Edward Albee pôs-nos a olhar para o espelho

O dramaturgo norte-americano, autor de "Quem tem medo de Virginia Woolf?", morreu na sexta-feira com 88 anos.

"O inferno pode ser uma sala de estar confortável e um casal insatisfeito", escreveu Edward Albee a propósito daquelas que são, muito provavelmente, as suas mais famosas personagens, Martha e George, os protagonistas da peça Quem tem medo de Virginia Woolf?.

"À primeira vista, é sobre um casal e os seus convidados, mas também é uma peça muito política, porque através destas duas personagens reflete-se sobre o que é a verdade e a ilusão, como as pessoas comunicam umas com as outras, com jogos de poder, de manipulação, de mentira, de domínio do outro", explicou Ana Luísa Guimarães quando, há cinco anos, encenou Quem Tem Medo de Virginia Woolf? no Teatro Nacional D. Maria II, com Maria João Luís e Virgílio Castelo como Martha e George. Papéis que já tinham pertencido a atores como Glória de Matos e Jacinto Ramos (1972), Isabel de Castro e Mário Jacques (1990), ou até à deputada Odete Santos e Carlos César (2000).

Porém, quando falamos desta peça, a imagem que nos ocorre não é de nenhum espetáculo mas do filme realizado por Mike Nichols em 1966 com Elizabeth Taylor e Richard Burton a digladiarem-se com copos de whisky na mão. É muito por causa deles que, apesar de ter escrito mais de 30 peças e de ter ganho três prémios Pulitzer - com Equilíbrio Instável (1967 - apresentada nesse mesmo ano pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro), Seascape (1975) ou Três Mulheres Altas (1994) - Edward Albee, que morreu na sexta-feira com 88 anos, será sobretudo lembrado como o autor de Quem tem medo de Virginia Woolf?.

O autor norte-americano nasceu em 1928, foi abandonado pela mãe e adotado, devia ter oito anos quando percebeu que era homossexual e teve uma infância confortável mas problemática, com dificuldade em integrar-se nas várias escolas por onde passou. Saiu de casa antes dos 20 anos e estabeleceu-se em Greenwich Village, Manhattan, com o sonho de ser escritor. Albee mostrou ao que vinha logo com a primeira peça, The Zoo Story (1958), na qual dois homens tentam (mas não conseguem) manter uma conversa profunda, num banco de jardim. A alienação e o inevitável caminho para a autodestruição eram já temas presentes e que viriam a ser desenvolvidos nas peças seguintes. Não por acaso, Zoo Story estreou-se em Berlim, ao lado de A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett. Apesar do tom naturalista, Albee herdou do teatro do Absurdo o fascínio pela incomunicabilidade e pela falta de sentido de muitas das ações humanas. "A maioria das minhas peças é sobre pessoas que perderam o barco, que chegam ao fim da vida com remorsos sobre coisas que não fizeram", comentou.

As suas peças raramente chegaram à Broadway. "Talvez eu seja um dramaturgo europeu e não saiba", disse, em tom irónico, numa entrevista ao The New York Times, em 1991. Na verdade, o autor tinha uma relação complicada com o sucesso: achava que uma peça que era boa para o público não tinha "necessariamente" de ser boa para o público, querendo com isto dizer que o entretenimento não é tudo e que para ele era importante criar algum desconforto na plateia.

E como ele soube fazê-lo. Quem viu A Cabra ou quem é Sílvia?, o espetáculo que a Comuna apresentou em 2004 (encenação de Álvaro Correia, com Carlos Paulo e Cucha Carvalheiro), há de lembrar-se dos risos nervosos e até do choque de alguns espetadores quando descobriam estar perante uma relação entre um homem e um animal. A peça, vencedora de um prémio Tony, esteve em cena em Nova Iorque por quase um ano e, mais uma vez, tratava-se de tirar o verniz à aparente felicidade de uma relação. Numa entrevista ao The Guardian, em 2004, Albee considera que o trabalho do escritor é "segurar o espelho para as pessoas se verem." E mostrar-nos o inferno na nossa sala de estar.

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