"Chateia-me no fado e nos seus intérpretes o overacting e aquela gritaria constante"

Entrevista com António Zambujo

Podia fazer outra coisa senão cantar?

Isto da música já vem de há tanto tempo que não me imagino a fazer outra coisa. Se na altura não sentisse que a música teria um papel importante na minha vida provavelmente teria outra profissão.

Então, poderia fazer outra coisa...

Há outras coisas sim, arquitetura por exemplo, desporto - não para ser um atleta profissional mas seguir a parte do ensino. Só que a música entrou de uma maneira tão forte e arrebatadora.

Um arrebatamento que tem vindo a crescer constantemente?

É muito graças ao que os outros vão fazendo, que me surpreendem e abrem novas portas e sem o que não chegaria lá. O mais importante para a minha formação é escutar e ouvir o que outros vão fazendo a par do que vou fazendo também, e ter um sentido crítico forte.

Existia uma mensagem a passar?

De início não, era uma paixão só e uma vontade de fazer qualquer coisa sem saber muito bem o quê. Depois, a zona de conforto é boa mas deixa de o ser quando se estagna e deixamo--nos ficar.

É essa fase que está a viver?

Quando saiu o último disco sentia falta de fazer outra coisa diferente, procurar um novo caminho que ainda não sei muito bem qual é. Vamos fazendo novas experiências, tendo sempre por base a voz e a guitarra, que é a forma como canto e componho e crio as bases das músicas. Começámos com um trio tradicional de fado, fomos acrescentando coisas até atingir esta formação e criando com alguns efeitos um pouco de caos. No final do ano chega a hora de ponderar o novo disco e imaginarei outras coisas, que já vão surgindo.

Diz-se que um dia vai fazer um disco como os crooners. Com orquestra...

É uma ideia que já foi pensada, principalmente por causa dos crooners americanos e por discos que são uma referência para mim. Seja o Tom Waits, ou cantores portugueses como o Tony de Matos e o Max, que fizeram discos assim e bastante interessantes. Eventualmente, isso surgirá no caminho mas não me parece que seja para já.

Tem uma carreira marcada por duas canções, a Lambreta e o Pica do 7. É impossível fugir a esses dois sucessos?

Às vezes é assustador quando uma música faz tanto sucesso e fica-se condenado a viver com ela o resto da vida. Para o grande público não é assim e as pessoas pedem, é natural, para as ouvir.

Quando está a compor sente que uma canção vai ser um sucesso?

Em alguns casos sim, noutros casos que é uma boa canção. Se vai ser um grande sucesso é difícil imaginar.

Lambreta era muito diferente.

Era uma baladinha e com uma letra muito bonita do João Monge. A sua história é engraçada porque ele mostrou a música no final do processo de gravação do disco e estava com reticências, tendo-a guardado na gaveta. Gostei muito e disse-lhe que iria gravar.

E é tipo um Yesterday para os Beatles?

Não sei fazer essas comparações, mas são marcos na carreira. A que não podemos ficar agarrados ou satisfeitos por ter um grande sucesso com milhões de visualizações no YouTube. Quero mostrar outra coisas que gosto de cantar.

Antes de ser bem-sucedido por cá foi mais lá fora. Era uma obrigação para os novos cantores há dez anos?

Era... Talvez. Não sei o que é que se passava por cá mas felizmente que foi assim, apesar de ser muito bom tocar para os portugueses. Mas é bom saber que temos alternativa e podemos mostrar o que fazemos a outros públicos, divulgando a música portuguesa.

Chegou do Japão. Não são muito frios?

A sensação de estar num teatro com 1200 pessoas num silêncio fantástico, sem um telefone no ar a filmar, e com um público atento é impressionante.

Mesmo sem percebermos que canta?

Isso é o interessante, porque a linguagem musical é universal e faz que a música tenha sucesso não só pela palavra mas pelos arranjos, a interpretação e como tentamos transmitir a mensagem mesmo sem se perceber a letra.

