Honra concedida "faz da sua memória um símbolo coletivo"

"A concessão das honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello Breyner Andresen faz da sua memória um símbolo coletivo", afirmou hoje José Manuel dos Santos, no elogio fúnebre à poetisa, na sua trasladação para este o monumento nacional.

Na sua alocução, José Manuel dos Santos, membro da Academia Nacional de Belas Artes, sublinhou que esta decisão da Assembleia da República "não faz - nunca fará - de Sophia um escritor oficial ou um poeta de regime, mesmo daquele que a reconheceu e que ela reconheceu".

Santos ressalva que a entrada de Sophia no Panteão Nacional "é rito, símbolo e sinal". "Tem aquela solenidade, irmã do silêncio e da solidão, que é o contrário da pompa e da propaganda".

A entrada de Sophia no Panteão Nacional, ao qual se referiu como um "templo em que os altares dos deuses deram lugar aos túmulos dos homens", acontece "nos dez anos da sua morte e nos 40 anos do 25 de Abril [e] confirma as palavras que dizem a sua vida - poesia, liberdade, justiça -- como três razões para que os homens se possam olhar nos olhos".

O orador abriu o discurso citando Sophia, que afirmou que "o poeta escreve para salvar a vida" e acrescentou: "Acredito que a poesia se opõe, por sua própria natureza, à degradação".

José Manuel dos Santos citou amiúde a poetisa, cujo "nome lhe foi dado como uma predestinação: Sophia, Sabedoria", e afirmou que "não é ela que precisa de nós, somos nós que precisamos dela".

Sobre a poesia de Sophia, afirmou que "há nela a liberdade livre, a vida viva, a grandeza nua, o fogo firme que não a deixa ser senão de quem nela encontra o que ela é".

"A poesia de Sophia, que deu à língua portuguesa a soberania da sua exatidão, é uma arte do ser, uma mnemónica do mundo, um vértice da vida", afirmou o orador, acrescentado: "O fio que a percorre, feito de claridade e de assombro, tem três nós de escuridão: o nó da noite, o nó do nada, o nó do não".

Sobre a poesia de Sophia, o orador voltou a suportar-se das palavras da poetisa para afirmar: "Podemos dizer dela o que ela disse de Cesário: 'Às vezes, algo de rouco, de alucinado e de visionário atravessa a lucidez dos seus poemas'".

"Na vida de Sofia, os livros sucederam-se como as sílabas da primeira palavra dita no mundo. Foi dessa palavra que ela fez nascer todas as palavras da sua poesia".

Para José Manuel dos Santos, "no canto de Sophia, há o grandioso encontro de uma grande cultura com as suas origens e os seus ocasos, com as suas restituições e as suas rasuras, com os seus crimes e os seus cumes". "Neste canto, o passado é a grande pergunta do futuro".

O orador fez também uma alusão ao poema que Sophia dedicou ao 25 de Abril de 1974, data à qual se referiu como "o dia inicial inteiro e limpo".

Este poema, reflete, segundo José Manuel dos Santos, "a veemência de um começo, a vontade de um recomeço". "Sophia, a Antígona portuguesa, cita a Antígona grega, fazendo dessa citação um selo com o mundo: 'Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres'. Por isso, no país do medo, os seus poemas não tinham medo e, no tempo da cobardia, a sua coragem não aceitou o inaceitável".

O orador referiu ainda a eleição da Sophia de Mello Breyner Andresen à Assembleia Constituinte em 1975-176, onde "a sua voz se ergueu e falou do que permanece".

"Por isso, ela disse um dia: 'Aos pobres de Portugal é costume dizer: 'Tenham paciência'. Mas na verdade devemos dizer: 'Não tenham paciência'", afirmou.

O orador recordou a elegância dos gestos de Sophia, como falava dos poetas, como Teixeira de Pascoaes, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, João Cabral de Melo Neto, entre outros, e lembrou "a sua distração de tudo, menos do que valia a pena".

O orador lembrou, no seu discurso, companheiros das letras como Agustina Bessa-Luís, que falava de Sophia "com um louvor tão raro", e Ruy Cinatti, "a contá-la como quem conta um segredo", e evocou o seu marido, "Francisco Sousa Tavares, aquele que lhe ensinou 'a coragem e a alegria do combate desigual'".

José Manuel Santos terminou o discurso afirmando: "Para Sophia, os poemas, mais do que para ser lidos, são para ser ditos. Assim, penso que não diminuo a solenidade e o sentido desta cerimónia, antes os acrescento e reforço, se vos convidar a que digam comigo o poema 'Coral', uma das insígnias da sua arte poética: Ia e vinha/ E a cada coisa perguntava/ Que nome tinha".

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