"É estranho pensar num mundo sem David Bowie"

"Sobre Bowie" é uma carta de amor do jornalista Rob Sheffield a David Bowie, após a sua morte a 10 de janeiro: "Ele era diferente das outras estrelas pop - era maior, mais colorido, mais honesto sobre como inventava a sua identidade".

A primeira vez que viu David Bowie, Rob Sheffield tinha 12 anos e achou que o músico britânico "era de outro planeta, um planeta muito mais fixe, muito mais sexy". "Pareceu-me um planeta onde eu gostaria de viver", conta o agora crítico da revista Rolling Stone numa entrevista por mail ao DN. "Estava em casa dos meus avós e vi-o na televisão, a cantar Space Odity. Ele estava ali no ecrã, de pé, com uma guitarra acústica, com um fato-macaco cinzento, sem qualquer expressão facial, sem efeitos especiais, só o homem, sozinho, a cantar aquela balada incrivelmente triste. E era assustador. Eu ouvi aquilo e queria ir esconder-me debaixo da cama. Mas era fascinante ao mesmo tempo."

O fascínio aumentou. Fã de David Bowie, o norte-americano Rob Sheffield acabou por se tornar jornalista especializado em música e cultura pop. Autor de outros livros nesta área - Love Is a Mix Tape, Talking to Girls About Duran Duran e Turn around Bright Eyes - depois da morte inesperada de Bowie em janeiro deste ano, lançou em junho um livro dedicado ao seu ídolo, que é agora publicado em Portugal com o título Sobre Bowie. Um livro de fã. Ou como se costuma dizer: um tributo.

"É mesmo uma carta de amor a Bowie", admite Rob Sheffield. Começou a escrevê-lo na noite em que ele morreu, a 10 de janeiro deste ano. "Recebi a notícia às 02.00 da manhã (hora de Nova Iorque), quando estava sentado à minha secretária, em Brooklyn. Senti-me atingido por um raio. Então, fiquei acordado toda a noite a escrever sobre Bowie, e continuei durante todo o dia seguinte, não conseguia parar. Foi uma catarse para mim." A morte de Bowie, poucos dias depois do lançamento de Blackstar, um disco feito como despedida, aclamado pela crítica antes mesmo de se saber que o músico estava doente, apanhou-o de surpresa. "Escrevi do meu ponto de vista como crítico cultural, mas sobretudo como fã. Bowie mudou a minha vida, e ele mudou as vidas de muitos dos meus amigos. Então, esta era a minha forma de lhe dizer "obrigado". Ainda não consigo assimilar muito bem a ideia de que ele morreu, parece estranho pensar num mundo sem ele."

Quando era pequeno, as suas canções preferidas de Bowie eram Ziggy Stardust, Fame e Young Americans. "Fame, especialmente - foi número um na América e soava diferente de todas as outras músicas que eu já tinha ouvido. Era como um disco voador vindo do espaço." À medida que cresceu, Rob Sheffield foi confirmando esta ideia. "Bowie era diferente de todas as outras estrelas pop - era maior, mais colorido, mais honesto acerca do modo como ele próprio inventava a sua identidade. Era como se David Bowie dissesse: Eu não nasci assim, eu tornei-me David Bowie. E isso fazia-nos acreditar que nos podíamos criar a nós próprios, tal como ele o fizera. Então, isso fazia-nos sentir livres."

Esta liberdade era assumida por Bowie na música que criava, no modo como se apresentava em palco, naquilo que dizia. Uma das coisas que Sheffield sublinha no seu livro é o facto de Bowie ter sido a primeira estrela pop que declarou publicamente ser gay. "Em 1972, numa altura em que ninguém fazia isto", explica-nos o autor. "Ele não tinha medo nenhum. É estranho pensar que os anos 70 eram tão fechados - até as mais extravagantes estrelas pop eram obrigadas a fingir ser hetero. David Bowie não seguia essas regras, ele agia como se quisesse seduzir toda a gente na sala, incluindo tu e quem quer que fosse o teu acompanhante."

O livro acompanha a carreira de David Bowie, de disco para disco, mas sempre num tom muito leve, à medida que Rob Sheffield vai acrescentando pequenas curiosidades, memórias avulsas, ligações de Bowie a outros músicos, anteriores ou posteriores. A ideia não é tanto contar a vida de David Bowie mas antes explicar como e porque é que ele foi (é) uma figura incontornável da cultura contemporânea.

Uma das ideias exploradas é a de que "Bowie foi sempre um fã, em primeiro lugar e acima de tudo". "Isso foi algo que definiu a sua música ao longo de 50 anos - ele estava sempre a inspirar-se em outros artistas, sempre à procura de ideias para roubar", diz-nos Sheffield no seu email. "E sempre foi muito claro em relação a isso. Nos anos 60, "roubou" os mimos e os Velvet Underground e James Brown e Edith Piaff. Em 2016, estava a roubar D'Angelo e Kendrick Lamar. Tinha sempre os ouvidos abertos a novas ideias e isso mantinha a frescura da sua música."

Quando lhe perguntamos qual é a canção de David Bowie de que mais gosta, Rob Sheffield fica hesitante: "É estranho que eu sempre fui um fã obsessivo de David Bowie ao longo da minha vida, mas mesmo assim ainda não consigo decidir se a minha canção preferida é Young Americans ou Station to Station." Young Americans é especial, explica, "porque é a canção de Bowie mais quente, mais apaixonada pela sua audiência. É uma canção de soul, ao estilo do R&B de Filadélfia dos anos 70. Ele canta sobre jovens apaixonados que sofrem". Já Station to Station é completamente diferente - "também é, à sua maneira distorcida, uma canção de soul, mas é um épico de rock espacial de dez minutos sobre a psicose da droga e sobre tentar recuperar a sanidade".

