"Pintar serve-me para não enlouquecer, porque eu não paro de fazer música"

Aos 70 anos, está a gravar um disco de duetos e a preparar concertos para Tivoli em Lisboa no dia 18, Casa da Música no Porto no dia 27, com o seu octeto e convidados

Diz que quer usar o tempo a ouvir no gira-discos, com amplificação do tempo dos primeiros namoros, a música de que mais gosta - Shadows, Tony Bennett, Count Basie, Bernard Herrmann. Em vinil, claro. Está pronto para voltar a concorrer ao festival da canção, se tudo correr bem. Conhecemo-nos há tanto tempo que não nos tratarmos por tu ficaria artificial.

Acabas de fazer 70 anos e em poucos minutos antes da nossa conversa já falaste na idade duas vezes. Uma foi "há dois séculos que fiz a tropa". Setenta anos é muito tempo?

Não, é poucochinho. Sobre a tropa digo "há dois séculos" porque é uma coisa que se quer o mais longe possível. O mínimo é dois séculos, mas depende da hora a que estamos a conversar, pode aumentar. Setenta anos de idade é fantástico. Olha para mim. Sinto-me muito bem, sempre com vontade de trabalhar, de viajar, de fazer coisas, principalmente de me rir. Eu e a Eugénia [Passada, com quem é casado] vínhamos de viagem do Algarve e de vez em quando desatamo-nos a rir sem saber porquê.

Têm ataques de riso como as crianças?

Eu não sei se é o canto do cisne, se é a gargalhada do pato. Há qualquer coisa que me estimula o riso permanentemente. Ouço o noticiário e desato a rir.

Não é que haja assim tantas notícias para rir.

As que eu ouvi ainda agora na TSF. Tenho muitos rádios e em todos o um é sempre a TSF, embora a TSF não queira saber rigorosamente nada de certos assuntos, como por exemplo música.

Estás aqui, não estás?

É verdade. De qualquer maneira também não lhe compete. Eu sou da origem, sou da TSF ainda a TSF não era. Conheci os desesperados do Rádio Clube, toda essa gente. Conheci muito bem a rua Ilha do Pico. Os primeiros monitores altifalantes que foram para a rua Ilha do Pico serviram nos meus espetáculos porque eu era amigo de alguém que faleceu há algum tempo, o Mário Pereira. Sou da TSF do coração, por isso me sinto à vontade para dizer que o modo como a TSF trata a música não tem sentido. De qualquer maneira, a TSF é a número um para mim, por isso gosto tanto de vir aqui. Se me convidarem mais vezes, seja para o que for, para ler o noticiário, eu venho logo.

Fica aqui o aviso aos responsáveis.

A sugestão para não dizer uma cunha.

Aqui está um candidato a ler noticiários na TSF, Fernando Tordo, 70 anos de vida, comemorados no dia 29 de março.

Nasci com 5,300 quilos, queixava-se a minha mãe.

E tinha muita razão para se queixar.

Tinha toda a razão, a pobre senhora, ainda por cima teve-me na rua Frei Terenas, não teve tempo, com um peso destes não chegou a hospital nenhum. Foi em casa dos meus avós maternos, rua Frei Terenas número 8. Aí nasci e aí me tornei um alfacinha inveterado. Em boa hora, porque a gente tem de ser de alguma parte relevante, ou pelo menos tem de se amar muito essa parte. Eu tenho um amor ódio por Lisboa. Gosto da Lisboa dos anos 1950.

O que era a Lisboa dos anos 1950?

Era uma coisa fabulosa.

Porquê? Jogava-se à bola na rua?

De sarjeta a sarjeta, quem sofria o golo metia a mão dentro da sarjeta.

Como?

Porque a gente jogava com uns sticks, o hóquei em patins estava na moda, e com uma bola dos matraquilhos, na avenida da Igreja, de baliza a baliza. Imagina. Passava um carro de vez em quando e se a malta ficava irritada. Um carro? A gente está aqui num torneio internacional e vem um gajo com um carro? O que é isto? A malta pumba pumba pumba, quem sofria o golo metia a mão na sarjeta. Cheirosas, as sarjetas da avenida da Igreja.

Porque era uma avenida recente.

Tenho uma canção que se chama O Meu Bairro. "No cimo da avenida / vi construir uma igreja / Passei a frequentar o sítio / gostava do eco" Lembro-me que durante a construção estavam a desmontar os andaimes de dentro e a malta ia a à sorrelfa, ainda não estavam os santinhos nem nada. E eu preguei uma grande biqueira numa tábua e aquilo fez pah.

