Elis Regina vai à Feira para os 20 anos do luso-brasileiro

Elis é a grande atração do arranque da edição 20 do Festival Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, provavelmente o melhor dos pequenos festivais de cinema em Portugal. Entre amanhã e 11 de dezembro

O tal festival que cruza o Atlântico. No luso-brasileiro só se fala português há 20 anos e nesta edição comemorativa também só se canta na língua de Camões. Elis Regina a abrir, Chico Buarque a fechar. Um ano de festa para o festival de Américo Santos, o diretor do Cineclube de Santa Maria da Feira, cuja resistência e paixão cinéfila são um caso ímpar em Portugal.

Elis, de Hugo Prata, é um biopic sobre a vida e carreira de uma das mais amadas vozes da canção brasileira. O filme passa este domingo na sessão de abertura e é um dos grandes acontecimentos do festival, estando também prevista a presença do realizador e da atriz que encarna Elis, Andreia Horta.

Parte da crítica brasileira não ficou a morrer de amores por um filme que assumidamente tenta chegar a um público maioritariamente fã da artista, mas são consensuais os elogios à atriz Andreia Horta, conhecida de novelas e séries de televisão. Sem fatores fisionómicos idênticos, Andreia não quis imitar a lenda, mas sim passar o seu carisma. Uma interpretação que a obrigou a cantar, mesmo quando no filme apenas se ouvem as canções interpretadas pela própria Elis, tal como aconteceu com a fórmula playback da cinebiografia de Edith Piaf em La Vie en Rose, de Olivier Dahan. Ainda assim, a atriz brasileira fez questão de fazer um curso de interpretação de canto e durante três meses pesquisou intensamente toda a vida da cantora.

Para já, Elis não tem ainda distribuição assegurada em Portugal, pelo que a sessão de amanhã no auditório da Biblioteca de Santa Maria da Feira ganha um peso ainda maior. Olhando para o panorama comercial do nosso mercado, este é um dos poucos filmes brasileiros que poderia funcionar por cá. No Brasil cumpriu o seu potencial de blockbuster, mesmo com todas as acusações de academismo...

No dia 11, a encerrar o festival, outra lenda da música popular brasileira em destaque, neste caso Chico Buarque, alvo do documentário Chico, Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr., uma incursão não só pelo som do artista mas também pela sua vida pessoal. Presente bonito do festival para um público que ao longo de duas décadas conseguiu perceber como se ligaram o melhor do cinema de autor brasileiro e português.

Vinte anos de luta, teimosia, resistência e concorrência de outros festivais que roubaram fórmulas e ideias. "Um dos aspetos mais interessantes destes 20 anos, foi, precisamente, o caráter aproximativo do festival, refletido numa muito específica e extraordinária ambiência que contaminou por completo a grande maioria dos participantes. A prova disso foram as inúmeras coproduções que nasceram em Santa Maria da Feira. Como nota curiosa, no Brasil dizem: "se te queres casar vai a Santa Maria da Feira", conta o diretor Américo Santos, que no Brasil goza de um reconhecimento muito maior. Aliás, paradoxalmente, o Festival da Feira é muito mais conhecido no meio cinematográfico brasileiro do que em Portugal...

E como vinte anos é uma data especial, Américo lança as melhores pistas: a melhor maneira de assinalarmos a importância destes 20 anos é um slogan provocador: "Só há dois tipos de cineastas: os que foram a Santa Maria da Feira e os que lá querem ir. Este ano, perspectivamos conquistar o público com o nosso realizador em foco, Leon Hirszman, e com o programa Vintage, que será um festival dentro do festival."

Com isso e com a habitual convivência pelos bares do centro histórico madrugada adentro, onde os brasileiros ficam a perceber que realizador quer dizer diretor ou que argumento é a nomenclatura lusa para roteiro. Assim não se corre o risco de haver alguém perdido na tradução.

Curtas, documentários e sessões especiais com um programa sem medo de tomar riscos, quanto mais não seja por abdicar de um filme inteiramente português na competição das longas...

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