"Em Portugal mantém-se uma atitude muito paroquial e provinciana"

António Araújo pode ser identificado como historiador, crítico literário, responsável pela escolha dos autores da coleção Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos ou, aquele lado que menos gosta de referir, o de consultor da Presidência da República

Neste último caso, porque se recusa violar uma ligação que começou com Cavaco Silva e se mantém com Marcelo Rebelo de Sousa. Respeita-se esse espaço de privacidade, mas não se deixa de o questionar sobre o seu interesse na direita portuguesa, um tema que tem desenvolvido, designadamente num ensaio publicado no ano passado, em que tenta encontrar provas físicas e intelectuais do renascimento da direita pós-25 de Abril de 1974. Um diálogo em que surge o hipotético fim das ideologias, mas é no mundo da cultura que foca esse restabelecimento gradual do pensamento conservador em Portugal.

Gosta de viver num país que está a ser governado pelos comentadores nas televisões e na imprensa?

Não tenho a certeza que esteja a ser governado pelos comentadores, agora que têm um grande peso a moldar a opinião pública e também a ação dos governos é um facto. Não estando a ser governado por comentadores, concordo que há um excesso de comentário no sentido em que muitas vezes a realidade real torna-se mais a realidade que é comentada do que propriamente a verdadeira. Portanto, cria-se um simulacro de realidade.

Ninguém parece estar preocupado?

Porque se está anestesiado e consomem aquilo que lhes é dado, e toda a criação do gosto, da exigência e da profundidade é um processo que demora muito tempo a afirmar-se. Cede-se à tentação da facilidade e da banalidade, àquilo que é mais acessível hoje em dia, muito potenciado pelo visual, a internet, as redes sociais e o imediatismo. A concorrência do difícil com o fácil é muito complexa.

É um problema de elites ou o povo está desligado?

Digamos que se sobrepõe à esquerda e à direita e entre cultura de elites e do povo. Se já começa a aparecer uma classe média devido ao acesso ao ensino que não pertence à elite tradicional, é confrangedor que os consumos culturais das nossas elites sejam de tão baixa qualidade a nível de literatura, por exemplo.

Tem sido muito crítico sobre o que se escreve em Portugal. Nada do que se está a escrever justifica ser publicado?

Não, muita coisa justifica ser publicada e existem nomes com qualidade, mas muitos deles não conseguem passar para a esfera mediática ou para o grande público. Por exemplo, a Ana Cássia Rebelo é uma grande escritora, a Djaimilia Pereira de Almeida também. Há uma série de autores novos com grande interesse, mas a concorrência de nomes do mainstream e de mais duvidosa qualidade impõem-se. Não quero ser um justiceiro das letras e estar a criticar dois dos que mais vendem, mas não posso deixar de dar exemplos: José Rodrigues dos Santos e Domingos Amaral.

Não há diferença entre um e o outro?

Não, conheço a obra de ambos, não por grande interesse intelectual, mas acho que há algo que os irmana: uma relativa falta de qualidade literária. Há diferenças, o primeiro investiga para os seus livros e o segundo tem livros menos trabalhados na preparação.

Mas são dos autores que mais vendem.

Exatamente, por isso mesmo é que ao debruçar-me sobre esses autores em termos críticos num blogue que tenho, o Malomil, há muitas pessoas que dizem que estou a perder tempo. No entanto, creio que um fenómeno que vende cem mil ou setenta mil tem relevância sociocultural suficiente para que nos ocupemos dele, até porque não são autores marginais.

O tempo de autores bons que vendiam cem mil exemplares acabou?

É muito difícil fazer previsões sobre o futuro, mas atualmente acho isso difícil. Acabou, e é muito difícil aparecer um Saramago - claro que a esses cem mil deve juntar-se o fenómeno do Nobel e a inclusão em programas de ensino -, mas essa tendência não é só portuguesa. Entre os autores mais vendidos - Miguel Sousa Tavares, José Rodrigues dos Santos, Domingos Amaral, Margarida Rebelo Pinto - a formula também está muito repetitiva. Encontros e desencontros amorosos em Lisboa ou noutras cidades são mais facilmente mimetizáveis por outros autores, principalmente autoras, coisa que não se passa tanto com Rodrigues dos Santos porque é mais dificilmente mimetizável pois em cada livro traz um novo tema.

