Fotografar o lixo para acabar(mos) com ele

Francês acumulou plásticos, papel, vidro e metal em casa durante quatro anos. Fotografou para mostrar o impacto

Pode parecer estranho (e é) mas durante quatro anos Antoine Repessé não deitou fora um único rolo de papel higiénico. Nem pacotes de cereais ou de comida pré congelada. Nem garrafas de água, de leite, de cerveja, de vinho, latas de refrigerante. Mais. Pediu aos amigos para lhe levarem todo o lixo reciclável que produziam. Ele guardava-o em casa, "arquivado" consoante o tipo.

Antoine Repessé não é assim tão excêntrico como pode parecer. Quis juntar material suficiente para produzir a série de fotografias #365 Unpacked com que quer alertar para a enorme quantidade de lixo que produzimos - serão 365 quilos por habitante por ano em França, o país dele [em Portugal são 452 quilos, segundo o relatório de 2015 da Agência Portuguesa do Ambiente] . Ele não reciclou lixo durante quatro anos e agora devolve-o, em fotografias impactantes.

Por exemplo, o rapaz que bebe leite naquilo que, imaginamos, será uma mesa de uma cozinha como muitas cozinhas. Imaginamos porque o rapaz, de malga na mão, está praticamente submerso em garrafas de plástico de leite. E a rapariga atlética que bebe uma garrafa de água no fim do treino e tem atrás de si um monte maior do que ela própria de garrafas, que parecem jorrar de um carrinho de supermercado. Há mais. Maços de tabaco. Latas. Embalagens de detergente. Garrafas de vidro. Jornais. Embalagens de comida pré-cozinhada. E os protagonistas de cada uma das fotografias, de uma forma ou de outra, quase soterrados.

Antoine Repessé tem 36 anos e diz-se fotógrafo autodidata. Tudo começou porque... queria aprender a cozinhar. Ele era um dos milhões de angariadores de embalagens de comida em todo o mundo.

"Sou um péssimo cozinheiro e comia muita comida congelada que considero pouco saudável e com demasiada embalagem. Comecei a pensar por que pagamos o dobro pela embalagem: um, quando compramos o produto; dois, quando deitamos fora e temos de pagar outra vez para o recolher e reciclar. Muitas vezes o produto é mais barato que o seu acondicionamento. Vê as cápsulas de nespresso que fazem com que pagues 45 vezes o preço que deveria custar... Estar envolvido neste projeto tornou-me mais consciente mas ainda não sou perfeito", diz ele.

Sobrou pouco espaço para ele

Começou a colecionar lixo reciclável em 2011. Na altura já tinha uma ideia do que ia fazer, mas admite que o projeto foi ganhando novas nuances ao longo dos quatro anos em que ele e "cerca de 200 amigos e colegas" que com ele angariaram aquilo de que toda a gente se quer desfazer. E isso tem, também, um impacto. A casa começou a ser tomada por garrafas de leite, rolos de papel higiénico ou garrafas.

O fotógrafo é, também, descontraído. E o facto de ter uma casa grande ajudou. Mas, no final, já sobrava pouco espaço. "Felizmente vivo num grande apartamento onde guardei tudo. Não foi um choque porque demorei vários anos a chegar ao nível final de 70 m3 [de lixo reciclável]. Fiz uma escolha das embalagens por tipo e por quarto porque sabia que ia usá-las em separado. No início ainda usava aquelas divisões, mas o lixo cresceu tão depressa que tive de sobrepor as embalagens de plástico e acabei com as paredes todas completamente cobertas e muito pouco espaço disponível para mim", conta-nos.

Como imaginar 70 metros cúbicos de lixo? Bem, pode pensar num cubo de quatro metros cheio dele. Ou saber que no Natal Antoine fez uma árvore de sacos de lixo, que saía da janela do primeiro andar do pequeno prédio onde vive em Lille, França, até à rua. E que esta "instalação" é apenas um terço do que tinha dentro de casa. Só garrafas de leite eram 1600, rolos de papel higiénico 4800.

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