Harry Potter recupera o fôlego com "Monstros Fantásticos"

Estreia amanhã em Portugal o primeiro título de uma renovada extensão da série Harry Potter, o sucesso inspirado na literatura da britânica J. K. Rowling que assina o argumento.

Se é possível imaginar o célebre naturalista David Attenborough e os seus documentários da BBC num universo paralelo, esse universo está, de algum modo, configurado em Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los. Porquê a simbólica relação? Porque o protagonista desta prequela de Harry Potter é um verdadeiro amante da fauna - uma fauna mágica, entenda-se -, preservando-a com idêntico zelo e entusiasmo, dentro da sua mala de mão. Literalmente.

Newt Scamander (um tímido e amável Eddie Redmayne), na designação rigorosa de magizoologista, é então o Attenborough das criaturas fantásticas, que nos leva até à Nova Iorque de 1926, no ensejo de uma aventura, mas também de um conflito, como bem se adivinha, entre o mundo mágico e o não mágico... Uma coisa é certa: a partir de amanhã, os dois mundos cabem nas salas de cinema portuguesas e prometem espetáculo de varinhas em punho.

Estamos de regresso ao imaginário encantatório da literatura de J. K. Rowling, que a convite da Warner Bros. aqui se liga ao projeto cinematográfico, pela primeira vez na qualidade de argumentista, assegurando os detalhes de autenticidade narrativa que os fãs privilegiam. Por sua vez, depois de quatro filmes de Harry Potter, já em modo automático, David Yates mantém a assinatura da franchise, agora sob um novo título, que se estenderá a outras quatro sequelas.

Vale a pena lembrar que Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los é o nome de um dos livros didáticos que o mais famoso jovem feiticeiro da literatura usou nos seus estudos em Hogwarts. Ouve-se falar dele em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001), mas não se lhe conhece a origem da escrita científica.

Será justamente essa a pista que o novo filme se propõe seguir, recuando 70 anos, até uma cidade nova-iorquina cinzenta, tomada por fenómenos estranhos, que suscitam a reação pronunciada dos ativistas radicais contra a magia. Neste contexto, Scamander e a sua mala irrequieta (por causa da vida selvagem no interior) dão os primeiros sinais de desorientação na grande metrópole, com um dos animais a libertar-se numa instituição bancária, ávido por todo o tipo de metais...

Tal momento preambular lança a arquitetura tumultuosa da restante história, juntando o nosso cientista atrapalhado a um simples operário, que ali se encontrava para tentar uma oportunidade de negócio. Este último tinha o sonho de ser pasteleiro, mas, diga-se de passagem, acaba envolvido numa complicada receita de feitiçaria.

À dupla formada pelo acaso, reúnem-se ainda duas feiticeiras que, sob a vigilância apertada de uma secreta autoridade americana de mágicos, entram na frenética caça aos monstros, obscurecida por personagens em gradual revelação. E sim, do lado negro já é mediaticamente conhecido o breve vislumbre de Johnny Depp neste filme, no papel do vilão que nas próximas sequelas atormentará o guardião das bestas fantásticas. Desta feita, é Colin Farrell, Ezra Miller e Samantha Morton que provocam o maior contraste com a magia romântica e colorida de Redmayne.

Partindo assim de um vestígio de Harry Potter, Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los apresenta a frescura de um novo princípio, isto é, de uma situação inexplorada, que é capaz de recuperar o fôlego da série algo exausta na fase final. Para além do elenco em si, talvez essa seja a maior qualidade do filme, espelhada numa teia cómica e dramática, que procura o equilíbrio com os necessários e múltiplos efeitos especiais.

Por outro lado, sente-se aqui e ali alguma falta de economia narrativa - tão preciosa, é verdade, para o envolvimento na experiência literária - que prolonga os acontecimentos numa lógica de sucessivos "quase finais".

Apesar disso, percebe-se a importância da colaboração artística de J. K. Rowling, que, juntamente com o trabalho do oscarizado diretor de fotografia Philippe Rousselot, revela uma mais exigente confluência entre a tonalidade da escrita e da imagem.

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