Pelo seu tom pareceu-me que não gosta muito do José Saramago?

Não, gosto, é um dos autores mais notáveis. Basta ler As Pequenas Memórias, um livro muito bom, ou o Discurso de Estocolmo, extraordinário. Depois, há livros do José Saramago, por exemplo A Viagem do Elefante, onde já estava a repetir um estilo e escrita. Há quem diga que escrevia para as traduções. No entanto, inventou uma linguagem, o que é muito interessante, mas ficou prisioneiro disso, como sempre acontece aos inventores das linguagens.

Essa reinvenção da linguagem também não desapareceu após Saramago?

Sim, pois não é fácil. Para inventar uma linguagem própria é preciso conhecer muito bem a linguagem a partir da qual se vai recriar e hoje a concorrência dos Facebooks e de outros fenómenos é muito destruidora.

É mais fácil importar a Elena Ferrante e produtos semelhantes?

Sem dúvida, é mais fácil ir para o cozinhado. Mas, como também não tenho a ideia do nacionalismo das letras, acho que há fenómenos que merecem ser lidos mas também não os devemos cultivar em excesso só por serem portugueses. De vez em quando há a mania de lermos autores por nos serem mais familiares, só que considero que a literatura portuguesa tem de vencer algum paroquialismo. Os autores contemporâneos da nova geração já não falam só da realidade portuguesa, vê-se o João Tordo que tanto tem livros sobre a Catarina Eufémia e Baleizão como outros que se passam em vários cenários estrangeiros. Não sei se o fazem com intuito de serem traduzidos, mas isso permite desparoquializar um pouco e desprovincianizar muito a nossa literatura. Isto não significa que a grande literatura portuguesa dos Sinais de Fogo ou do Mau Tempo no Canal fosse provinciana, tal como o neorrealismo, muito centrado na nossa realidade.

Este paroquialismo de que fala é transversal à cultura portuguesa?

Sim, não é uma característica da literatura porque mesmo na música portuguesa, até no Ar de Rock do Rui Veloso, a grande novidade era cantar-se em português. Esse paroquialismo abrange até um pouco o orgulho que tivemos pelo Salvador Sobral e por estar a cantar em português. Há um livro do Sudhir Hazareesingh, How the French Think, que mostra como o pensamento francês sempre foi muito universalista a partir da Revolução Francesa. Tão universalista que marcou enormemente a cultura portuguesa. Existia uma projeção e uma vocação para uma cultura com uma irradiação internacional, afinal o Victor Hugo não escrevia só para França mas para o mundo. Um autor português escrevia sempre para o seu país, isto é, o Eça nunca pensava em ser traduzido, nem o Camilo ou menos ainda o Aquilino Ribeiro.

Não é estranho que um país que descobriu o mundo nunca pensasse em exportar-se a nível cultural?

Não, porque vivemos numa glorificação e numa evocação de glórias pretéritas que acaba mais por nos fechar sobre nós mesmos. Aquele discurso recorrente sobre o universalismo dos portugueses, a lusofonia, é importante mas muitas vezes encerra-nos em nós próprios. Veja-se o estado das relações culturais com o Brasil, onde no plano literário não temos uma edição sistemática de autores brasileiros em Portugal e é muito difícil para os editores portugueses entrarem no mercado brasileiro. Há barreiras protecionistas e não é só do género alfandegário, também de tipo cultural.

Durante o século XX o regime salazarista não se preocupou com a elevação da cultura nacional. É por essa razão?

Sim, mas também me lembro de uma conferência de Eduardo Lourenço em que disse ser paradoxal que a seguir ao 25 de Abril, os autores, até oposicionistas, ficassem sem tema num tempo em que houve uma explosão do mercado editorial, com tiragens que hoje em dia teríamos como inimagináveis de livros sobre O Que É o Marxismo, ou O Modelo da Bulgária. A ficção portuguesa só começou a florescer nos anos 1980.

Mesmo a produção historiográfica sobre Salazar, tirando meia dúzia de bons casos, são narrativas ficcionadas!