Gostas do eco, do som?

Nos discos que gravamos normalmente não se sente o eco da voz, mas todas as gravações são feitas com uma reverberação especial, o que dá um tipo de consistência à voz. O eco e a reverberação fazem parte da música. Como não existe música sem silêncio, não é possível.

Como é a questão do silêncio na música?

É fundamental, porque uma coisa valoriza a outra, a nota valoriza o silêncio, quanto tempo estás em silêncio. Temos ali espetadores.

Sim, está a Alexandrina Guerreiro a prestar atenção e a rir-se.

E o Filipe Cordeiro, que toca trompa, amigo há uma data de anos, faz parte do meu octeto que vai estrear nos meus espetáculos e é também meu assistente. É uma boa alma, coitado. Enganado, porque quem se mete comigo sai enganado, como é evidente. Ai, deve ser um gajo tão giro, o tipo deve ter uma piada. Não tem piada nenhuma.

Não tens piada nenhuma?

Zero.

Vamos falar desse octeto?

Já atuei com eles várias vezes. É claro que interrompi agora nestes quatro anos em que estive no Brasil.

Estás a viver em Portugal?

Definitivamente. Estive mais tempo no Brasil do que aquilo que supunha que iria estar.

Porquê?

Há coisas que eu adoro fazer. Faço uma canção e adoro telefonar para um músico e dizermos assim: vamos arranjar isto, vamos gravar. Se eu não gravo enquanto estou vivo, o que é que eu faço? Como é que se grava um morto? Não sei, ninguém me explica. Os vivos usam estúdios de gravação. Eu tenho que aproveitar.

Foi isso que conseguiste ter no Brasil?

Ao contrário de muitos colegas meus (cada um escolhe o seu processo), eu não gravo discos com a preocupação lancinante de vender discos. Hoje não se vende discos, grava-se um disco porque é curricular, faz parte do percurso da nossa vida. Eu sou compositor de profissão e sou intérprete também, sou autor. Gravo o mais possível. O Brasil interessou-me muito nesse aspeto. Eu ficaria muitos anos a viver no Brasil, mas em consciência a minha vida também não é só música e começa a ser muito aborrecido para mim esta coisa de ter algum receio, de ter cuidado - tenha cuidado, feche os vidros do carro porque é meio-dia e meia. Não quero. Essa situação começou a ser crescente em todo o Brasil, gravemente no Rio de Janeiro. Nós somos da geração da cidade maravilhosa, mas agora não tem nada de maravilhoso. Não pode ser.

Tinha o lado bom de teres músicos?

Os músicos, o entendimento musical, a rapidez e a qualidade com que se grava. Os meus discos provam-no. Eu gravei um disco [O Outro Canto] que foi prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2016, o "melhor disco da língua portuguesa". É um prémio que para mim é mais valioso do que uma condecoração... eu também sou comendador. Mas interessa-me o prémio da SPA porque é um prémio de especialistas da música. Fiquei doido de satisfação quando me disseram "a SPA atribuiu-te o Prémio Pedro Osório", ainda por cima Pedro Osório, um amigo de 40 anos. Eu gravei tanta música com o Pedro Osório que não dá para acreditar, sou o compositor e cantor português que mais gravou com o Pedro Osório. Nós hoje ouvimos gravações orquestrações com arranjos do Pedro Osório, com 40 e tal anos, e é como se tivessem sido gravadas ontem. É um tempo importante. Com que é que a gente atravessa o tempo? Com que é que a gente o trespassa? Com que é que a gente dá cabo dele? É com o bom que fazemos. Valeu porque foi feito há 40, há 50 anos, e valeu porque as pessoas pedem, as pessoas gostam. Fazemos as coisas para as pessoas. Porque é que a gente está aqui a falar um para o outro? Para as pessoas.

Disseste que hoje não é para vender que se fazem discos, é para fazer currículo. Não se vende?