Canta-se com muito mais cuidado?

Nada disso, canto igual em qualquer parte do mundo. Odeio overactings.

No Japão existem muitos intérpretes que imitam a Amália. Alguma vez vai haver lá um Zambujo japonês?

Não sei, tal como tenho artistas que sigo há muitos anos e de quem sou ídolo e aprendi muito, quero acreditar que um dia possa ser referência também.

Dá-me um exemplo de dois ou três?

João Gilberto, Tom Waits ou Chet Baker.

O Chet é quase ignorado em Portugal!

Não sei, tenho a discografia completa e recorro muito a ela enquanto cantor e trompetista. Há alguns discos que ouço com muita regularidade, por exemplo, o com Bill Evans no piano. Um disco fantástico que ainda tenho em vinil porque adoro o som.

A voz dele não é pouco afinada...

Sim, na forma como tem de colocar a voz e de interpretar os temas. Eu sempre procurei correr noutra direção porque me chateia no fado e nos seus intérpretes o tal overacting e aquela gritaria constante. O Chet Baker usa a voz como se fosse mais um instrumento da orquestra, a única diferença é que está a transmitir uma mensagem e explora mais a parte da dicção e a da interpretação sem exageros - numa forma simples de transmitir a mensagem. É por aí que procuro seguir.

Retirando a Amália e Carlos do Carmo, o fado não é uma chatice?

Não é uma chatice, o que acontece é que às vezes o fado torna-se chato por causa da forma como é cantado e como é interpretado. É mais por causa da visão dos fadistas do que da música em si.

O fado tradicional?

O fado tradicional claro, de que gosto muito no que respeita a alguns compositores e letristas mais antigos. A forma simples que aí encontro tem algum paralelo com o cante alentejano. O que estraga tudo são essas gritarias.

Não se vê da sua parte uma participação política. Está vedado aos cantores?

Não, até acho que se devem expressar as ideias e os ideais. Só que hoje em dia há uma coisa - as redes sociais - que são uma grande porcaria, pois as pessoas acham que têm o direito a julgar quem quer que seja e da forma que entenderem. Isso assusta um pouco e deixa-nos numa posição tipo Suíça: numa posição neutra que é uma chatice e uma grande seca. Não tenho partido político mas tenho ideais políticos que são mais virados para a esquerda, mesmo que defenda coisas que a direita também luta. É como a história dos clubes de futebol; qual é o problema de dizer que sou benfiquista? Quando o Benfica foi campeão, meti um post e houve reações a dizer "era fã e deixei de ser". Então, cada um que siga a sua vida que eu sigo a minha.

É uma espécie de censura?

É completamente estúpido e sem sentido, porque cada um deve expressar as suas ideias porque foi por isso que se lutou. Já bastaram os anos todos que se viveu em ditadura e sem se poder falar.

Estamos perante um conjunto de gerações alienadas?

Acho que sim. Vivemos um tempo da síndrome de ovelha: para onde vai um, vão os outros todos atrás. É importante que se fale com conhecimento de causa e não fazer o que outros fazem.

No último disco interpreta Chico Buarque. É um bom exemplo disso?

O Chico Buarque tem tido problemas gravíssimos e muito injustos nos últimos tempos. Aliás, quando fizemos a apresentação do disco no Brasil ele não pôde assistir porque saíra do Brasil por estar cansado de ser criticado. Logo uma pessoa que deu tanto à cultura brasileira, deu tanto à música, à literatura, e só por ter e defender uma opinião. Foi ameaçado por uns miúdos na rua que nem têm cara para levar um estalo porque era apoiante do Lula. É absurdo e entristece-me bastante.

Falando de pessoas que expressam as ideias de uma forma estranha, o que diz daquela frase do Salvador Sobral...

Do quê, do peido?

Sim. Achou normal?

Não achei normal, mas por dizer aquela frase ele passou de bestial a besta em dois segundos e isso é uma coisa que não pode acontecer.

Foi uma frase mal interpretada?

