Descobrir todas as direções do jazz no regresso do Jazz em Agosto

Festival da Fundação Calouste Gulbenkian realiza-se de 28 de julho a 6 de agosto e acolhe músicos como Steve Lehman, Peter Brötzmann, Dave Douglas ou os portugueses EITR, que representam a nova geração nacional

"O jazz não é uma linguagem estática e o que caracteriza o Jazz em Agosto é refletir as suas mudanças de linguagem." Foi sob este mote que o programador Rui Neves concebeu novamente a programação do festival Jazz em Agosto, que volta este verão à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, entre os dias 28 de julho e 6 de agosto, revelando 14 projetos que apontam para as várias direções que o jazz toma nos nossos dias.

O próprio programador afirma ao DN: "Em cada ano que passa, aumenta significativamente o corpo de músicos que escolhem novas direções para além da mera emulação da linguagem clássica do jazz e são esses que são recenseados." Esta é, de facto, uma característica basilar do Jazz em Agosto, que de ano para ano apresenta não só no Anfiteatro Ao Ar Livre da Gulbenkian mas também noutros espaços da fundação, como o Museu Calouste Gulbenkian e o Auditório 2, uma série de artistas que extravasam as fronteiras das linguagens clássicas do jazz, abraçando outros géneros com os quais se funde.

Essa premissa fica desde logo assente no concerto de abertura deste ano, a cargo do projeto Sélébéyone, do saxofonista Steve Lehman, no dia 28 de julho, às 21.30, no Anfiteatro ao Ar Livre. Sélébéyone significa "intersecção" no dialeto africano wolof, e com este projeto Steve Lehman experimenta mesmo uma mistura entre as linguagens do jazz e do hip-hop, fazendo-se acompanhar dos rappers HPrizm (anteriormente conhecido como High Priest, membro dos Antipop Consortium) e Gaston Bandimic (nome do hip-hop do Senegal).

"O facto de o saxofonista Steve Lehman ter surgido no fim do ano passado com o novo projeto Sélébéyone referindo-se ao rap e ao hip-hop, foi determinante na sua escolha para abrir o Jazz em Agosto 2017, para mais com a presença no seu seio de um consagrado como HPrizm", explica Rui Neves. A mistura do jazz com o hip-hop tem dado vários frutos ao longo da história recente da música e, como salienta o programador, "são afinal expressões provindas da criatividade da comunidade afro-americana que não só inventou o jazz mas também o blues e o rock & roll".

Já o concerto de encerramento do Jazz em Agosto, a cargo do projeto High Risk, de Dave Douglas, a 6 de agosto, às 21.30, tem na música eletrónica um fator dominante, mas também a espionagem cibernética. "[Dave Douglas] é alguém com profunda consciência política e artística que no seu mais recente projeto eletrónico, um segundo capítulo designado Dark Territory, depois de High Risk que se tornou a designação do grupo, demonstra inspirar-se no território imperscrutável das atuais guerras de espionagem cibernética, ao mesmo tempo, evocando criadores da expressão (Miles Davis)", afirma Rui Neves.

Outra das características da 34.ª edição do Jazz em Agosto é também a presença de músicos que ultrapassam as barreiras geográficas, o que lhes permite desenvolver novas maneiras de pensar o jazz. Além dos já referenciados Sélébéyone de Lehman, seguem esta ideia nomes como o quarteto Sartlite Motel (que reúne músicos ligados a projetos como The Thing, The Young Mothers, Acoustic Unity, Bushman"s Revenge e Electric Masada), o Sudo Quartet (dos quais faz parte o português Carlos Zíngaro) ou o duo Peter Brötzmann-Heather Leigh. Segundo o programador, hoje em dia é "evidente que o intercâmbio gerado [pelo facto de os músicos estudarem desde cedo fora do local de residência] faz que muitos grupos sejam considerados pan-europeus ou intercontinentais, fundindo culturas e perspetivas, construindo novas linguagens e acabando por constituir mais um aspeto da globalização, neste caso artística, que conhecemos".

Entre os vários projetos que este verão voltam a assentar arraiais na Fundação Calouste Gulbenkian durante o Jazz em Agosto existem também músicos portugueses, eles próprios com intensas carreiras internacionais e com formações que esbatem essas fronteiras geográficas. É o caso do projeto Life and Other Transient Storms, da trompetista Susana Santos Silva, um quinteto escandinavo que surgiu após a permanência da artista na Suécia.

Ao DN, Rui Neves explica que "a programação deste ano de músicos portugueses incide em práticas de música improvisada provinda do jazz e que revelam profunda identidade e força". Além de Susana Santos Silva e do violinista Carlos Zíngaro (com o Sudo Quartet, que junta quatro improvisadores da música europeia), vão ainda atuar no Jazz em Agosto os EITR, duo do saxofonista Pedro Sousa e do turntablist Pedro Lopes que "representa a nova geração portuguesa que na última meia década optou pela linguagem experimental sob o guarda-chuva do jazz". No fundo, nestas "três propostas também se demonstram três gerações ou não fosse esta música conhecida por jazz se transmitir ao longo de gerações que a vão moldando conforme os tempos vão evoluindo".

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