"A transformação do espaço público em Lisboa é uma declinação da filosofia da Expo'98"

Com a situação financeira recuperada e a parte artística reorganizada, a Orquestra Metropolitana de Lisboa fez mais de 500 atuações públicas em 2016. Para o diretor executivo, António Mega Ferreira, é um prazer entrar pela manhã numa casa onde se ouve música em todos os andares.

O que me chamou a atenção no trabalho da Metropolitana foi a quantidade de sítios onde estão a fazer concertos. Têm formado gerações de músicos desde a criação, em 1992, e têm concertos desde a Lourinhã ao El Corte Inglés, das Caldas da Rainha ao Museu do Oriente, do CCB ao Liceu Camões. De repente, a Metropolitana floresceu, depois de ter tido problemas aqui há tempos.

Temos a orquestra profissional, as outras orquestras e as escolas - o Conservatório (ensino básico), a Escola Profissional (ensino secundário) e a Academia Nacional Superior de Orquestra que forma instrumentistas de orquestra (ensino superior). Tudo isto coexiste no mesmo edifício, em Lisboa, à Junqueira, no antigo edifício da Standard Eléctrica. Desde a origem, o projeto tinha a ver com as duas valências, e também com a ideia de desmultiplicar as atividades em diversas formações. Há uns anos houve problemas graves que se arrastaram, com uma diminuição das atividades.

Até porque foram também problemas financeiros.

Claro, e portanto houve uma diminuição, designadamente da atividade da orquestra profissional, embora tenha continuado a existir e a fazer concertos. Não é que esses problemas - alguns estruturais - tenham sido todos ultrapassados, mas nos últimos anos conseguimos criar, não ainda o equilíbrio financeiro, mas qualquer coisa que tende para o equilíbrio financeiro. A situação tornou-se muito mais vivível do que era quando entrei, há quatro anos.

Entrou em 2013.

Era uma situação terrível e tinha sido pior dois ou três anos antes, o que tinha levado aliás a cortes de 20 por cento nos salários dos trabalhadores da Associação. Foi possível empreender uma rota de normalização relativa. Ainda se mantem uma redução salarial que hoje já é só de cinco por cento.

Têm vindo a recuperar?

Temos vindo a recuperar também isso, designadamente diminuindo o passivo que era muito elevado. Quando entrámos, havia acordos de pagamento de dívidas antigas à Segurança Social e ao fisco...

Segurança Social e fisco?!

Exatamente. Havia acordos que significavam o pagamento de prestações de 30 e tal mil euros por mês, o que era incomportável, porque era pagar quase meio milhão de euros por ano só para pagar passivo. Era o chamado investimento não reprodutivo, porque era para eliminar dívidas. Isso foi tudo renegociado, diminuiu-se bastante o passivo e a situação é bastante melhor.

Isso quer dizer que os primeiros meses foram a correr para reuniões com bancos?

A tapar buracos, a renegociar dívidas com bancos, a encontrar outras fontes de financiamento, todos eles através de empréstimos. Fizemos um trabalho muito intenso de procura de patrocinadores que, honra lhes seja a todos feita, não deu nada, rigorosamente. Posso dizer mal de todos os potenciais patrocinadores visto que foi zero, batemos na trave.

Isso coincidiu com a fase pior da crise?

Também teve a ver com isso, também coincidiu já com a fase final, digamos assim, se é que já passámos a fase final da crise, coisa de que ainda tenho dúvidas. Foram anos difíceis. Foi-se conseguindo empreender uma trajetória do ponto de vista financeiro. Por outro lado, do ponto de vista administrativo interno, houve que pôr ordem numa data de coisas que não estavam bem, normalizar comportamentos, regulamentar procedimentos, com os consequentes ganhos de eficiência para a organização, e portanto poupanças.

Há quanto tempo não deixa de dormir a pensar nos credores?

Ah, continuo a pensar. Ainda não foi tudo eliminado. De vez em quando tenho uns sobressaltos.

No fim do mês para pagar salários?

