parte, o amor à beleza, evidente sobretudo na música que escolhe para conduzir as suas peças. "Tive muito amor da minha mãe, aceitava-me, isto não é muito comum", diz Hoghe, quando falamos do que foi determinante na sua formação. A mãe morreria quando ele tinha 17 anos e, com a irmã numa cidade distante, ficaria sozinho. Depois de acabar a escola, começou a escrever para jornais, ofício que o levaria a publicações como o Die Zeit. Foi enquanto jornalista que conheceu Pina Bausch, de quem se tornaria dramaturgo durante dez anos. "Ela nunca tinha trabalhado com um dramaturgo, e eu não era um dramaturgo. Ela gostava da minha escrita, que eu não explicasse as coisas às pessoas, porque estava ligada à sua forma de trabalhar. Para mim, éramos como irmão e irmã. Interessávamo-nos pelas mesmas coisas, o mesmo tipo de música, o mesmo tipo de pessoas: com personalidade forte."

Perguntamos-lhe como começou a criar movimento. "Eu não crio movimento. Ponho música nos ensaios e os bailarinos reagem." Foi o que fez com Takashi. Que acabamos de ver ao som de Le Temps, de novo com Aznavour.

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