Não, é tudo mentira. Vende-se discos se eu for fazer um concerto aqui ou ali, é o que os artistas fazem todos, em todo o mundo. Leva-se discos. Está-se um bocadinho à conversa, assina-se uns discos. Hoje o importante é ter a selfie e o autógrafo. Por que é que cada vez há mais espetáculos? Felizmente! Porque as pessoas querem cada vez mais esse contacto. Querem cada vez saber mais o que é verdade e o que é mentira, se aquela coisa que ouviram na rádio é reproduzida no palco ou se é uma treta. Porque o mundo está cheio de treta. Estou a gravar o meu disco de duetos, com malta mais ou menos conhecida - o Rui Veloso, a Carminho, o Tim dos Xutos & Pontapés o Jorge Palma.

Temas teus?

Tudo canções minhas. Eles vão ao estúdio gravar aquilo que eu quero, é assim que deve ser.

Quem vai cantar contigo o Cavalo à Solta?

O Jorge Palma. Há três ou quatro dias ele escreveu uma mensagem assim: eu conheço o Cavalo à Solta há 50 anos mas não sei se vou conseguir fazê-lo parar no estúdio. E eu respondi: como estamos um estúdio de gravação, podemos dar-lhe uns choques elétricos. E ele: talvez seja melhor atirar-lhe com o piano para cima. Que a gente vai matar o cavalo, vai.

Já gravaram?

Começo no dia 3 de abril a gravar, com o profissionalão e querido amigo Herman José, a Lisboa de Feira, ele adora esta cantiga.

Também é um rapaz pouco conhecido.

Lá no bairro dele. No outro dia fui lá e disseram-me ah, um rapaz assim com ar alemão, é ali à frente. Depois temos Marisa Liz [Amor Electro], que eu conheço de criança. E a Rita Redshoes que para além e ser uma mulher lindíssima, tem uma coisa extraordinária - é da música e é muito musical. Há uns anos fui com o meu neto Matias e a minha filha Joana ao CCB, numa sala pequenina, uma coisa para crianças. Mais ninguém faz isto em Portugal. Ela põe-se atrás de uns instrumentozinhos, umas caixinhas, e faz a sonorização da pecinha de teatro. E os atores estão a representar ao lado. Eu adoro esta pessoa.

O que vais cantar com ela?

Vou cantar Nº 2 - 6º Andar Frente, que fala de um namoro antigo. A Marisa Liz vai cantar O Amigo que eu Canto. A Carminho vai cantar comigo a Estrela da Tarde. O Ricardo Ribeiro vai cantar uma canção que é talvez o mais fabuloso de todos os textos do José Carlos Ary dos Santos escritos para música, Se Digo meu Amor. Vai ser uma canção fascinante de gravar com ele.

Essas gravações são filmadas?

Espero que estas gravações sejam filmadas. São o sinal de uma coisa interessante: a maior parte dos outros podiam ser meus filhos, e o carinho, às vezes até o deslumbramento de irem gravar uma canção comigo... É um momento muito importante da minha vida. Às vezes digo injustamente que devia ter gravado este disco de duetos há 20 anos porque é moda gravar aos 50 anos. Tu perguntas assim: tu segues algum exemplo?

Deixa-me ser eu a perguntar. Tu segues algum exemplo?

Sim. Tony Bennett. Porque é o cantor que procura uma coisa que ele próprio sabe que não existe, que não alcança, que é a excelência. A excelência é um marco para pessoas como eu ou como o Tony Bennett, andar atrás de uma coisa que a gente sabe que não chega lá.

Então este é o disco que andas a gravar?

Sim, vai chamar-se Fernando Tordo, Duetos, Diz-me Com Quem Cantas.

Em paralelo andas a ensaiar para os concertos que vais fazer com o octeto. Tem um nome, o octeto?

Não, é Fernando Tordo e o seu octeto. Ponho o pessoal no palco, arrumem-se para aí e não toquem muito alto, não façam muito barulho. O octeto é o octeto e eu sou eu, não quero cá misturas, misturas só nos discos que é o que se faz depois de gravar.

O Filipe Cordeiro está a rir-se de ti.

É tudo organizado pelo Filipe Cordeiro. Eu trabalho com dois ilustres orquestradores portugueses, gente nova, Lino Guerreiro e Valter Rolo. Para os espetáculos, que vou fazer no dia 18 no Tivoli e no dia 27 dia Casa da Música, no Porto. Para esses dois é a estreia com o octeto. E tem convidados. Em Lisboa vai ser o Ricardo Ribeiro, a Marisa Liz e a Anabela. E no Porto vou ter também a Anabela e a minha querida Rita Redshoes, gente muito boa.

O Filipe está ali a tentar dizer-te...

