Há "uma energia de criatividade muito grande"

O escritor José Tolentino Mendonça considera que, no meio das dificuldades, há em Portugal "uma energia de criatividade muito grande", defendendo a vitalidade da cultura portuguesa atual.

"Tenho uma visão positiva, porque aquilo que vejo, neste momento, em Portugal, é que no meio das dificuldades há também uma energia de criatividade muito grande", disse o escritor à agência Lusa em Macau, onde se encontra no âmbito de uma visita na qualidade de vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Destacando que "há projetos novos a acontecer" e "talentos a revelarem-se", Tolentino Mendonça sustenta que existe uma "vitalidade na cultura portuguesa que, de nenhuma maneira, está adormecida - pelo contrário", apesar dos constrangimentos financeiros de que dão conta os principais atores do panorama cultural.

"Portugal é um país muito interessante, com uma literatura viva, um cinema com muitos mestres, uma arquitetura que é uma grande arquitetura em qualquer lado do mundo. Nós encontramos, de facto, uma força na cultura portuguesa que contraria, digamos, um certo pessimismo, que também é muito caraterístico da nossa cultura", argumentou Tolentino Mendonça, que deu uma palestra sobre "O contributo da Cultura para o Desenvolvimento", na Fundação Rui Cunha.

Para o padre e escritor madeirense é exatamente nos momentos de dificuldade que se precisa da cultura e daquilo que ela significa: "A herança cultural ensina-nos muito sobre o que são as dificuldades e como ultrapassá-las. Às vezes pensamos que as dificuldades do presente são absolutamente insuperáveis e quando olhamos para o passado e para a forma como os nossos concidadãos em situações muito mais difíceis e precárias deram a volta por cima e foram capazes de afirmar o crescimento, os valores, a criatividade, isso para nós é um estímulo muito grande em redimensionar talvez as dificuldades do presente".

Tolentino Mendonça defende a manutenção de investimento na cultura, porque a sua produção precisa de apoio e que se reconheça que "é uma necessidade vital, básica e não supletiva ou um luxo", mas constata que essas dificuldades vieram apontar novas direções.

"Também é verdade que a crise económica tem levado as pessoas a perceber que há muitos projetos que se podem desenvolver de outra forma, recorrendo a outro tipo de apoios", afirmou.

Deu o exemplo de "uma grande companhia teatral em Lisboa que fez uma subscrição entre os espectadores, criando uma liga de amigos que se quotizam para continuar a apoiar o teatro", disse o teólogo, nomeado consultor do Conselho Pontifício da Cultura do Vaticano pelo papa Bento XVI.

Comentando o atual panorama literário, falou "num período de transição". Isto porque "aqueles grandes mestres que marcaram, de facto, o século XX - um século de ouro para literatura portuguesa" - partiram ou estão afastados ("como Augustina Bessa-Luís que está muito doente"), mas há, em paralelo, "novos que se descobrem".

"É uma literatura muito interessante e diversificada, de grandes criadores, é uma literatura de autor, se quisermos", observou Tolentino de Mendonça que, na viagem para Macau, leu o romance inacabado de José Saramago, falecido em 2010, "um escritor monumental" e "um dos grandes narradores contemporâneos". Isto apesar da "discordância", "extraordinariamente saudável", que manteve em relação a algumas das suas posições públicas.

A obra "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas", publicada pela Porto Editora, chegou no início da semana às livrarias.

José Tolentino Mendonça também prepara nova obra poética. "Espero, no próximo ano, editar um volume de inéditos", com a chancela habitual da Assírio & Alvim, sob o título "Lisboa Vista da Lua".

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