Gravuras que não sabiam nadar já têm museu

Mais do que um museu dedicado às gravuras rupestres do vale do Côa, o espaço mostra a sua importância de entre os outros núcleos mundiais desta arte. Com cerca de 800 metros quadrados de área de exposição, é inaugurado amanhã ao meio-dia pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, deixando para trás muita polémica e um movimento da sociedade civil e académica, que teve como 'slogan' "as gravuras não sabem nadar".

O museu ainda não abriu. Mas as placas à entrada de Vila Nova de Foz Côa já conduzem o visitante para aquele que amanhã se tornará no segundo maior museu de Portugal, com mais de 800 metros quadrados de área de exposição sobre arte paleolítica ao ar livre. As gravuras que em 1995 provocaram um amplo movimento da sociedade civil e académica, que teve no slogan "as gravuras não sabem nadar" a expres-são do sentimento de quem pretendia a todo o custo salvar a sua imersão pela barragem do Pocinho, já têm um museu. E a região em que se inscreve essa arte: o vale do Côa.

O calor do final de Julho intensifica o cheiro do alcatrão que carrega de negro a recém-pavimentada estrada de acesso ao Museu do Côa, que amanhã será inaugurado, ao meio-dia, com a presença da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas. Um parque de estacionamento anuncia o destino. Mas é preciso sair do carro para descobrir o museu, um projecto dos arquitectos Tiago Pimentel e Camilo Rebelo. Utilizando o betão de uma forma despida, por fora apresenta uma textura e uma cor a imitar o xisto, integrando--se na paisagem. Aliás, foi mesmo feito um molde em rochas de xistos locais para conferir esse aspecto.

E a entrada faz-se como que por uma fenda no meio de duas rochas, que dá acesso aos diferentes espaços: museu, serviço educativo, auditório e restaurante. Lá dentro, mergulha-se na escuridão.

João Pedro Ribeiro, subdirector do IGESPAR, mostra com indisfarçável orgulho os cerca de 800 metros quadrados do espaço. Natural da região e uma das vozes activas na defesa das gravuras paleolíticas do vale do Côa em 1994, explica que "o museu pretende ser a porta essencial para tentar compreender aquilo que está subjacente a esta forma de arte e chamar a atenção para o que representam as gravuras no contexto do património da humanidade".

Baseada na investigação de- senvolvida pela equipa do Parque Arqueológico do Vale do Côa durante 12 anos, o museu não substitui a visita ao in loco das gravuras. É antes um complemento. As vá- rias réplicas aqui apresentadas não são, na sua maioria, visitáveis. Ou porque se encontram debaixo de água ou porque se encontram em lo-cais de muito difícil acesso.

À entrada, a figura icónica de um auroque que olha de frente o visitante surge frente a uma peça do artista Ângelo de Sousa, indicando o início do percurso. As primeiras salas apresentam o Côa como território e a sua importância como Património Mundial da Humanidade. Um vídeo 4 permite fazer um voo digitalizado sobre os vários locais em que existem gravuras e um painel com os sítios classificados como arte rupestre pela UNESCO, a nível mundial - apenas 16 - destacam a importância dos 17 quilómetros de extensão do Parque Arqueológico do Vale do Côa, os 56 sítios já assinalados e as cerca de 950 rochas inventariadas. A diversidade dos estilos encontrados, num horizonte temporal que vai desde os 22 mil anos até aos 10 mil anos, e que pode ser identificados pela martelagem e traços profundos das mais antigas e dos traços finos e abundantes das mais recentes, é outros dos aspectos realçados na exposição.

Conta-se ainda a história do planeta, desde as suas origens, como se formaram os continentes e como se formaram as rochas onde se realizou a arte rupestre. E seis gavetas do tempo - que mostram outros tantos sítios escavados no Parque - transportam o visitante para as estações arqueológicas. Viagem reforçada pelos vídeos que mostram como se identifica uma estação arqueológica, como se escava, como são identificados os artefactos.

E como nem só de arte rupestre vive o vale do Côa, o museu dedica espaço a várias gravuras mais recentes, da Idade do Ferro (I milénio a.C.), terminando o percurso com uma instalação de Alberto Carneiro, exemplificando que não pretende ser apenas um espaço dedicado à arte paleolítica. Porque, como afirma João Pedro Ribeiro, "o objectivo é fazer com que o museu do Côa seja reconhecido mundialmente como uma marca associada à arte paleolítica ao ar livre, as não pretende ficar apenas por este tipo de arte".

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