100 anos depois e 500 metros à frente: Amadeo em Lisboa

"Amadeo de Souza Cardoso/Porto-Lisboa/2016-1916" abre hoje no Museu do Chiado, em Lisboa, depois de passar pelo Porto

Da exposição de Amadeo de Souza-Cardoso em 1916 para aquela que hoje inaugura no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado (MNAC) contam-se cem anos e cerca de 500 metros a pé por Lisboa. Foi em dezembro que a primeira abriu portas na então Liga Naval, que ocupava o Palácio Calhariz - onde hoje está a seguradora Fidelidade -, no largo lisboeta homónimo. As 113 obras de Amadeo tinham vindo do Porto (eram 114, mas uma poderá ter sido comprada), cidade onde durante 12 dias mais de 30 mil pessoas foram ao salão de festas do Jardim Passos Manuel (atual Coliseu dos Recreios).

Cem anos depois, as curadoras Raquel Henriques da Silva e Marta Soares fizeram que mais de 40 mil pessoas vissem a mesma exposição recriada no Museu Soares dos Reis, também no Porto, onde esta esteve nos últimos dois meses de 2016. Trata-se de Amadeo de Souza Cardoso/Porto-Lisboa/2016-1916, que hoje, cem anos depois, chega novamente a Lisboa.

Já não estamos na sala de leitura alugada por Amadeo na Liga Naval, que acolhia a coleção oceanográfica de D. Carlos I. Era "um espaço elitista, aristocrático, frequentado por monárquicos e por elementos da geração Orpheu", explicava ontem a curadora Marta Soares. Elementos como Almada Negreiros, que, por essa altura, andava a "distribuir o manifesto de apoio à exposição [de Amadeo] pelos cafés de Lisboa". Dela dizia ser "mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia".

Agora estamos entre as branquíssimas paredes do MNAC. A entrada foi feita pela Rua Capelo, por entre os turistas do Chiado, tão diferente daquele que Amadeo terá encontrado após regressar de Paris. "Não podemos recriar exaustivamente a exposição, não existem fotografias da montagem", explica a curadora. Mas imagina-se que terá sido preciso "um esforço tremendo para encaixar 113 obras numa sala": "Deve ter forrado praticamente as paredes com as obras." Paredes que, exibindo obras como as pinturas Música Surda, Arabesco dynamico = REAL... ou a Canção Popular e o Pássaro do Brasil foram vistas por milhares de pessoas em 1916 e terão chocado outras tantas.

Numa espécie de one-man show, Amadeo, então com 27 anos, fazia visitas guiadas aos jornalistas na exposição da qual ele próprio era artista e curador. Ao mesmo tempo, era como se os guiasse para um tempo à frente do que então corria e para todos os modernismos que ele trazia. Diz-se que houve quem cuspisse nos quadros - história da qual não há registos - e está provado que Amadeo foi agredido na rua. Mas a receção, e isso transparece na imprensa da época, foi mais positiva do que negativa, defende Marta Soares.

A curadora Marta Soares

"[...] Fechei a minha exposição. Nesse mesmo dia continuava a afluir gente. As primeiras [pessoas] ainda entraram, depois mandei fechar as portas porque a afluência crescia", escreveu Amadeo de Souza-Cardoso ao seu tio Francisco em novembro de 1916.

O mundo vivia a Primeira Guerra Mundial. Amadeo, que por essa altura expusera já mundo fora, e que em 1913 havia visto o seu nome ao lado de Cézanne ou Van Gogh no Armory Show, a primeira grande mostra de arte moderna dos Estados Unidos, esperava ainda voltar para Paris em 1917. Contudo, morreria em Portugal no ano seguinte com a gripe espanhola.

Exclusivos

Premium

história

A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.