Devaneios eróticos de Houellebecq em sessões contínuas

Lanzarote é o título de Michel Houellebecq que abre o ano da literatura francesa no nosso país. Um devaneio erótico numa centena de páginas.

A lista de obras do autor e provocador francês Michel Houellebecq é muito grande e vai dos ensaios às novelas, dos romances à poesia... Aliás, é neste último campo que se pode encontrar uma espécie de itinerário biográfico que resume o escritor ao lerem-se os títulos que deu aos livros com os seus poem(inh)as em 1988 e 1999: Qualquer coisa em mim, A busca da felicidade, Da diferença, A pele, O sentido do combate, Ficar vivo e Renascença. Mesmo que entretanto tenha lançado dois dos seus mais interessantes romances, Extensão do domínio da luta (1994) e Partículas elementares (1998), e antes deste Lanzarote (2000), outro também fundamental, Plataforma (2001).

Antes de mais fica o aviso de que Lanzarote não é apenas uma história mas meia dúzia delas, situação para a qual o leitor não é avisado, sendo que é a narrativa que tem o nome da ilha das Canárias a que tem mais fôlego: 54 páginas. As outras 31 páginas contêm outras histórias, que ao leitor embalado pelos devaneios eróticos de Houellebecq, vão surgindo como continuidade de Lanzarote e, só lá para o fim, é que se dá conta de que aquela novela acabara há algum tempo.

Pode dizer-se que Lanzarote é um devaneio erótico com pouca profundidade, daí que se leia de uma vez só. Não tem a dimensão normal a que Houellebecq nos acostumou nos seus romances anteriores e posteriores - cada vez menores, diga-se -, mas não deixa de ser muito curioso, quanto mais não seja enquanto introdução a um dos poucos atuais autores franceses que convidam à leitura.

Não se podendo dizer que Houellebecq seja uma pessoa sã da cabeça, ou pelo menos as suas performances públicas assim o fazem parecer, contudo a nível literário o senhor esmera-se na inventividade e o leitor sai sempre satisfeito com a bibliografia disponível. A sua temática de eleição é, pode-se dizer sem sombra de dúvida, uma única só: sexo. No entanto, para não ser apenas ordinário em extraordinárias descrições de cenas de sexo que envolvem homens de meia-idade com jovens, lésbicas e mulheres ansiosas por uma relação, Houellebecq encontra cenários diferentes para cada livro. Ou, poder-se-ia antes dizer, cenários onde o sexo se disfarça como protagonista do livro.

Fazendo jus a esta capacidade, é claro que a escrita de Lanzarote representou para o autor apenas um aquecer dos motores para escrever Plataforma, um romance onde se trata principalmente do turismo sexual a oriente. Em Lanzarote não há turismo sexual, aliás a sua caracterização da ilha é a de que não há quase nada para o turista ocupar os dias, daí encher metade do livro a tratar da atividade física de eleição.

Parece que só lá para o final é que o autor descobre que está ausente a estrutura narrativa e coloca como que acidentalmente os adeptos da seita Rael à frente do protagonista. A partir daí, já tem como dar um fim à novela e de forma bastante inesperada. O mais curioso é que também neste livro, tal como em A Submissão - que coincidiu no tempo e no tema com o atentado ao Charlie Hebdo -, Houellebecq tem um bom nariz para farejar os acontecimentos que vão marcar a atualidade e antecipou certos escândalos que irão abalar a Europa nos meses que se seguem à publicação dos seus livros.

Quanto às outras histórias, o tema do sexo volta em grande, o que permite em Cléopâtre 2000 nova grande ordinarice na descrição de uma praia naturista.

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