É preciso distinguir muito de autor para autor, até porque existe uma produção académica que nem sequer é publicada. Há um fascínio por Salazar, o que não significa que as pessoas sejam salazaristas, talvez seja mais um fascínio um pouco nostálgico por aquela época.

São bons "produtos"?

Produzem-se muitos livros sobre Salazar, a sua governanta e as criadas, coisas mais de voyeurismo em vez de análises sérias ao regime. Um dos problemas da nossa historiografia - esta é uma crítica dirigida à comunidade académica - é ter-se concentrado no aspeto da repressão do salazarismo, por isso há dezenas de livros sobre a PIDE, a censura e as torturas, quando houve instrumentos mais subtis de dominação que Salazar utilizou e que ainda não foram muito escrutinados nem estudados: a cunha, o compadrio e as colocações em cargos.

Existe documentação para estudar?

Nos arquivos da Torre do Tombo está muita correspondência entre professores de Direito e Salazar e muitos deles são pedidos a favor dos filhos. Salazar criou uma teia muito grande de conformistas e de protegidos que não estavam apenas no seu círculo mais próximo mas alargava-se a toda a sociedade portuguesa. Estamos a falar de uma sociedade periférica e pobre, em que as pessoas que vinham para Lisboa só queriam uma colocação no Estado, desde os mais altos cargos até ao contínuo de repartições que um padrinho da aldeia lhe arranjava. Esse foi um dos instrumentos mais importantes da dominação, mas é mais difícil para um historiador captá-lo, até do ponto de vista estatístico.

O sistema da cunha desapareceu?

O sistema da cunha não desapareceu com o 25 de Abril de 1974, mas não é fácil estudar. Tem mais sex-appeal trabalhar as arquiteturas do Estado Novo ou os pós-colonialismos e presos políticos.

Então, o paroquialismo mantém-se?

Sim, sob vestes mais sofisticadas. Claro que a escala hoje em dia mudou com a internet e a abertura ao estrangeiro, mas em Portugal mantém-se uma atitude muitas vezes paroquial e provinciana, diferente do paroquialismo típico salazarento, que desapareceu. Onde é que se manifesta essa atitude provinciana? Numa invocação recorrente do estrangeiro como modelo, que se vê em vários intelectuais públicos - Vasco Pulido Valente e Maria Filomena Mónica, por exemplo. Sabemos que estiveram no estrangeiro porque é recorrentemente invocado como um sintoma de superioridade intelectual em relação àquilo que eles gostam de chamar, sobretudo o Vasco Pulido Valente, os "indígenas". Só que hoje em dia isso é de um paroquialismo extremo porque não há estudante universitário que não tenha feito o Erasmus ou estado no estrangeiro. É um traço distintivo como os do status dos jogadores ao exibirem os seus carros de alta cilindrada. Oxford é o carro de alta cilindrada dos intelectuais dos anos 1960 e 70.

Nota preocupação nas elites em perceber o país, ou ele é apenas uma desculpa para o comentário?

As elites têm um discurso muito paternalista sobre o povo, que não conhecem. O Milton Nascimento diz na canção "Todo artista tem de ir aonde o povo está", um verso que mostra a distância entre onde estamos e os locais onde está o povo. Por isso é que há muitos candidatos políticos que vão à Cova da Moura, ou seja, ao outro lado. Figuramos um país popular sobre o qual não refletimos e muitas vezes não se conhece. Há um filme sobre a Zona J, que é uma incursão quase antropológica de quem está de fora como, por exemplo, foi a Cidade de Deus, que no Brasil criou uma indústria de exportação da miséria da favela. O povo é uma entidade que se gosta de invocar, abstrato e imaginário, com o qual é necessário manter algum cordão sanitário. Muito do discurso de Miguel Sousa Tavares sobre a destruição do Algarve pressupõe uma ausência de povo, porque o Algarve dele é aquele protegido e apenas acessível a Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares e a meia dúzia de famílias. Desse modo, as praias realmente estavam mais conservadas - e eram mais conservadoras -, ou seja, refletem um discurso passadista e de retorno a uma nostalgia de um passado que não se sabe que existiu e era profundamente classista.

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