"Electra é uma espécie de terrorista." Está no Nacional

Tiago Rodrigues reescreveu e encenou três tragédias em seis semanas para a abertura do Teatro D. Maria II. E levou à cena a humana "ideia do nosso combate pessoal contra o inevitável".

Vamos assistir a três tragédias gregas. Podia até dar-se o caso de levarmos uma pergunta de algibeira acerca da sua atualidade. Todavia, de súbito, ouve-se do palco: "Os deuses são as histórias que nós contamos para explicar o que de outra forma não conseguimos explicar." Isto é: o inevitável, o destino. E se até aí não houvéssemos compreendido por que motivo Tiago Rodrigues, o novo diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria (TNDM), escolheu reescrever e encenar as três obras de Eurípides, Ésquilo e Sófocles, a voz de Isabel Abreu a ecoar pela Sala Garrett fá-lo entrar por todos os ouvidos. Tudo aquilo é sobre o que nos acontece. Hoje e sempre. Aquilo que não sabemos explicar, embora nos vejamos a braços com isso e tenhamos de o viver.

"Nas tragédias há sempre um gesto de libertação dos heróis trágicos - aceitarem a sua própria tragédia - que fala do livre arbítrio. A ideia do nosso combate pessoal contra o inevitável, o que nos dizem ou que a vida nos apresenta como destino. Acho que é qualquer coisa que, no nosso tempo, soa a crise, a falta de horizontes, de futuro. A ideia de combater o inevitável, de encontrar mecanismos de desafiar aquilo que a vida diz que é o possível e o impossível."

As três peças foram feitas em apenas seis semanas com recursos que habitualmente serviriam uma. Mas havia "uma força e uma urgência muito grande". Era preciso dizer aquilo. Seja aquilo o que for que o destino fez de Ifigénia, Electra, Orestes, Agamémnon ou aquilo que estes fizeram de si mesmos. Tiago juntou os seis atores do TNDM, finalistas do Conservatório e três dos seus atores de sempre: Flávia Gusmão, Isabel Abreu e Miguel Borges. Talvez não valha a pena dizer quem é quem, porque essa correspondência altera-se de peça para peça. Miguel Borges, por exemplo, tanto é Orestes como Agamémnon. Flávia Gusmão é Electra ou uma personagem do coro.

Diga-se, antes, que aquelas tragédias "falam de qualquer coisa absolutamente essencial das nossas vidas que está para lá da espuma dos dias e do tempo em que vivemos". Tiago está sentado numa das cadeiras que sexta, sábado e domingo estarão ocupadas por quem ali vier assistir às estreias - cada uma em seu dia - de Ifigénia, Agamémnon e Electra. Quem vier não paga naqueles primeiros dias da temporada dirigida pelo mais jovem diretor artístico na história daquele teatro.

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