Ingredientes para uma sopa de pedra

A arte também vai de férias. Esta semana, a aguarela "Na Praia", de Paula Rego.

À página 4 da história escrita pela filha de Paula Rego, Cas Willing, há uma frase onde está escrito o seguinte: "Todos os dias entrava no oceano, indo cada vez um pouco mais longe, cada vez um pouco mais fundo, até recear que o mar a afogasse, mas todos os dias trazia menos comida." A ilustrar essa parte do conto, está uma aguarela de Paula Rego (à esquerda), onde se pode ver uma menina a apanhar marisco para dentro de uma cesta, enquanto uma gaivota voa por perto. A "pescaria" faz parte dos ingredientes necessários para a história tradicional portuguesa da sopa da pedra que vai ser contada neste livro.

O traço não será tão marcadamente reconhecível como é habitual ter-se nos seus quadros, até porque esta é a única aguarela que está no livro Sopa de Pedra e a mais diferente de todas as ilustrações. Nada que a especialista na obra de Paula Rego e curadora das exposições da pintora na Casa das Histórias, Catarina Alfaro, não explique: "A história é contada sobre trabalhos já anteriores a este projeto da filha, tendo Paula Rego feito outros específicos para este livro, bem como utilizado outros relacionados com a história." Talvez isso surpreenda o leitor, pois a menina protagonista do livro tanto surge jovem como adulta. Catarina Alfaro explica: "A intenção de Paula Rego foi mostrar as mudanças de idade que as meninas sofrem ao tornarem-se mulheres, algo que a preocupa bastante e que está sempre visível numa grande parte dos seus quadros."
Pode dizer-se que o verão como temática não é muito frequente na obra de Paula Rego, tal como os cenários exteriores serão também menos usuais. Há no entanto várias exceções, como é o caso recente de uma das quatro telas em que representa o exílio do último rei de Portugal, D. Manuel II, uma das quais, intitulada Remando da Ericeira, retrata a partida da praia dos Pescadores, a 5 de outubro de 1910.

Antes, entre 1987 e 1989, também utilizou o exterior e o imaginário infantil nas gravuras em água-forte e água-tinta intituladas Jovens Predadores e A Dança, ou o mar na série Nursery Rhymes, com Crianças e Suas Histórias e Hey Diddle Diddle. O mar e uma outra menina surgem também em Little Miss Muffet (II) ou em Tiger Lily na Rocha do Corsário. Já em O Baile, o mar está ao fundo e veem-se vários pares a dançar numa noite de verão, como se tudo se passasse nos anos 1950, resultado de uma forte inspiração do folclore, tema querido à pintora. Em O Baile, tons azuis e cinzas intensos dominam, com uma luz que leva quem olha o quadro para o domínio do sonho, num perfeito exemplo da influência do surrealismo e do expressionismo sempre confrontado com as memórias da sua infância, por via das figuras típicas da obra da pintora. Essa marca de Paula Rego também rodeia esta aguarela com a menina a apanhar mariscos a pedido do pai, que com as "pernas fracas" e impossibilitado de pescar, pede à filha, "jovem e forte" para alimentar a família. Um retomar da história da sopa da pedra sob o traço e a prosa de Paula Rego e da filha.

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