A surpresa. No outro dia estava a pensar assim: tenho um filho que é um grande pianista clássico, o Filipe Manzano Tordo e nunca o convidei para coisa nenhuma da música. Vou ouvi-lo tocar e meto-me na fila para pedir autógrafos. Adoro ouvi-lo tocar piano, toca para burro. Telefonei-lhe e ele disse imediatamente que sim e vai tocar nos dois concertos. Vou cantar uma canção muito especial que é a última de um LP meu, Adeus Tristeza, gravado em Londres com o José Calvário no final de 1982. A canção chama-se Os Cantores da Minha Terra. É uma elegia, fala daquilo que eu gostava que houvesse para os cantores da minha terra. Mandei-lhe a música, ele conhecia mais ou menos. Faço só voz e piano com o meu filho Filipe. É um dos duetos do disco e vamos fazer em espetáculo, tanto em Lisboa como no Porto.

Esta é uma longa carreira, não são só 50 anos, são mais, começaste aos 16.

São 54. É justo em 2018 falar em 50 porque foi em 1968 que fiz as minhas primeiras canções e gravei. São 50 anos de compositor e cantor - prefiro dizer intérprete. Mas no total, de músico, são 54. Conto a carreira profissional a partir do primeiro contrato que tive pago, numa festa de finalistas do Liceu Francês Charles Lepierre.

O que cantavas nessa altura?

Era aquele repertório do No Milk Today e os Hollies e os Beatles e principalmente, voilà, Cliff Richard e os Shadows. Quando comecei na música, muito menino, eu não tinha dinheiro, não tinha coragem de pedir ao meu pai ou à minha mãe dinheiro para comprar discos. Aprendi a ouvir os discos em casa dos amigos, como o Jaime Queimado. Aprendi que o instrumento soava melhor se estivesse afinado. Não passa pela cabeça de ninguém um instrumento desafinado, soa horrivelmente mal. Aprendi a afinar guitarras com os Shadows, em 1958 e 59, tinha dez anos. A paixão que tenho por esses tipos é enorme. E como na altura não tinha dinheiro para comprar os discos deles compro agora, aos 70. Mando vir tudo. Consigo discos originais do fim dos anos 1950.

O que tinham os Shadows?

Aquela sonoridade, aquilo é maravilhoso, a gente viaja no tempo. Continua afinado. Hoje ouves e ai meu deus a desafinação que vai aqui. E nos Shadows está sempre certo, é muito belo, muito inovador para a altura, é uma revolução na música. Os Beatles vêm imitar a formação dos Shadows: bateria, viola baixo, guitarra de acompanhamento, guitarra solo. Foram os Shadows que inventaram esta formação. Tenho grande paixão pelos Shadows. Hoje mando vir os discos numa grande empresa inglesa, se não têm vão à procura e mandam-me os discos. Recebo os discos em casa, muito bem embalados.

Em vinil?

Em vinil. Quero passar agora uns anos, se tiver saúde para isso, no meu recanto, na minha garagem, com o meu gira-discos com uma amplificação dos bailaricos dos 15 ou 16 anos, dos primeiros namoros. Vou pôr os discos dos meus cantores preferidos e também outra música de que gosto, Count Basie, Oscar Peterson, Tony Bennett, essa malta toda. No outro dia mandei vir um disco extraordinário de um tipo que pouca gente conhece, um génio da música para cinema, o Bernard Herrmann. Foi o homem que trabalhou mais tempo nos filmes fantásticos e misteriosos do Alfred Hitchcock.

Nós conhecemos a música mas não sabemos que é dele? E assustamo-nos só de a ouvir?

Tenho lá quatro discos que me mandaram, deve ser o fim do mundo. Adoro música para cinema, é uma coisa que gostava de ter feito. Se calhar não vou conseguir... não, acho que sim, vou encarar isso com esperança. Tenho-me oferecido sucessivamente a alguns realizadores de cinema para fazer música Eu falava com o Fernando Lopes no Vavá.

Eram vizinhos.

Éramos vizinhos. Estava o Fernando Lopes e aquela malta toda. O primeiro livro que eu li foi um livro do Zé Cardoso Pires, que mais tarde virou cinema

O Delfim?

O Delfim, passado naquela lagoa.

Virou cinema pelas mãos do Fernando Lopes.