Isso é frequente. Não todos os meses mas há meses em que acontece, porque 60 por cento do orçamento da associação vem das contribuições dos chamados fundadores, fundamentalmente a Câmara Municipal de Lisboa. É preciso dizer isto: a associação só vive ainda porque a Câmara Municipal de Lisboa tem uma aposta fortíssima na Metropolitana. O Governo também, através de diversos ministérios - da Educação, da Cultura e da Segurança Social - mas o principal contribuinte é a CML. Por isso a presidência da direção cabe à CML, à [vereadora da cultura] Catarina Vaz Pinto. Foi possível fazer, paralelamente a isto, um trabalho de restruturação artística que passou pela revisão do regulamento interno da orquestra até à criação de novas formas de trabalho da orquestra, de calendarização dos ensaios e, sobretudo, a criação de uma filosofia de programação. Essa é inteiramente devida ao diretor artístico, o professor e maestro Pedro Amaral.

Que tem um currículo fantástico.

Tem um currículo fantástico, tem altíssima qualidade musical e é dotado de uma grande imaginação, o que é indispensável para programar numa instituição que tem pouco dinheiro.

Tendo em conta o seu perfil - no início só falei de alguns aspetos do seu currículo mas há muito mais, por exemplo a Expo"98 - a criatividade do maestro Pedro Amaral cruzando-se com a sua deve ser explosivo.

Às vezes dá coisas muito interessantes

Então?

Um dia destes ao almoço, por exemplo, deu três ou quatro ideias novas. Um diz mata, o outro esfola. Foi importante para a OML a criação da Temporada, com três eixos de programação: música barroca, clássica e sinfónica. A sinfónica é no CCB, a clássica é no teatro Thalia, que foi um teatro descoberto por nós e é um espaço deslumbrante onde desde o final de 2013 temos vindo a fazer temporada clássica. A temporada barroca fizemos durante três anos no Palácio Foz e agora estamos a fazer, numa experiência que tem resultado muito bem, no Museu Nacional de Arte Antiga.

Esses são os três sítios onde estão a trabalhar mais permanentemente?

Pois, e há dezenas de outros sítios. Só para dar uma ideia, nós em 2016 fizemos 509 atividades, incluindo tudo: as audições de orquestra, os concertos, os recitais de música de câmara, tudo o que foram atuações públicas.

E este ano para lá caminham?

Este ano não podemos antecipar porque ainda há dias estivemos em reuniões, entrámos com um projeto e saímos com quatro. Isto significa que é preciso desdobrar - não diria desdobrar os músicos, que não se pode desdobrar pessoas físicas, mas significa um grande jogo de cintura para poder acomodar estas coisas todas, estar constantemente a rever calendários para acomodar solicitações que temos. Muitas destas solicitações são profissionais, remuneradas. Os fundadores dão 60 por cento do orçamento, o que significa que, coisa bastante louvável sobretudo para uma organização cultural em Portugal, 40 por cento do são receitas próprias. Cerca de 1,6 milhões de euros por ano são receitas próprias - da venda e da bilheteira de espetáculos, das propinas das escolas, e todos os outros projetos.

Quantas pessoas estão envolvidas?

Trabalham na Associação 140 pessoas, das quais 80 professores, 30 músicos permanentes, e o resto pessoal administrativo e diretivo.

Quantos alunos têm?

A soma dos diversos níveis é 330.

Imagino que deve ser divertido haver sempre música e crianças?

Trabalhar naquele edifício é fantástico por causa dessa coexistência. Entramos de manhã e tão depressa estão umas criancinhas pequeninas com uns violinos que são ou maiores que eles ou então são minúsculos e quase não os vemos, temos de pôr os óculos para ver os violinos - até aos músicos profissionais. À medida que se vai subindo no edifício vai-se ouvindo música.

No seu gabinete o que se ouve?

Trompa. A sala de ensaio da trompa é numa torre que fica exatamente por cima do meu gabinete. Na altura dos exames, confesso que é um bocadinho limitativo, até porque a trompa é um instrumento muito bonito, tem um som muito bonito - pode estar algum trompista a ouvir-me e eu tenho de dizer bem...

... e é bem bonito como objeto.

Sim, é bonito como objeto e tem um som magnífico quando é bem tocado. O que não é sempre o caso, porque por cima de mim são alunos que estão a preparar-se para os exames. Portanto, às vezes a coisa é um pouco complicada, pela repetição, mais pela repetição.

É como aquelas pessoas que oferecem baterias aos filhos dos amigos. Não é bom.

Não é bom, sobretudo para os amigos.

É diretor executivo da Metropolitana há quase quatro anos.

