Estaline vai à ópera

O toque de mestre de Barnes permite uma aprofundada reflexão sobre as relações entre a arte e o poder

Se tal não reduzisse o mais recente livro de Julian Barnes a uma mera abordagem biográfica, bem escrita e concisa, quando o jogo se abre verdadeiramente a várias outras leituras, o subtítulo de The Noise of Time poderia ser "A vida e as atribulações de Shostakovich". Dmitri Dmitriyevich Shostakovich (1906--1975) alinha com Sergei Prokofiev e Arma Khachaturian no naipe de ouro de compositores eruditos da União Soviética, a que se soma Igor Stravinski, que já não vivia na Rússia ao tempo da revolução bolchevique e que, à cautela, optou por não regressar à pátria. Se atentarmos no que se abate sobre Shostakovich, perceber-se-á facilmente que Stravinski optou por salvaguardar a obra, por evitar todas as nuvens negras que pairaram sobre as vidas dos seus compatriotas criadores, na música como no resto.

Os dissabores de Dmitri Dmitriyevich coincidem com a estreia da sua ópera Lady Macbeth, em Moscovo, e com a apresentação da sua Quarta Sinfonia, noutra cidade soviética. Por acaso, ou talvez não, Estaline decidiu deslocar-se ao Bolshoi e, a julgar pelas suas reações, automaticamente mimetizadas pelos poderosos que o cercavam, incomodou-se com a "estridência" dos sopros e das percussões, escarneceu das cenas românticas incluídas no libretto. Dois dias depois, Shostakovich era a figura central de um editorial do jornal Pravda, que o condenava por compor para uma elite burguesa, afastando-se da música que o povo reclamava e da máxima leninista de que "a arte pertence ao povo". Passado algum tempo, o com- positor era chamado à sede da polícia política, aparecendo envolvido numa conspiração que visava assassinar Estaline e que seria encabeçada, azar dos azares, pelo militar que sempre servira de patrono ao músico. Fica-se com a ideia - e a narrativa de Barnes assume uma assustadora exatidão em muitas passagens - que Shostakovich só não foi objeto da purga final porque o agente que o interrogara também caiu em desgraça e acabou fuzilado.

O espectro da morte a cada esquina - ou a cada compasso, para adotarmos o léxico musical - representa apenas um dos obstáculos da criação. A humilhação de ver as suas obras sujeitas a um "exame prévio" por um júri de musicólogos e burocratas, encarregados de fiscalizar preventivamente a "afinação" das peças pelo diapasão revolucionário, também deve ter contribuído para a crónica inquietação (ou depressão) do compositor que acabou por se valer do instinto de sobrevivência, em várias ocasiões. Por exemplo: na sequência de um telefonema do próprio Estaline, que lhe terá prometido a reabilitação (o que passava pela possibilidade de as suas obras voltarem a ser tocadas e ouvidas na União Soviética, onde estavam literalmente banidas... por ordem de Estaline) em troca da sua disponibilidade para representar o Povo, a Revolução e a União Soviética num encontro pela Paz, em Nova Iorque. Dessa viagem são recordados o confronto com Nabokov, outro russo exilado e tido como agente da CIA, e a comunicação lida por Shostakovich, mas escrita sabe-se lá por que diligente funcionário, em que o "exílio dourado" de Stravinski era arrasado. Ironia das ironias: depois uma segunda queda em desgraça e a caminho de uma segunda "ressurreição", Shostakovich acabaria por ceder às pressões para se tornar militante do Partido Comunista. Ele, que tinha garantido nunca se filiar num "partido que mata".

Pelo meio, o toque de mestre de Barnes permite uma aprofundada reflexão sobre as relações entre a Arte e o Poder, dissertando sobre a ironia que pode embrulhá-las, abordando a questão do compromisso, defendendo sempre a integridade como irmã gémea da honestidade e do talento. Como acontece nas obras que deixam marca, o escritor parte do particular para o geral. Quem o conhece - de O Papagaio de Flaubert, de Nada a Temer, de O Sentido do Fim - reconhece o estilo e a grandeza. Quem quiser descobri-lo vai perfeitamente a tempo, até porque este inglês de 70 anos assume, no universo literário, um lugar que se afasta drasticamente do título deste livro magnífico: Julian Barnes vive nos antípodas do "ruído do tempo".

The Noise of Time, Julian Barnes, Ed. Jonathan Cape, 184 Páginas. PVP: 9,99 libras, (www.amazon.co.uk)

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