Já se sabia, historicamente, que quando fosse a altura era o Fernando Lopes que ia fazer O Delfim. E eu disse-lhe com anos de antecedência: Ó Fernando, por favor, quando fizeres O Delfim deixa-me fazer a música. O produtor fez uma coisa única que fica na história do cinema, um filme sem banda sonora, uma coisa que não existe, só na cabeça de um indivíduo que anda a fazer economias. E pôs uma canção do Tony de Matos, uma coisa de loucos. Fiquei chateado com o Fernando Lopes e veio uma explicação estapafúrdia, que havia muita pressa de apresentar o filme.

Nos últimos dias apareceram referências a uma entrevista que deste [Alta Definição, SIC] em que falavas de alcoolismo, de teres sido mau pai, de teres tido vontade de suicídio. Aos 70 anos, é isto que queres dizer?

Está na hora de me explicar, muito especialmente aos meus filhos. Eu não sou mentiroso nem desonesto, sou um tipo muito sério, mas chegou a hora de dizer certas coisas que nunca terei dito. Eu já tinha dito que frequentava Alcoólicos Anónimos há doze anos. Resolvi mudar a minha vida antes que outros fatores - o álcool, por exemplo - me mudassem a mim. Às tantas a garrafa ia-me beber.

Deixaste de beber há quanto tempo?

Doze anos, e de fumar também. Está na hora de dizer essas coisas. Se eu disser isto, muita gente fica aflita porque ou a própria pessoa ou alguém na família ou algum amigo ou vários amigos sofrem muito disso. É que os números existem, convém não esquecer. Estamos num país com mais de 300 mil pessoas metidas a sério no álcool. Acho que posso ajudar, sou um bom exemplo. Não sou vedeta nenhuma, o tempo de ser vedeta já passou, era um miúdo giro, 1,84 m e pesava 73 quilos, era bonito, as miúdas apareciam e eu ficava a olhar para elas e dizia "ai estou tão cansado". Agora com 70 anos não é nada disso. Tenho de dizer essas coisas porque vou cumprir a minha missão.

Que missão é?

Dizer às pessoas que é possível viver-se feliz e dar uma entrevista na TSF e passar o tempo todo muito divertido sem ter bebido mais nada que não tivesse sido uma garrafa de água.

E um café.

Um café. Ainda não vi essa entrevista mas o telefone começou a tocar quando eu ia de viagem no carro, as pessoas muito surpreendidas apenas porque houve um tipo que resolveu dizer coisas verdadeiras sobre a vida. A verdade já é uma coisa completamente surpreendente. Isto tem um lado cómico. Pode-se perfeitamente ser verdadeiro, não faz mal nenhum, pode-se assustar as pessoas com a verdade. E por causa da política - "foi não sei o quê, é não sei quê?". Eu não sou coisa nenhuma. A única coisa que digo, quando me dizem que sou do Benfica, é: eu não sou do Benfica, eu sou o Benfica. É a única coisa. O resto, vivo tranquilo, leio os meus livros, pinto muito.

Continuas a pintar?

Muito. E ponho no Instagram as minhas coisas e as pessoas gostam. São sempre os mesmos 40 ou 50, adoram, é o meu público, adoro-os.

E escreves?

Escrevo. E faço canções porque pintar serve-me para eu não enlouquecer com a música, porque eu não paro de fazer música.

Como é isso?

Não consigo parar. Tenho muitos instrumentos e vou experimentar um e depois outro e pego noutro. Estou sempre a fazer música, sempre a fazer canções. Cansa-me.

Quando estás a pintar não tens música?

Posso fazer as duas coisas, é sensacional. Acontece muitas vezes. Pintar e compor uma música ao mesmo tempo. Isso é um modo de vida extraordinário.

Copias partes de quadros de grandes pintores?

Só copio grandes pintores porque tenho uma inveja louca. Quando se diz copiar é uma responsabilidade grande. Tenho um livro de poesia que diz Quando Não Souberes, Copia. Gosto de copiar, especialmente Picasso, porque é uma maneira de falar com ele. Há ali um trajeto quando estás a copiar, estás a conversar com o gajo. Estás a perceber certas coisas, aguenta aí, não é por aí, já viste o cotovelo? Viste que o cotovelo alinha com o calcanhar? Eh pá, obrigado.

Muitos grandes pintores copiaram obras de outros como exercício.

Ele, Pablo Picasso.

E Van Gogh.

Quando não souberes, copia. Eu sei alguma coisa de pintura. Não tecnicamente, sou um péssimo pintor. Admiro muito os pintores. E não paro de pintar.