E conclui: "Se Young Americans é uma canção reconfortante, Station to Station é uma canção assustadora. Elas representam bem os extremos de que David Bowie era capaz. Também há Life on Mars, que é a sua mais bela balada. E Blackstar, um tema de jazz sobre enfrentar a mortalidade, que ele lançou há quase um ano. É admirável como David Bowie podia usar tantos disfarces diferentes e como, apesar de tudo, fazia que todos soassem como se fossem verdadeiros."

A propósito de disfarces: Sheffield recusa-se a usar o termo "camaleão" para definir o músico que assumiu tantas personagens diferentes ao longo da sua carreira. "O meu Bowie favorito é o de 1976, de Station to Station, quando ele, de repente, se livrou da sua popa cor de laranja e começou a usar um corte de cabelo mais sóbrio e loiro e uma roupa mais simples, com a camisa branca e um colete preto", diz. "Ele mudou tantas vezes de look. Ao fim de alguns meses, quando as pessoas ainda estavam a tentar assimilar o que ele tinha feito no ano anterior, já ele aparecia com um look completamente novo, um novo som e uma nova estética. Nunca saberemos qual deles era o verdadeiro David Bowie, mas isso é porque cada um deles era um vislumbre da sua imaginação. No fundo, todos eles eram Bowie."

Sobre Bowie
Rob Sheffield
Editora Clube dos Livros
240 Páginas
PVP: 14,38euro

E há ainda mais Bowie para ver e ouvir este ano:

O filme

O DocLisboa apresenta, em estreia nacional, na secção "Heartbeat", o filme Bowie, l'Homme Cent Visages ou le Fantôme d'Hérouville, de Gaëtan Chataigner e Christophe Conte. O documentário estreou aquando do lançamento do último disco de David Bowie, Blackstar. Reúne imagens de arquivo, excertos de concertos e testemunhos de outros artistas, como por exemplo o músico Chilly Gonzalez, que faz uma comparação, ao piano, entre My Way, de Frank Sinatra, e Life on Mars, de Bowie, e ainda Lou Douillon, Jean-Charles de Castelbajac ou Mathieu Saikaly. Sessões no dia 22, às 14.00, no São Jorge, e no dia 30, às 16.15, na Culturgest.

O musical

O musical Lazarus, com música de David Bowie, estreou-se em dezembro do ano passado no New York Theatre Workshop, em Manhattan. Com argumento de Enda Walsh e encenação de Nicolas Roeg, a ação passa-se décadas depois da história de O Homem Que Veio do Espaço, o filme protagonizado por Bowie em 1976. Michael C. Hall, o ator de séries de televisão como Sete Palmos de Terra ou Dexter, é o protagonista, Thomas Newton, que se encontra na Terra numa situação de decadência mas rodeado por temas de Bowie - dos mais antigos, como Heroes ou This Is Not America até aos mais recentes. Lazarus, aliás, é um dos temas de Blackstar. Depois de uma bem-sucedida carreira em Nova Iorque, o musical vai estrear-se no Reino Unido no próximo dia 25. Estará em cena no King's Cross Theater, em Londres, até 22 de janeiro do próximo ano.

O disco

Será lançado na próxima sexta-feira, o disco Lazarus Cast Album, que tem versões dos temas de David Bowie interpretados pelo elenco e banda da produção original nova-iorquina do espetáculo Lazarus. Mas, mais importante, este disco vai revelar as três últimas gravações de estúdio de Bowie: No Plan, Killing a Little Time e When I Met You. Estes temas já estavam incluídos no espetáculo mas ainda não conhecíamos a versão do autor, que as gravou ao mesmo tempo de Blackstar. O disco inclui ainda a versão de Lazarus do próprio Bowie.

A caixa

Depois de uma primeira caixa antológica, Five Years, que revisitou as gravações de 1969 e 1973, no final de setembro foi editada uma segunda caixa, intitulada Who Can I Be Now, com 12 discos em CD (ou 13 em vinil) que recordam os temas gravados entre 1974 e 1976, o período americano de Bowie. Um desses discos é The Gouster, um álbum inédito, gravado em Filadélfia em finais de 1974, no qual o músico faz uma primeira abordagem do soul. Esta caixa, onde encontramos clássicos como Young Americans, Station to Station ou Diamond Dogs, custa 269 euros.

A coleção de arte

Serão cerca de 400 as obras da coleção de arte de David Bowie que vão ser leiloadas pela Sotheby's de Londres a 10 e 11 de novembro. As peças já estiveram expostas em Londres, Los Angeles, Nova Iorque e Hong Kong e vão por fim regressar a Londres (de 1 a 10 de novembro). Entre elas, estão 200 obras que representam o mais importante da arte britânica do século XX - Henry Moore, Graham Sutherland, Frank Auerbach e Damien Hirst. Há um quadro de Jean-Michel Basquiat, o mais valioso da coleção que vai a leilão, com um valor estimado de 2,5 a os 3,5 milhões de libras (de 3 a 4 milhões de euros). Foi comprado um ano depois do músico ter interpretado o papel do mentor do artista, Andy Warhol, no cinema. A leiloeira espera obter mais de 10 milhões de libras (mais de 11 milhões de euros).

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