Dois filmes da Netflix vão a Cannes mas não vão às salas de cinema

Com filmes da Netflix, mais Twin Peaks e uma instalação de realidade virtual, chegou o maior festival de cinema do mundo

Faz parte da tradição: um pequeno fait divers para começar. Neste ano, foi o cartaz oficial do Festival de Cannes a surgir assombrado pela polémica. Nele figura Claudia Cardinale, dançando alegremente, numa imagem obtida em 1959. Houve quem contestasse tal escolha, argumentando que a fotografia tinha sido manipulada, desaparecendo o contexto original (um telhado em Roma). Foi a própria atriz italiana quem veio anular tal agitação, reconhecendo-se "honrada e orgulhosa" por surgir assim associada ao espírito festivo da 70.ª edição do certame - começa hoje e segue até ao dia 28, com o espanhol Pedro Almodóvar a presidir ao júri oficial.

A verdadeira polémica envolve questões bastante mais delicadas. Assim, pela primeira vez, a plataforma de streaming Netflix estará presente na competição com duas produções: Okja, aventura fantástica com Tilda Swinton, assinada pelo sul-coreano Bong Joon-ho, e The Meyerowitz Stories, comédia de Noah Baumbach protagonizada por Adam Sandler. Sinal dos tempos, sem dúvida: os operadores da televisão por cabo e da net são cada vez mais importantes também como entidades produtoras - em 2016, a grande novidade foi, precisamente, a presença de vários filmes com chancela da Amazon.

Neste ano, as coisas complicaram-se devido a uma tomada de posição da FNFC, a federação que agrega os proprietários das salas de cinema de França: os exibidores manifestaram inquietação pelo facto de os dois filmes da Netflix estarem programados apenas para os consumidores de streaming. Será este um sinal de uma crescente secundarização das tradicionais salas de cinema?

Na passada quarta-feira, surgiu um comunicado oficial em que, confirmando a presença desses filmes na seleção oficial, o festival deu também conta do facto de ter "solicitado em vão" à Netflix que aceitasse a passagem dos filmes no circuito tradicional. Mas algo vai mudar: a partir da edição de 2018, "qualquer filme que queira estar na competição de Cannes deverá garantir previamente a sua distribuição nas salas francesas".

Haneke outra vez

A competição volta a estar recheada de autores consagrados, incluindo alguns que fazem parte de uma espécie de galeria privada de Cannes. Por isso mesmo, um dos primeiros focos de interesse tem sido o austríaco Michael Haneke, apresentando Happy End, com Isabelle Huppert e Jean-Louis Trintignant, drama centrado numa família de Calais, a viver próximo do gigantesco campo de refugiados (que ficou conhecido como a "selva"). Para além da delicadeza do tema, Haneke surge como o único cineasta que pode consumar uma proeza invejável: a de arrebatar uma terceira Palma de Ouro em Cannes (depois de O Laço Branco e Amor, respetivamente em 2009 e 2012).

Outras visitas regulares de Cannes são a japonesa Naomi Kawase (Vers la Lumière), o ucraniano Sergei Loznitsa (Une Femme Douce), a escocesa Lynne Ramsay (You Were never Really Here) e o grego Yorgos Lanthimos (The Killing of a Sacred Deer). O filme de Lanthimos apresenta um elenco liderado por Nicole Kidman, por certo, desde já, uma das figuras dominantes do festival, já que surgirá ainda noutro título a concurso, The Beguiled, um western assinado por Sofia Coppola, e em dois acontecimentos extracompetição: How to Talk to Girls at Parties, de John Cameron Mitchell, e Top of the Lake: China Girl, série televisiva de Jane Campion e Ariel Kleiman.

A televisão surge, aliás, a contaminar as mais diversas zonas do certame. Um dos momentos aguardados com maior expectativa é mesmo a apresentação na nova temporada de Twin Peaks, de David Lynch (vencedor da Palma de Ouro de 1990, com Um Coração Selvagem).

Realidade virtual

Como sempre, a representação francesa será objeto de especial escrutínio, quanto mais não seja porque inclui um filme suscetível de desencadear as mais contrastadas paixões cinéfilas: Le Redoutable, de Michel Azanavicius, retrata a relação amorosa do cineasta Jean-Luc Godard com a atriz Anne Wiazemsky (interpretados por Louis Garrel e Stacy Martin), tendo como base a autobiografia de Wiazemsky. A seleção da casa é completada por Rodin, de Jacques Doillon, com Vincent Lindon a assumir a figura do escultor Auguste Rodin, L" Amant Double, um thriller psicológico de François Ozon, e 120 Battements par Minute, de Robin Campillo, conhecido em particular como argumentista de vários títulos de Laurent Cantet (incluindo A Turma, Palma de Ouro de 2008).

Cantet, com L"Atelier, é, aliás, um dos nomes fortes na secção Un Certain Regard (zona complementar da seleção oficial, com filmes que não concorrem para a Palma de Ouro). Aí será possível encontrar também outro francês, Mathieu Amalric (Barbara), o italiano Sergio Castellitto (Fortunata) e o mexicano Michel Franco (Las Hijas de Abril).

Fora de tudo isto, mas por certo no centro de muitas atenções, estará outro mexicano, Alejandro González Iñárritu. Para além de abordar também o tema dos refugiados, a sua curta-metragem Carne y Arena será uma revelação absoluta: de acordo com a informação oficial do festival, trata-se da "primeira instalação de realidade virtual" acolhida pela seleção oficial de Cannes.

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