Do karaoke no YouTube ao jazz graças à gripe suína

Beatriz Pessoa tem 22 anos, compõe e canta jazz-pop. No ano passado lançou um EP e planeia gravar um álbum. Teve o momento de maior exposição do seu talento quando partilhou o palco com Jamie Cullum, no Cool Jazz, em Oeiras.

Pais e mães ansiosos: é inútil insistir com os meninos em idade muito tenrinha na música. Beatriz Pessoa entrou aos 6 anos para o coro da Orquestra Metropolitana e o resultado? "Odiei." Até aos 14 anos música e casa rimaram. "Nunca tive ídolos, nem posters nas paredes do quarto, mas tinha um vício com karaoke. Ouvia as músicas na rádio e passava horas a cantar em frente ao YouTube." Britney Spears e Beyoncé eram algumas das cantoras que emulava.

Aos 14 anos deu-se a revelação. "Foi no verão da gripe suína. Ia para Inglaterra, com uma amiga, fazer um curso de verão de inglês, mas por causa da gripe o curso foi cancelado", recorda. Em troca, as mães inscreveram-nas num curso no Centro Cultural de Belém, Lisbon Jazz Summer School. Jazz? "Era um frete ouvir aquilo, pensava que era música de elevador", diz, apesar de reconhecer que em casa os pais ouviam de Miles Davis ao jazz editado pela Clean Feed. "Lembro-me de que na manhã em que o curso começou amuei, não queria ir." Será preciso dizer que Beatriz adorou o curso? Mais do que isso, os professores também ficaram impressionados. Um deles, o trompetista Gonçalo Marques, falou com os pais a sugerir que a inscrevessem na escola do Hot Clube de Portugal.

Em paralelo com a escola secundária, seguiram-se três anos na grande escola que frequentou, o Hot. Só lamenta não ter terminado o curso, "porque foi muito mais importante do que a Escola Superior de Música de Lisboa", onde concluiu a licenciatura em jazz, variante voz. Dá o exemplo das aulas que teve com a Maria João. "Foi ela quem me fez descobrir o meu caminho, fiz rap, cantei standards, Rihanna, mostrou-me de tudo o que havia."

Fora das aulas, o Hot Clube proporcionou-lhe uma experiência dura, a de cantar em bares de hotel (em contrapartida, a escola recebia material ou os alunos um cachet). "Começar a cantar ao vivo desde tão cedo deu-me segurança em palco e em saber lidar com o público. Fiquei habituada a concertos de eventos em que ninguém liga patavina. Uma vez estavam a falar tão alto ao nosso lado que disse "pilinha" no meio de uma canção só para ver se alguém ouvia, mas ninguém deu por nada!" Hoje rejeitaria a oferta, mas reconhece que aquela rodagem foi "muito importante".

João Hasselberg, que veio a tornar-se baixista da sua banda, certo dia perguntou-lhe por que não escrevia música. A ideia ficou a pairar, até ao momento em que se encontrou em Paris no seu ano de Erasmus. "Comecei a compor e deu-me imenso gozo. E depois foi tudo muito rápido, juntei as pessoas para formar a banda e fiz um concerto de apresentação no Teatro Taborda, em Lisboa. E em junho de 2016 gravei um EP, Insects." Com os companheiros de banda Hasselberg, Margarida Campelo (teclas) e João Lopes Pereira (bateria) trabalharam a partitura. "A base é minha mas há muita coisa que é feita em conjunto." E Beatriz Pessoa já tem material para um longa duração, com temas em português e em inglês.

Além de continuar a escrever canções jazz-pop e a dar aulas de canto (particulares e em duas escolas), Beatriz Pessoa frequenta jam sessions em vários espaços noturnos. "Quis ser crescida, sair de casa, trabalhar, e daqui a uns dois anos voltar a estudar." Um mestrado em Copenhaga ou em Berlim, ou aulas em Nova Iorque, estão nos planos da cantora. "Preciso de objetivos e metas, senão disperso-me."

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