O meu mandato termina em março.

E vai continuar?

Não faço qualquer ideia, isso não depende de mim, depende da vontade dos fundadores, que não me exprimiram até ao momento nenhuma intenção. Não posso responder a isso, é das poucas coisas que não está nas minhas mãos decidir. Logo se verá, quando chegarmos lá.

Não costuma ficar parado na sua vida. Isto é, já teve fases de pousio...

Tive uma fase grande - para os meus padrões - entre a minha saída da Parque Expo em março de 2002 e até ao final de 2005, até ser convidado para presidir ao Centro Cultural de Belém, onde entrei em janeiro de 2006. Durante essa altura escrevi.

O pousio é uma noção um bocadinho relativa, porque...

... publiquei nove livros.

Nove livros?

Nove livros. Alguns deles não é que existissem já, mas existiam começados, existia a ideia deles. Tinha uma quantidade de pastas abertas no computador e aproveitei esses anos para encher as pastas. Eram ideias que já tinha e que sobretudo no período de trabalho da Expo"98 não tive nenhuma disponibilidade - durante esses 13 anos publiquei um livro.

Foi um dos períodos mais intensos da sua vida?

A Expo? Ah sim, isso foi. Claramente, foi o período mais intenso do ponto de vista profissional.

E quando lá vai agora àquela zona que antes era... é muito fácil esquecer o que aquilo era antes.

Eu tenho algumas fotografias de como aquilo era antes, tiradas por mim em 1991 ou 1992. Vou lá muito pouco, é muito espaçado, o que é bom porque noto as diferenças e se lá fosse todos os dias não notava. O mais extraordinário é a arborização, o tamanho das árvores. Em 1999 ou 2000 alguém me disse "isto está tão bonito", e eu respondi "esperem dez anos até verem as árvores crescer". E as árvores cresceram, como deviam crescer se não fosse abandonadas - e não foram. É um sítio vivo. Um sítio vivo não é só um sítio onde estão pessoas, é um sítio onde há organismos vivos, como árvores e plantas, e isso para mim é muito estimulante - às vezes até é um bocadinho mais estimulante do que as pessoas, as pessoas quando são de mais é uma maçada. E nunca há árvores a mais, nem há flores a mais.

De todos aqueles edifícios a única tristeza é o Pavilhão de Portugal?

Aquilo está enguiçado, está amaldiçoado, alguém pôs uma curse em cima daquele pavilhão porque nunca se conseguiu resolver aquela situação. Julgo saber que agora a Universidade de Lisboa tomou conta, ou vai tomar conta do pavilhão. Não sei qual é o destino que lhe vai dar. É uma esperança que eu tenho, que uma instituição tão grande como é a Universidade de Lisboa possa dar um destino, qualquer que ele seja - eu já estou por tudo. O que é preciso é abri-lo e que ele seja fruído pelas pessoas. É incrível que todos os sítios, todos os pavilhões temáticos, todas as áreas estejam ocupadas e apropriadas pelas pessoas e por outras funções completamente diferentes das que tiveram durante a exposição e o Pavilhão de Portugal, que é uma peça arquitetónica notável e emblemática, o coração do recinto, e abre de vez em quando para fazer umas coisas, sem continuidade.

Falou das árvores mas sobretudo a Expo foi uma operação urbanística.

Mas eu não tenho a noção disso, tem graça. Ainda recentemente me falaram disso mas eu não me apercebo de que a Expo tenha mudado assim a cidade. Provavelmente porque ambicionava que o impacto da Expo na cidade tivesse sido muito maior.

Ainda maior?

Acho que não foi nada grande. Se algum impacto a Expo teve na cidade foi sobre os comportamentos das pessoas e sobre um conjunto de referências mentais.

Em que sentido?

Lisboa desconhecia o conceito, a pulsão para o espaço público. Havia uns sítios onde se ia passear, ali para a beira de Belém, mas não havia essa noção de que temos um edifício aqui e há um espaço exterior que tem de ser tratado. As novas urbanizações cresciam e crescia mato no meio delas, porque não havia essa preocupação. Creio que isso é uma das grandes conquistas da Expo.

Além de valorizar a zona ribeirinha?

