Hoje Lisboa fica a conhecer Daniil Trifonov

Tem 23 anos e já é uma das grandes figuras do piano da atualidade. E, contudo, a sua primeira visita a Portugal aconteceu já há mais de dois anos: em dezembro de 2012, fechou o ciclo de piano da Casa da Música, tocando Scriabin, os '24 Prelúdios' de Chopin e a 'Sonata em si menor', de Liszt.

Hoje é a vez de Lisboa ficar a conhecer o russo Daniil Trifonov: pelas 19.00, ele pisará o palco do Grande Auditório da Fundação Gulbenkian para um recital em que tocará a 'Fantasia e Fuga, em sol M, BWV542', de J. S. Bach, na transcrição para piano de Liszt (o original é para órgão), a 'Sonata n.º 32, em dó m, op. 111', última que Beethoven escreveu, e os 12 'Estudos de Execução Transcendente', de Franz Liszt, um dos pináculos das peças de caráter virtuosísticas do século XIX e de toda a literatura.

Daniil nasceu em Nijni-Novgorod, em 1991, terra natal de outros dois grandes pianistas: Grigory Ginzburg e Vladimir Ashkenazy. Os pais são músicos profissionais e, detetando os dotes da criança, venderam os dois apartamentos que tinham na cidade do Volga e mudaram-se para os subúrbios de Moscovo, para que o filho pudesse frequentar a Escola Gnessin para talentos especiais. Nos últimos anos de frequência (equivalentes ao nosso Secundário), Daniil levava duas horas em transportes públicos (autocarro, depois comboio, depois metro) para chegar de casa à Gnessin. Mas dava o tempo por bem empregue: "para se estar seguro mais tarde em palco, é preciso ouvir as obras no cérebro de fio a pavio muitas vezes e tocá-las sobre os joelhos", disse. E em muitas dessas viagens, levaria consigo os LP's da sua professora, Tatiana Zeligman: além dos ensinamentos que dela recebeu, Daniil também devorou a sua coleção de gravações antigas, de mestres como Horowitz, Cortot, Sofronitsky, Friedman e Rakhmaninov. Hoje em dia, Daniil diz-se particularmente inspirado pela arte de Argerich, Sokolov e Lupu.

Aliás, aproveitar o tempo significa para Daniil invariavelmente uma qualquer relação com a música: há pouco tempo, tocando em Colónia e depois em Berlim, viajou de comboio e passou a viagem a compor. Sim, porque este jovem compõe desde pequeno e fez estudos de composição na Gnessin e, a partir de 2010, em Cleveland (EUA), onde (ainda) estuda com Sergey Babayan, mestre com o qual também atua em duo pianístico. Em abril do ano passado, estreou em Cleveland o seu próprio 'Concerto para piano e orquestra em mib m' e um crítico, invertendo a famosa frase de Jesus, escreveu: "apesar de ter visto, não consigo acreditar totalmente". Daniil diz que "compor influencia em parte a maneira como toco". E de facto, ele, apesar de ser tudo menos cerebral, pensa como um compositor. Não por acaso, o grande pianista-compositor Sergei Rakhmaninov (1873-1943) é um dos seus ídolos. E no fervor da adolescência, era um "fanático" de Scriabin, outro pianista-compositor. Hoje, abundam as comparações de Trifonov - figura (talvez seja por causa do cabelo/penteado de ambos...) e pianismo "por atacado" - com Liszt, que foi o rei dos pianistas no século XIX. Quem sabe, talvez Trifonov venha a dar um novo significado à abreviatura "T-Rex"...

O conhecido crítico e musicógrafo norte-americano Norman Lebrecht declarou-o "um pianista para o resto das nossas vidas" e um crítico do muniquense Süddeutsche Zeitung escreveu: "um dos mais triunfantes e inefáveis talentos pianísticos das últimas décadas". Mas mesmo entre os profissionais, Trifonov colhe unanimidade: Alfred Brendel e Martha Argerich são entusiastas "de primeira fila" e, em outubro de 2010, quando se destacou no Concurso Chopin do Bicentenário (em Varsóvia), Argerich e Nelson Freire e Krystian Zimerman foram-no felicitar pessoalmente (ele ficou em 3.º lugar e recebeu ainda o prémio para a melhor mazurca). Esse Chopin foi o início da gestação da "estrela Trifonov": oito meses depois, ganhou o Concurso Rubinstein, em Tel-Aviv; e deste foi diretamente para o Concurso Tchaikovsky de Moscovo, arrecadando todos os prémios em concurso e levando o maestro Valery Gergiev a fazer questão de lhe entregar o Grande Prémio pessoalmente. Depois de junho de 2011, ninguém mais parou Trifonov.

Anos antes, a sua professora dissera: "Se tens individualidade, a técnica é um acréscimo. Mas tornares-te naquilo que és realmente - esse é que é o cerne da questão!"

O seu primeiro recital no mítico Carnegie Hall de Nova Iorque, há dois anos, aconteceu quase em simultâneo com a sua entrada para a carteira de artistas da Deutsche Grammophon (DG). A editora alemã gravou esse recital e editou-o em outubro desse ano. O disco foi logo nomeado para os Grammy e em 2014 valeu-lhe receber o alemão ECHO Klassik de "Artista Revelação do Ano". O próximo projeto que tem com a DG é Rakhmaninov: a 'Rapsódia sobre um tema de Paganini'. Será uma espécie de "por em sintonia" com esse autor: um dos grandes projetos dele na presente temporada será tocar a integral dos concertos para piano de Rakhamninov ('cum' Variações Paganini) com a Philharmonia Orchestra de Londres, no Royal Festival Hall. Na passada 'rentrée', inaugurou a série pianística da mesma sala. Pelo meio, irá tocar com a "crème de la crème" das orquestras mundiais: Concertgebouw, Fil. Nova Iorque, Sinf. Chicago, Fil. Munique, Orq. Cleveland, Fil. Checa, Sinf. Viena...

De Lisboa, Trifonov vai para uma digressão com a Kremerata Baltica pela Europa central, depois passa março e abril viajando (isto é, tocando) pelos EUA.

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