Entre tantas outras coisas, um pianista excecional

Onze anos é muito tempo para um pianista como Stephen Hough estar ausente de Lisboa. Hoje, às 21.00, ei-lo enfim de novo no Grande Auditório da Gulbenkian. Junto com a Orquestra da casa dirigida por Paul McCreesh, ele será o solista no 'Concerto em sol m, op. 33', de Antonín Dvorák.

Aos 53 anos, completados recentemente, Stephen Hough é sem qualquer dúvida um dos absolutamente grandes do piano da atualidade. Com uma carreira já de três décadas, lançada pela vitória no Concurso Naumburg de 1983 e por uma gravação dos concertos de Hummel que se tornou num improvável sucesso, Hough atingiu entretanto uma espécie de Olimpo artístico, o qual foi permitindo ao público descobrir as múltiplas facetas deste a quem o Houston Chronicle chamou "Homem renascentista". Porque, para além de pianista, Hough é compositor de créditos firmados, autor de transcrições, pedagogo, poeta, articulista-pensador e pintor!

No 'blog' pessoal que mantém no londrino 'Telegraph' desde dezembro de 2008, Hough descreve-se a si próprio como "pianista de concerto, escritor de palavras e música, administrador de companhias de bailado reais, teologia, arte, poesia, perfume, pudins". A sua identificação no 'twitter' denota uma muito 'british' qualidade de auto-ironia (ou auto-derisão): 'houghhough'...

Outro aspeto da 'persona' pública de Hough é a sua assumida homossexualidade, que ele confronta publicamente com a também assumida fé católica (converteu-se no final da adolescência). Inclusive, em 2005, publicou um livro eloquente quanto à seriedade da sua vivência religiosa: 'The Bible as Prayer: a handbook for 'lectio divina''. Hough diz que se não tivesse percebido que o piano era demasiado essencial para a sua vida, muito provavelmente teria entrado para a vida religiosa. Hoje, ainda, nota-se algo dessa sua propensão para o transcendente, quando declara que "nós, os músicos, precisamos de ser antes de mais contemplativos (talvez até mesmo místicos) e deixarmos o lado comercial da nossa atividade para um muito distante segundo lugar". Enquanto intérprete, diz que se deve "encarar a comunicação com aqueles que nos escutam como um ato de amor, ou até de compaixão" e que a interpretação é um misto de "honestidade e respeito para com o compositor, combinados com confiança em si enquanto intérprete".

A sua discografia, editada quase toda na Hyperion, conta mais de meia centena de títulos - alguns deles com obras suas - e já lhe valeu numerosos prémios, como por exemplo sete prémios Gramophone. Para além dos grandes clássicos e dele próprio, conta autores contemporâneos e raridades do repertório. Um dos mais recentes foi a gravação dos dois concertos de Brahms com a Orquestra do Mozarteum de Salzburgo, sob a direção de Mark Wigglesworth.

Enquanto compositor, já escreveu um Concerto para violoncelo (para Steven Isserlis), Missas, coleções para canto e piano, música de câmara (p. ex. um sexteto e um trio) e duas sonatas para piano, entre outras peças de menor formato para o seu instrumento.

O pintor Stephen Hough teve já a honra de uma exposição individual em outubro de 2012, na Broadbent Gallery, em Londres. A página inicial do seu 'site' mostra-o, aliás, ao lado de um quadro de sua autoria. Da sua atividade enquanto poeta, talvez baste dizer que ganhou em 2008 o 6.º Concurso Internacional de Poesia?... Por fim, Hough, o benemérito, apoia ações de assistência/inclusão social através da música e outras artes.

"Voltando" ao Houston Chronicle, diríamos: Hough, o 'homo universalis'!

Logo, e amanhã (19.00), o programa completa-se com a peça para violoncelo (Maria José Falcão, solista) e orquestra 'A quietude da floresta', também de Dvorák, e com a 'Sinfonia n.º 3, em lá m, op. 56, 'Escocesa'', de Felix Mendelssohn.

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