"Esta peça não é sobre religião, é sobre o ser humano"

Ricardo Pereira reconhece que interpretar Deus é "uma grande responsabilidade". A artista brasileira Irene Ravache congratula-se com o intercâmbio entre os dois países. Meu Deus! estreia-se quinta-feira no Teatro Tivoli

Na peça Meu Deus!, que se estreia na quinta-feira no Teatro Tivoli, a sua personagem, Ana, é uma psicóloga e recebe um paciente completamente inesperado: Deus...

Irene Ravache (I.R.) Ao início ela acha que aquele homem está perturbado, que é maluco, e até pede para ele ir embora. Mas, perante a resistência daquele paciente, ela decide entrar no jogo dele porque existe algo que desperta a atenção e a curiosidade dela. Muito embora a minha personagem não seja propriamente fã de Deus. Este encontro vai gerar um turbilhão de sentimentos na vida da Ana e na relação que ela tem com o filho, que é autista.

O que é que pode levar Deus a recorrer à ajuda de uma psicóloga?

Ricardo Pereira (R.P.) Pois é, essa é a grande questão. O que é que pode levar o Criador a ter de recorrer a um terapeuta, quando é a ele a quem recorremos quando estamos com algum problema? A verdade é que Deus está desiludido com os homens que foi criando e chega a uma altura em que se apercebe de que não tem nenhum amigo nem nenhum confidente. Daí ter de recorrer a uma psicóloga. Deus está deprimido, e a depressão dele já dura há dois mil anos.

Interpretar Deus é uma grande responsabilidade?

R.P. - Sem dúvida. Embora a figura de Deus seja dotada de grandiosidade e imponência, eu vou tentar trazer um Deus mais próximo do ser humano, com algumas emoções e fragilidades.

Este espetáculo vai mexer com as emoções dos espectadores quando as cortinas se fecharem?

R.P. - Essa é a grande a finalidade do teatro, e esta peça tem isso, sem dúvida. Abordamos vários assuntos e cada pessoa vai levar para casa a sua própria reflexão sobre um determinado tema. Obviamente que nós, atores, também somos contagiados por esta viagem, pela fragilidade de Deus, pela génese de Deus e por aquilo que estamos a fazer com aquela que foi a sua grande criação, o mundo.

I.R. - No nosso quotidiano, acreditando em Deus ou não, há momentos em que pensamos: "Porque é que você deixou que isto acontecesse?" Principalmente quando nos deparamos com grandes catástrofes ou quando existem tragédias que atingem crianças.

Anat Gov, a autora de Meu Deus!, era israelita. Consideram que este é um espetáculo que ultrapassa a fronteira da religião?

I.R. - Quem vier assistir a esta peça pode ser católico, judeu, muçulmano, agnóstico ou ateu. A religião aqui não importa. Este é um espetáculo que pode ser visto por qualquer pessoa, é independente da religião, e serve sobretudo para nos questionarmos. Na religião judaica, mais do que na católica, Deus existe para ser questionado.

Meu Deus! já esteve em cena em vários países, incluindo o Brasil. Isso deve-se ao facto de ser uma história que aborda temas universais, que podem ser assimilados por pessoas de culturas diferentes?

I.R. - Sim, precisamente porque esta peça não é sobre religião, é sobre o ser humano.

R.P. - E sobre quem supostamente criou o ser humano. É uma peça que atrai o espectador porque toda a gente tem curiosidade de perceber a génese de muita coisa e de questionar esse Deus sobre tantas outras coisas, e isso é bom.

Acham que o público português vai reagir bem à vossa parceria?

R.P. - Nenhum espetáculo será igual ao outro, é assim que funciona o teatro, mas acho que neste caso isso ainda vai ser mais evidente porque existe muito questionamento, muita vontade de fazer de maneira diferente e de experimentar. Podemos chegar ali e experimentar outro caminho, porque somos contagiados pela plateia que está à nossa frente naquele dia, e pelo momento em si. E isso também nos modifica. O lado orgânico do teatro, a evolução contínua é muito interessante. É a experiência em direto, ao vivo.

I.R. - Essa é a essência do teatro. Nunca sabemos o que vai acontecer naquela noite. E acontecem coisas inacreditáveis.

É enriquecedor existir este intercâmbio entre Portugal e Brasil no teatro?

I.R. - Esta experiência de termos no palco uma atriz brasileira, um ator português, cada um no seu sotaque, e um terceiro ator que não fala porque é autista é muito enriquecedora. Para os atores, para o teatro e para os dois países.

Decidiram, então, que era melhor manter os sotaques de cada um...

R.P. - Podíamos ter escolhido qualquer uma das opções. Os dois com sotaque do Brasil, os dois com o sotaque de Portugal, ou o caminho que acabámos por escolher. E fizemo-lo porque são duas personagens cuja união acontece naquele dia apenas, em que se cruzam no consultório, porque não se conheciam até então. São dois seres com caminhos completamente diferentes. E no final, sem revelar o que acontece, eles mexem um com o outro, e isso é tocante. Não só um com o outro, mas também com o filho da psicóloga Ana. Eles têm uma envolvência que é notória.

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