Hip-hop rima com Pulitzer? Kendrick Lamar provou que sim

O rapper americano tornou-se no primeiro artista de música popular a conquistar o tão cobiçado prémio. Um momento histórico

Foi com um pequeno sorriso nos lábios que Dana Canedy, administradora do Pulitzer, revelou segunda-feira, na universidade de Columbia, em Nova York, que Kendrick Lamar era, aos 30 anos, o eleito pelo júri para receber o prémio na categoria de Música. A presença de Dana era quase premonitória, por ser a primeira vez que uma mulher, negra, anunciava o vencedor. Tal como inédito foi o facto de a escolha recair, pela primeira vez, não só num rapper como num músico dito popular, feito que nem o Nobel Bob Dylan conseguiu alcançar - o máximo que o autor de Blowin" in the Wind conseguiu foi uma menção honrosa, em 2008.

Habitualmente associado ao jornalismo e à literatura, o prémio Pulitzer foi instituído por iniciativa de Joseph Pulitzer, empresário de origem húngara, ligado aos jornais, que doou um fundo em seu nome à Universidade de Columbia para criar estes galardões, pela primeira vez atribuídos há 101 anos. No seu livro de honra constam nomes como o dos escritores William Faulkner, Tennessee Williams ou Eugene O"Neill, os jornalistas que desvendaram o caso Watergate ou cobriram o 11 de Setembro e o músico de jazz Wynton Marsalis, galardoado em 1997, pelo álbum Blood on the Fields, naquele que também foi o primeiro prémio Pulitzer entregue a um músico de jazz - mais tarde também Ornette Coleman em 2006 e Henry Threadgill, em 2016, o receberiam.

A música é aliás uma categoria mais "recente" nestes prémios, uma vez que apenas foi instituída em 1943. E em 75 anos, a maioria dos prémios ia quase sempre para a denominada música erudita, fosse ela clássica, experimental, eletrónica ou até coral. Mas eis que em 2018 chega DAMN, o quarto álbum de estúdio de Kendrick Lamar.

Foi considerado pelo júri "uma coleção de canções virtuosas unidas pela sua autenticidade vernacular e ritmo dinâmico, que desenham esboços da complexidade da vida moderna dos afro-americanos". Ainda segundo Dana Canedy, os 30 elementos do júri composto por críticos, músicos e académicos, decidiram o vencedor "de forma unânime e no tempo certo". "Estamos muito orgulhosos desta seleção, porque significa o sistema funcionou como era suposto, atribuindo o prémio ao melhor trabalho", afirmou esta responsável momentos depois do anúncio, em entrevista ao New York Times, reconhecendo tratar-se de um marco histórico para todos os envolvidos. "Direciona o foco para o hip-hop, mas de uma forma completamente diferente. Trata-se de um grande momento para o hip-hop, mas também para os Pulitzers", defendeu.

Os finalistas são selecionados por um júri inicial de cinco elementos. É este grupo que depois apresenta os nomeados ao conselho do Pulitzer, que incluía ainda o compositor americano Michael Gilbertson, com a obra para quarteto de cordas Quartet, e também americano cantor e compositor Ted Hearne, com a cantata Sound From the Bench - Depois de ser conhecido o resultado final, este último apelidou mesmo Kendrick Lamar de "um dos maiores compositores vivos", rejeitando a ideia de que o rap não é também ele uma forma de arte, apenas "por não ser música clássica ou experimental".

Para se chegar até aqui foram ouvidas mais de uma centena de composições, incluindo diversas peças musicais que, de acordo com David Hajdu, um dos júris, "tinham o hip-hop como fonte". Conforme este responsável mais tarde revelou, isto conduziu a uma "discussão filosófica" entre os jurados, sobre o que devia ou não ser considerado a concurso. No final, chegou-se à conclusão que o rap, enquanto estilo musical, "merecia ser reconhecido pelo seu real valor" e "não apenas como fonte para algo considerado mais sério ou legítimo pelos meios mais institucionais", ou seja, a música erudita.

A música deste tempo

Kendrick Lamar começou a fazer música na casa da mãe, em Compton, Califórnia, e cedo começou a dar nas vistas enquanto membro do grupo de hip hop Black Hippy. O primeiro álbum a solo, Section.80, é editado em 2011, através da plataforma iTunes. No ano seguinte, lançou Good Kid, M.A.A.D City, que lhe valeram sete nomeações para os prémios Grammy de 2014, incluindo nas categorias de Artista Revelação e de Álbum do Ano. Seria no entanto com To Pimp a Butterfly, lançado em março de 2015, que Kendrick Lamar se tornaria uma estrela planetária, sem nunca abdicar dos princípios da sua música, conhecida pelas letras de carater pessoal, nas quais aborda temas hoje em dia habitualmente fora da agenda da maioria dos artistas com quem partilha os tops mundiais, como política, raça ou religião. Foi com esse trabalho que esteve, em 2016, em Lisboa no Super Bock Super Rock, com a (então) Meo Arena lotada, 20 mil pessoas a cantar e dançar.

O retrato do presente, dos nossos dias, voltou em 2017 em DAMN, um disco produzido, entre outros, por magos como Sounwave e Mike WiLL Made-It e que contou com a participação de estrelas como os U2 ou Rihanna. Já vendeu mais de três milhões álbuns, mas apesar do reconhecimento do público e da crítica, tal não foi suficiente para Kendrick Lamar vencer o prémio de Álbum do Ano na última edição dos Grammy, perdido para 24k Magic, de Bruno Mars. Apesar de DAMN ter arrecadado outros três Grammy, tal não deixou de provocar uma sensação de injustiça aos fãs, agora finalmente corrigido com a entrega deste histórico prémio Pulitzer. Ou como se despachou a twittar ontem Terrence Henderson, o responsável da editora do músico, a Top Dawg Entertainment, a partir de agora "não se pode falar de Kendrick Lamar senão com respeito".