Gisela João dá tudo a cantar Maria Guinot e Frank Sinatra

A fadista perguntou aos amigos o que gostariam de a ouvir cantar

"Às vezes é no meio de silêncio que eu descubro afinal quem sou." Não há piano nem vestido comprido, não é a sóbria Maria Guinot que está a cantar. Há guitarras, unhas pintadas de várias cores e uns ténis nos pés de Gisela João, a fadista com pronúncia do norte e sorriso nos lábios que ensaia os temas para a sua Caixinha de Música, o espetáculo que leva ao palco do Teatro São Luiz entre hoje e sábado. Desta vez, Gisela deixou os fados de lado e vai apresentar um concerto em que interpreta 15 temas muito diferentes, de Amy Winehouse a Ella Fitzgerald.

Tudo começou com o convite do São Luiz para fazer três noites de concerto. Ela pôs-se a pensar: "Estou sempre a fazer os meus concertos de fado, que eu amo, mas também gosto de cantar muitas outras músicas e gostava de mostrar esse outro lado." Então, para não fazer um concerto só com as músicas mais óbvias e para ser "ainda mais desafiante" decidiu pedir a 15 amigos que propusessem canções para ela cantar. "São pessoas cujo gosto musical me interessa, vou vendo o que elas partilham e aprendo muitas coisas. Também tinha curiosidade de saber como é que elas me viam a mim, o que é que gostariam de me ouvir a cantar", explica. Pediu-lhes três músicas e, dessas, escolheu uma, aquela que tivesse mais a ver consigo e que se encaixasse melhor no alinhamento. "Foi assim que construí a minha caixinha de música."

O resultado não deixa de ser surpreendente. "É engraçado porque todas as músicas têm algo da Gisela. Não gosto muito de falar de mim mas há uma coisa que eu reconheço em mim e que pelos vistos os outros também veem: é que sou muito queixinhas mas ao mesmo tempo que me estou a queixar estou sempre a pôr o pé para andar para a frente. Não há resignação. E é tudo de amor, muito romântico. Comigo é tudo cor-de-rosa, com um sorriso na cara, porque é assim que gosto de levar a vida, acho que é muito mais fácil."

Decorar as letras é o mais difícil

Um otimismo que Gisela João encontra até mesmo no Silêncio e Tanta Gente, de Maria Guinot. "Tinha um ano quando ela ganhou o festival da canção, não conhecia esta música. Mas quando a ouvi fez todo o sentido e gostei. Às vezes é no meio de tanta gente que eu descubro afinal aquilo que eu sou - a quem é que nunca aconteceu isto? Para mim é sempre só o poema, a melodia é um plus. As histórias têm que falar para as pessoas. E esta canção tem um lado mais melancólico mas acaba por também levar-nos para a frente."

No dia em que visitamos o ensaio, Gisela queixa-se do frio nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos. Tem um termo de chá e trouxe bolachas que ela mesma fez para partilhar com os músicos. E tem o telemóvel sempre à mão, com as letras das canções que ainda não conseguiu decorar. Como o Hallelujah, de Leonard Cohen. Não quer revelar todas as canções que vai interpretar. Quer manter a surpresa. Mas vai adiantando: "Vou cantar músicas de Nick Cave, Violeta Parra, Lopes Graça, Maria Guinot, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Amy Winehouse, Leonard Cohen, Serge Gainsbourg, sei lá, tanta coisa."

Tanta coisa que às vezes se arrepende de se ter metido nisto. "Sou ótima a ter ideias. Tenho muitas ideias mas esqueço-me que depois dá muito trabalho concretizá-las. E enervo-me comigo própria: porque é que eu tenho essas ideias? São 15 letras para decorar em espanhol, português, francês, inglês, italiano. Não sei como vou fazer. Mas gosto de desafios. Só sinto que cresço no experimenta- falha, experimenta-corre bem, experimenta-falha. É assim."

Muitos concertos dentro de um só

Tem sido assim nos ensaios com seus músicos de sempre, Nelson Aleixo na viola de fado e Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, e com os outros músicos, quase todos vindos do jazz, e que, sob a direção de Frederico Pereira, têm servido para encontrar o tom certo para cada música, sem "afadistar", como fez questão de deixar claro desde o primeiro dia. "São muitos registos diferentes. Tenho Nick Cave e Caetano Veloso - não há ligação. Se num concerto de fado, às vezes, há emoções difíceis de gerir, porque estou dentro de uma música e a seguir, mudo de música, aqui isso multiplica-se porque são géneros distintos, mesmo, muito vincados, será quase como começar o concerto de novo a cada música."

A mais difícil, confessa, tem sido a canção de Amy Winehouse: "As outras músicas, de Frank Sinatra ou de Ella Fitzgerald, já viveram muito, têm muitas versões. Mas a Amy Winehouse é muito recente, ainda está muito presente no nosso ouvido e é perfeita, o que mais fazer ali?" Mas, mais uma vez, Gisela agarrou o desafio: "Quando já não sentir medo nem ficar assustada é porque já não sinto responsabilidade no que estou a fazer e mais vale não fazer nada ."

A cenografia é da dupla de artistas plásticos João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. E a Caixinha de Música não se fica pelo palco. "Gostava que o São Luiz fosse um bocadinho do mundo da Gisela João. Eu gosto de bordados, de culinária, de música, de de fotografia, de cinema... Não dá para trazer tudo, mas trouxe os bordados e a fotografia." As "sessões de fotografias para princesas" começaram na segunda feira, os workshops de bordados arrancam hoje. Gisela vai lá estar, a tratar da maquilhagem das modelos e a partilhar um pouco da sua alegria. É que, mesmo nervosa, garante: "Faço sempre tudo com muito carinho, se não prefiro estar quieta. E a única coisa que posso garantir é que vou para aquele palco dar o meu melhor e o meu tudo. Gisela-tudo."

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