Claro, a zona ribeirinha, segundo aspeto. Terceira influência: o mobiliário urbano. A ideia de mobiliário urbano, essa então é que não existia de todo. Ninguém se preocupava com os bancos de jardim. Os bancos de jardim eram bancos de jardim eram bancos de jardim.

Sempre iguais?

Sempre iguais. Eram aqueles de toros verdes, com os pés em ferro, em toda a parte, pelo país fora e em todos os jardins. Agora não é assim. Agora capricha-se no banco de jardim. Aí reconheço que sim. A mudança na cidade de Lisboa só comecei a notá-la de há sete ou oito ou nove anos para cá, antes disso não. Entre 1998 e 2006, 2007, não acho que Lisboa tenha mudado significativamente. E começou a mudar - tem graça, há coincidências fantásticas...

Então?

Quem fez o desenho do recinto da Expo foi o arquiteto Manuel Salgado, que é o vereador de urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa. Coisas extraordinárias, coincidências, não é? Ele não há pessoas insubstituíveis, mas há coincidências que são notáveis. A transformação do espaço público que se está a passar neste momento são declinações de uma boa filosofia que teve uma aplicação na Expo e que agora está a ter aplicação no tratamento do espaço público de Lisboa.

Creio que é das primeiras, se não a primeira vez, que há um urbanista na equipa que dirige a Câmara de Lisboa.

Não tenho ideia de que antes disso houvesse, e sobretudo uma pessoa como o Manuel Salgado, que é um criador e um criativo não só com esse tipo de visão como com o tipo prático, o traço, o risco, a capacidade que tem de encontrar soluções. Penso que isso lhe é devido no aspeto conceptual e, politicamente, é inteiramente devido, neste caso, ao presidente Fernando Medina e, antes dele, ao presidente António Costa.

Uma das marcas que ficaram com a Expo"98 é a ideia de que somos capazes de fazer.

E abriu a horas, até abriu à hora.

Estavam sempre a perguntar ao engenheiro responsável da obra se aquilo ia ficar pronto e ele dizia - "nós vamos fazer a sacanice de ter isto pronto a horas".

Exatamente, o engenheiro Virgílio Borges.

A formação de todos aqueles jovens voluntários que lá trabalharam e que eram jovens é a formação de uma geração que fala línguas, que está à vontade, é mais o que o desenrascanço?

Foram 7200 pessoas que trabalharam no pico da exposição. Mesmo não saindo de cá, durante aqueles quatro meses e meio tiveram mundo porque o trabalho deles era conviver com milhares de pessoas vindas das mais diversas culturas, das mais diversas partes do mundo. Há uma história muito bonita que gosto muito de contar. Encontrei lá uma senhora que trabalhava para mim numa casa que eu tinha no Penedo, ao pé de Colares - na altura ainda tinha saúde para aguentar a humidade daqueles sítios. Encontrei-a à porta de um pavilhão, salvo erro o da Islândia, que tinha um bloco de gelo na fachada. As pessoas iam lá mexer no gelo, uma coisa extraordinária. Lá estava a mexer no gelo e eu disse "anda por aqui?" Respondeu: "Gosto muito, é a sexta vez que venho à Expo". E de repente eu percebi que para aquela senhora, que era analfabeta, a Expo era a única enciclopédia que alguma vez lhe podia cair nas mãos. Era uma enciclopédia viva. Ela ia à Expo, visitava os pavilhões e visitava os países. Visitava o mundo. Isso teve uma grande influência. Para essa geração de milhares de jovens que trabalharam na Expo, traduziu-se também nisso. Eles tiveram contacto - bem, tiveram contacto de toda a natureza e ainda bem - com gente vinda de todo o mundo, das mais diversas culturas, das mais diversas formas de vida, e gente muito próxima da idade deles.

Foi uma espécie de Erasmus...

Foi uma espécie de Erasmus misturado com InterRail sem sair do sítio.

Há o lado da sua vida de escritor. Escreveu nove livros entre o momento em que saiu da Expo e entrou no CCB. Consegue ir escrevendo enquanto está a trabalhar? Tem algum trabalho, neste momento, para publicar?