Portanto, a pintura, a música, a literatura, tudo isso faz parte permanente da tua vida?

Permanentemente. Levanto-me às quatro e meia, cinco da manhã e começo a fazer uma coisa que se poderia chamar trabalho. Hoje estou chateado porque vim do Algarve a conduzir e ainda não tive tempo. Com esta conversa finalmente começou o meu dia. Conduzir é uma chatice, é uma coisa que faço há 50 e tal anos, primeira, segunda, terceira, olha um autocarro, olha aquele gajo a fazer asneiras, ó camelo!

És irascível a conduzir? Disseste que até vinhas a rir.

Custa-me um bocadinho porque conduz-se muito mal em Portugal. Carta na Farinha Amparo. Tu não podes ter um menino rico que comprou a carta de condução aos 18 anos e metê-lo dentro de um BMW que tem um anúncio - estes pneus são muito bons a 260 km à hora. Tu aceitas isto? Eu não. Largas os bichos na estrada e eu vou ali com a Dona Eugénia Passada e não vou devagar, que eu não gosto de andar devagar, detesto, faz-me sono. A autoestrada fez-se para andar numa velocidade temperada.

Quando lançaste o livro de haiku com o Manuel Pinto Ribeiro, no Museu do Oriente, fizeste uma grande intervenção e cantaste a canção do Salvador Sobral [Amar pelos Dois]. Era uma canção especial?

Não. O acontecimento que a canção gerou é que é especial. Sou de uma geração que ajudou a coser os paninhos, as alcatifas, os bocados de trapo, o cartão canelado que fizeram o caminho durante décadas para que um dia alguém por Portugal pudesse ganhar uma coisa que era uma espécie de um trauma nacional. Não digam que não era porque era, eu sei que era. Foram 50 anos de trauma. Eu faço parte dessa geração que fez o melhor que podia e o melhor que sabia. Foram feitas grandes canções que fazem parte do acervo da música em Portugal, de toda a música, propositadamente para esse festival. Apareceu um português, com a irmã compositora, com uma canção que ganhou o Festival da Eurovisão. No Brasil recebi a notícia com o mesmo entusiasmo, com a mesma expressão, a mesma lágrima com que recebi a notícia de o José Saramago ser Prémio Nobel. E eu não gostava do José Saramago pessoalmente. Gostei muito dele nos últimos anos, viajei muito com ele. A mesma lágrima de alegria louca. Convoquei os meus três músicos no Recife, fizemos um arranjo e gravei, a gravação existe, não está ainda publicada. Enviei para cá a minha homenagem a alguém que tinha conseguido o inimaginável.

É uma canção difícil de cantar?

Pode ser cantada de várias formas, é uma canção que fica também bonita num tipo de timbre como o meu. É muito bonita a versão que eu gravei porque foi com muita emoção. Fez-me voltar ao festival da canção que eu ganhei duas vezes, aprendi a ganhar ficando em último lugar. Isso a mim não me atrapalha nada. Adorei, porque relancei uma das melhores cantoras portuguesas dos últimos anos.

A Anabela?

A preparação da Anabela para entrar no palco é uma coisa digna de se ver. Não tem nada a ver com esta malta que anda aqui mais ou menos a brincar com isto, aquilo é uma coisa séria, é Filipe La Feria a 200 por cento, escola de teatro, escola de canto, preparação, respiração, concentração. Antes de entrar para o palco, a Anabela faz uma coisa extraordinária que eu nunca tinha visto, em tantos anos. Diz assim: Fernando, eu agora vou entrar no palco e podia tropeçar já aqui à entrada no vestido mas não vou tropeçar. Podia chegar ao pé do microfone e dar um espirro ou ter vontade de tossir, mas não vou dar um espirro nem vou ter vontade de tossir. Podia chegar ao microfone e as coisas correrem-me mal, mas não vão correr mal, vão correr muito bem. É preciso muita cabeça, muito estudo, muito treino, muita prática. E que não fosse pela canção que eu fiz juntamente com o Tiago Torres da Silva, o festival valeu a pena por isto que eu aprendi. Fiz 70 anos na semana passada e o que eu ainda tenho para aprender! Parece-me que Portugal construiu e desmontou completamente o festival da canção num simples ano. É uma tendência histórica que temos, basta ler a História de Portugal para perceber por que é que isto acontece. Se houver condições, eu vou concorrer outra vez, não tenho dúvida nenhuma.

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