Acho que sim. Não conheço o Salvador assim tão bem, conheço-o pessoalmente mas sou mais amigo da Luísa (a irmã). É natural que ele esteja a viver uma fase complicada porque não estava preparado para este sucesso todo. Além de que a música que toca não seja mainstream, é mais para um nicho. De repente, apanha-se não só com o país mas com quase o mundo todo a venerá-lo e perdeu a privacidade. Se calhar, não estava ainda preparado para viver isso. Creio que vai acabar por se acostumar e tudo irá assentar naturalmente, sendo certo que não vai ser toda a gente que hoje o venera que vai comprar o próximo disco dele.

Voltando ao Chico... Só podia ser ele?

A escolha do Chico foi muito impulsiva. A partir do João Gilberto fiquei a conhecer mais ou menos os grandes compositores brasileiros desde o período bossa-nova até ao pré, como é o caso do Noel Rosa, Cartola, Orlando Silva, Pixinguinha ou Lupicínio Rodrigues, todos eles poderiam ser homenageados. Na altura, estava mais próximo da obra do Chico e da pessoa, pois é uma pessoa muito apaixonante e com quem me entendo muito bem. Todo esse envolvimento fez que fizesse sentido gravar as suas canções. Fizemos a escolha dos temas, uma parte muito complicada porque reduzir a obra do Chico a um disco com 16 músicas é muito complicado.

Foi o Chico que sugeriu a Cecília?

Sim, que nem conhecia. Como acompanhou as gravações, ouvi dele que me deixou feliz: "Considero esta versão definitiva e rejeitarei todas as outras."

Muitos portugueses imitam um pouco o sotaque brasileiro. Não o fez porquê?

Isso é uma estupidez, estamos a falar a mesma língua e cada um tem o seu sotaque. Caetano Veloso também canta autores portugueses e não o faz com o nosso sotaque. Até canta alguns fados da Amália ou do Frederico Valério e fá-lo com aquele sotaque baiano maravilhoso. Já agora, tenho de defender o meu sotaque alentejano maravilhoso.

É esse sotaque que enche os coliseus?

É verdade que nunca ninguém tinha feito 28 salas e eu e o Miguel Araújo não imaginámos ser possível, mas as datas iam abrindo e as pessoas iam comprando. Houve pessoas que foram ver o concerto mais do que uma vez.

Foi cansativo tanto Coliseu?

Não, porque os concertos nunca eram iguais devido à reação do público. Aquilo era tentar recriar uma coisa que eu e o Miguel fazemos muito, juntarmo-nos para jantaradas com os amigos e no fim pegamos nas guitarras e começamos a tocar. É isso que aconteceu no Coliseu.

E houve gente de Beja na plateia?

Tenho a certeza absoluta que sim.

Essa parte da música tradicional alentejana estará sempre presente?

Sim.

A música tradicional alentejana não está parada no tempo?

Está sim e acho que é importante haver novas músicas para evoluir. Agora defendem muito esta coisa do património imaterial da humanidade, que é bom, mas mais importante é conquistar novos públicos. Isso só se consegue se os cantares chegarem a novos públicos, portanto é importante haver gente nova a compor também, é importante haver gente nova nos grupos. A maior parte dos grupos estão superenvelhecidos e é preciso fugir aos preconceitos que o fado também viveu. Os puristas só atrasam o processo de inovação.

Alterar o cante alentejano é complexo.

Nem é preciso alterar mas cantar coisas novas. Eu adoro música alentejana mas seria incapaz de assistir a um concerto só dela. Imagine-se estar uma hora e meia a ouvir sempre aquela ladainha, é chato para qualquer pessoa por muito apaixonado que se seja.

Nunca pensou em gravar um disco só de cante alentejano?

Não. A música alentejana e o fado são dois pilares importantes na minha música, mas não quer dizer que seja aquele género musical que eu canto. Acabam, inevitavelmente, por estar lá sempre, mas nunca estarão de uma forma tão exposta ou tão visível.

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