Neste momento tenho, efetivamente, dois livros para publicar. Um foi terminado no final de 2015 e está há mais de um ano para publicar, será publicado quando for. É um livro que se chama Mais que Mil Imagens em que eu defendo e pretendo demonstrar que uma palavra vale mais que mil imagens, ao contrário daquela ideia de "uma imagem vale mais que mil palavras". O problema é que não se consegue dizer sobre uma imagem se não usarmos palavras. Cada texto arranca de uma imagem, que pode ser um fotograma de um filme, uma pintura, uma fotografia, a fotografia de uma cadeira. Não é nenhuma espécie de museu imaginário meu, são apenas imagens que me suscitaram desejo de escrever sobre elas. Há outras imagens que acho extraordinárias mas nunca tive o desejo de escrever sobre elas, ou não tive oportunidade. É um livro que está para publicar, se sobreviver ao tempo será publicado em seu tempo. Há um outro livro que sair agora na primavera. Esse foi escrito depois, em 2016, e chama-se Itália, Práticas de Viagem. E prolonga uma paixão minha.

O livro sobre Roma?

Sim, agora saio de Roma, arranco de Trieste, Veneza, Bolonha, Ravena, Ferrara, Florença, Siena, San Gimignano, etc. E há mais cinco ou seis capítulos sobre Roma porque Roma não termina nunca, já houve outras coisas desde o livro de Roma. Este livro tem uma particularidade muito engraçada da qual eu gosto muito: tem fotos do autor. O livro é ilustrado com fotografias minhas.

O de Roma tinha belas fotografias.

Mas não eram minhas.

Mas eram de uma boa fotógrafa.

Pois eram com certeza, e agora são de um mau fotógrafo. Mas vale a pena, porque é um livro tão pessoal que faz algum sentido ter fotografias do autor. Depois há algumas... a cara do Dante não pude fotografá-la, hélàs, ele já não estava em Florença.

Mas tinha acabado de sair.

Tinha saído há muito pouco tempo, aliás tinha saído para Ravena de onde nunca mais voltou. Mas a maior parte das fotografias são minhas, tiradas em viagem.

Sai quando?
Na primavera, o editor dirá exatamente na altura.

Qual é o editor?

É a Sextante, o João Rodrigues, o editor com quem eu publico mais de há uns anos para cá.

E romance?

Não estou a escrever nenhum romance. É o que dá, é o que há. Depende, tem dias. Vou escrevendo umas coisas vagas mas não tenho nenhum projeto de romance.

Em casa, continua a ser um melómano e um leitor, principalmente? Deixou as aguarelas, houve um momento de aguarelas.

Sim, mas já deitei tudo fora porque era péssimo. Não tenho a mão do pintor nem do desenhador, não vale a pena. É como jogar futebol. Eu adoro futebol mas para ver. Hoje já não poderia jogar sob pena de ir parar ao estaleiro ao fim de um minuto e meio. Adorava saber desenhar e pintar mas não tive esse talento.

Portanto, em casa lê livros e ouve música?

E há mais uma coisa que é importante e ocupa um lugar na minha vida: ver futebol na televisão. Na televisão só vejo futebol.

A primeira entrevistada desta série de entrevistas foi a Maria Teresa Horta. E de repente começou a falar do Benfica como eu só tinha ouvido o António Mega Ferreira.

[Gargalhadas]

Não lhe acontece o mesmo que a ela, não se põe a engomar roupa para acalmar os nervos quando o Benfica começa a ter problemas?

Não tenho o hábito de engomar roupa, também não tenho esse talento. Acho isso genial.

Fica petrificado a ver os jogos?

Petrificado não, porque sou do Benfica e portanto poucas vezes fico petrificado, a maior parte das vezes fico exaltado. De vez em quando acontece assim uma coisa, mas acontece aos melhores, que é o caso.

Voltamos ao início da conversa, à Metropolita. Basta ir ao site onde há muita informação e só na próxima semana são cinco, seis ou sete... apontamentos nuns sítios, concertos noutros.

Sim, é uma geometria variável. A própria orquestra profissional ou atua em conjunto ou tem as chamadas semanas de música de câmara em que os músicos se organizam em agrupamentos de câmara, seja quatro cordas, seja três cordas e um piano.

Mas há de tudo, desde ópera de Mozart até música da América Latina. E há no próximo mês o Camané, que vai cantar com a OML no Teatro S. Luiz nos dias 9, 10, 11 e 12 de março. Ficámos à espera do livro sobre a Itália. Isto foi só um começo de conversa.

Como começo de conversa não está nada mal.

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