Florence Welch. A mulher que canta no fio da navalha

Regressa hoje a Portugal a mulher que usa os pulmões inteiros para passar as mensagens. É uma das grandes revelações do século e, em palco, transcende-se, a bem de quem ouve

Pensemos na grandeza de vozes e de estilos de Ella Fitzgerald, de June Tabor e de Tracey Thorn, dentro ou fora dos Everything But The Girl - estão todas na zona de luxo do clube "Não me grite!", o que nunca as afastou do núcleo de grandes cantoras e intérpretes que as músicas populares nos garante de forma continuada. Para encontrarmos Florence Welch, a mulher de 29 anos - há de ser trintona em agosto - que lidera o projeto musical que a "liga à máquina", precisamos de rumar aos antípodas dessa contenção. Esta nativa londrina prefere usar a voz de contralto como arma de arremesso. Por vezes, não muitas, parece ficar-se por um sussurro atormentado e mais amargo do que doce. Muitas vezes, não hesita em recorrer ao grito como sublinhado, como alerta, como face sonora de um qualquer vulcão que nunca cai na inatividade. Por associação, estaria melhor como banda sonora portátil para o quadro ensurdecedor de Edvard Munch do que como suporte para o filme de Michelangelo Antonioni, que ganham uma só ponte de contacto: o título O Grito.

Ninguém se espanta, depois de ouvir uma canção como Dog Days Are Over, que lhe serviu de cartão-de-visita, entregue em mão a muita e boa gente, que de imediato se lhe associem quatro influências marcantes, acima de suspeita: Kate Bush, Björk, Siouxsie Sioux e P.J. Harvey. Tal como acontece com as mestras, o jogo musical de Florence (lá iremos, à "máquina") aposta na explícita imensidão dos contrastes: a uma percussão metralhada junta-se a doçura etérea de uma harpa; às agudezas da guitarra elétrica, soma-se a marcação suave de uma guitarra acústica ou de um piano. A voz, como já vimos, vai onde for preciso, mas nunca sai de cena, chegando ocasionalmente a terrenos de exposição exagerada - nunca chega a tanto, sobretudo se levarmos em conta que as grandes canções de Florence, bem repartidas pelos três álbuns até agora publicados, circulam dentro dos muros da sua intimidade, mesmo quando extravasam para os grandes temas (o amor, a solidão, o céu e o inferno de uma vida, os ritmos da existência). Como a própria deu a entender ou afirmou, preto no branco, cada canção vale como um assalto contra a timidez que, durante anos, parece tê-la tolhido. Hoje, quando a ouvimos, e também quando a vemos em palco, ninguém diria. Mas não se trata do primeiro caso, nem será o último, de alguém que se transforma e transcende quando entra num estúdio ou quando pisa um palco.

Aquela máquina

Longe, muito longe, vão os tempos em que duas amigas se apresentavam nos palcos londrinos como Florence Robot (a nossa Welch) e Isa Machine (a sua parceira Isabella Summers, a única que se mantém desde o início da proposta que vai em dez milhões de discos vendidos, autora de algumas das canções entregues à voz de Florence). A piada privada pegou e, depois da edição de Lungs, o primeiro álbum, lançado em julho de 2009, já não havia volta a dar. Além do mais, a ideia de um coletivo adjacente permite a Florence dirigir-se a estúdio ou assegurar os concertos com os músicos que entende serem os mais adequados a cada ocasião. Isto sem prejuízo de cedo se terem fixado no elenco o guitarrista Rob Ackroyd e o harpista Tom Monger, repetente nas aventuras posteriores - Ceremonials, de outubro de 2011, e How Big, How Blue, How Beautiful, de maio de 2015.

Ressalta, a par da voz e de uma série de canções que já alguém considerou compulsivas-obsessivas, a imagem criada por Florence, também ela "desalinhada" mas nem por isso ingénua ou intuitiva. Não são assim tantos os que sabem que Florence não é uma ruiva natural, mas que concluiu que essa cor de cabelo chamaria mais a atenção. Nos videoclips, ela viaja entre um guarda-roupa e uma maquilhagem neo-hippies, nomeadamente quando surge mais próxima do mar e da natureza, e uma seleção que chega a fazer tangentes ao trendy e ao gótico. Não quer dizer que mude de personalidade, antes que concilia ou alterna personagens que, amiúde, lidam com vidas de excesso (abuso de substâncias, sexualidades desbragadas) e de defeito (o tema da solidão e das relações conturbadas aparece recorrentemente). Além disso, esses pequenos filmes - que vale a pena "consultar" - e os concertos servem-lhe para dar largas a outra arte em que, confessadamente, quer aperfeiçoar-se: a dança. Não esconde, sequer, que o nome e os desempenhos de Pina Bausch lhe valem como constante inspiração.

Não a olhem, no entanto, como uma eremita, apesar do seu gosto pela escrita solitária - sabe-se, por exemplo, que já desfilou como modelo para Karl Lagerfeld e que cantou no casamento dos atores, muito seus amigos, Blake Lively e Ryan Reynolds. Musicalmente, Florence não perde tempo nem exibe preconceitos: cantou em palco ao lado de Mick Jagger, liderou um tributo a Amy Winehouse, gravou com David Byrne e com o rapper Drake. Até que idade pensa divertir-se? A resposta, espera-se, há de tardar...

Fleetwood Mac na bagagem

Se repetir o alinhamento de um espetáculo recente em Londres, Florence traz os seus três álbuns ao concerto de Lisboa. Mais de metade das canções chega, sem surpresa, de How Big, How Blue, How Beautiful. Mas não esquece uma versão - mais lenta e despojada - do êxito que gravou com o escocês Calvin Harris, Sweet Nothing. Quanto à inevitável versão, desta vez recupera Silver Springs, canção de Stevie Nicks que os Fleetwood Mac gravaram nas sessões do mítico Rumours. Não espanta: Nicks e Grace Slick foram nomes que, em momentos distintos, referiu como "bons exemplos". Caso para dizer: não faz por menos. Faz muito bem.

Florence + The Machine
Meo Arena, Lisboa
18 de Abril, 20 horas
Preço dos bilhetes: de euro 31 a euro 46

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