Há raízes que nem a tiro se abatem

"O caminho que a Charlie Hebdo escolher era o correto", diz André Carrilho, que ilustrou o DN de ontem

Coube às mãos de André Carrilho a ilustração da capa do DN de ontem, que dava conta do ataque à redação da revista Charlie Hebdo que tirou a vida a doze pessoas, entre elas diretor e cartoonistas. O cartoonista português conta como, num dia de indignação, resolveu fazer da esperança capa.

"Estava atento ao que os outros cartoonistas iam fazendo por todo o mundo, [por isso] depois tive de mudar um pouco a tónica em que eu estava a pensar e foquei não tanto numa mensagem de indignação e de raiva mas de esperança."

As raízes, essas, mostram que "isto não iria acabar com a liberdade de expressão, que a liberdade de expressão tem raízes mais profundas do que qualquer assassino pode presumir cortar". Questionado se um ato como este pode criar novas raízes, dessas que surgem representadas no cartoon, Carrilho responde: "Sim, às vezes podemos achar que os nossos direitos e a nossa maneira de ver o mundo está protegida e não é passível de ser atacada. E a partir do momento em que vemos que podemos ser atacados e que os direitos que consideramos essenciais podem ser atacados, talvez faça que a gente os defenda mais. Vai tornar essa defesa mais forte."

O cartoonista que assina de forma periódica no DN e conta com publicações no New York Times, The New Yorker ou na revista Vanity Fair diz nunca ter tido a experiência de censura. Contudo, refletindo nela, afirma: "Essa reação imediata é assim que me dizem que eu não posso fazer uma coisa e não há uma justificação a não ser a sensibilidade subjetiva de cada um, eu tenho tendência para fazer exatamente aquilo que não querem que eu faça."

O que aconteceu na quarta-feira é "um caso de polícia", diz o cartoonista. Aqueles que perpetraram o ataque, os "assassinos, são uma minoria que podia ser de qualquer cor política ou religião". Se estas mortes levantam questões em relação ao futuro do cartoon, fazem--no, segundo Carrilho, tão-só para reafirmar o caminho da liberdade de expressão. "As questões que [se] levantam são só para reafirmar que aquele caminho que o Charlie Hebdo escolheu era o correto. Se podia haver alguma dúvida de que eles tinham direito a fazer o que fizeram, acho que ontem [quarta-feira] essa dúvida desvaneceu-se."

O Islão, diz o cartoonista, não é representado por aqueles que dispararam. "Eles suprimem a sua falta de identidade [pelo Islão] e exprimem-se com kalashnikovs. Eles são muito mais frágeis do que as pessoas que mataram, eles são muito mais fracos e muito mais cobardes."

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