"Importa evitar o nu gratuito, mas também o falso pudor"

António-Pedro Vasconcelos fala sobre o seu novo filme, "Amor Impossível", que estreia quinta-feira.

Na decisão de fazer um filme como Amor Impossível, até que ponto pesou o facto de ser uma história inspirada em acontecimentos verídicos?

Não pesou especialmente. Assim como Os Imortais (2003) é a única adaptação literária que fiz, este filme é o único em que recebi do argumentista, Tiago R. Santos, uma história já tratada - no caso de Aqui D"El-Rei (1992), foi o Vasco Pulido Valente que me trouxe a história, mas ainda não havia um argumento. Tinha sido escrita para o Jorge Queiroga, mas ele não teve subsídio para filmar. O Tiago perguntou, então, ao Jorge se ele aceitava que fosse eu a fazer o filme - e estou-lhe muito grato por ter dito que sim. Depois, naturalmente, trabalhámos e alterámos a história. Em qualquer caso, era, de facto, uma história de amor muito violenta sobre a qual me lembrava de ter lido alguma coisa.

Como se passa de uma história inicial para a estrutura de um filme?

Quando falo de qualquer coisa que pode ser identificada pelos espectadores, de temas que, de alguma maneira, interessam à sociedade, faço sempre uma enorme investigação. Por exemplo, a exploração do trabalho infantil, que está em Jaime (1999), levou-me ao Vale do Ave para conhecer as respetivas condições; o regresso dos heróis em Os Imortais (2003) passou por contactos com comandos que tiveram a experiência da guerra; a abordagem da pequena delinquência, em Os Gatos Não Têm Vertigens (2013), motivou muitas conversas com pessoas que lidam com jovens marginais. Informo-me sempre para, depois, criar a minha própria história. Não são experiências minhas: nunca fui sujeito a trabalho infantil, não vivi como um jovem marginal delinquente, não tive a experiência da guerra. Por isso, são filmes diferentes dos primeiros - Perdido por Cem (1973), Oxalá (1981) e O Lugar do Morto (1984) -, deixei de olhar para dentro, passei a olhar para fora.

Desde Call Girl (2007), esse trabalho tem passado pela colaboração com Tiago R. Santos.

Como antes passou pelo Carlos Saboga. Em equipa que ganha não se mexe... Dou-me muito bem com o Tiago, ele é um fantástico argumentista e também dialoguista. A condição de dialoguista é, aliás, fundamental num argumentista, até porque o respetivo trabalho pode ser muito ingrato: a partir do momento em que o filme está feito, desaparece, não é como uma peça de teatro - onde fica a marca do argumentista é nos diálogos. Talvez por sermos de gerações diferentes, por termos maneiras de ver e gostos diferentes, completamo-nos muito bem.

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