Deixai as palavras de Lobo Antunes fazer cinema

Nasce um cineasta à terceira longa. Ivo M. Ferreira acertou no seu ambicioso relato da Guerra Colonial portuguesa

Foi curioso ver o primeiro-ministro e o ministro da Cultura muito descontraídos minutos antes da projeção oficial no Palast de Cartas da Guerra. Estavam misturados a falar com atores e agentes das restantes comitivas desta muito falada invasão portuguesa. "Já conheces o ministro da Cultura?", ouvimos a diretora de casting Patrícia Vasconcelos a perguntar, para logo depois ser corrigida pelo próprio: "Eu tenho nome, chamo-me João." A presença de comitivas governamentais no festival não é coisa rara nem capricho de orgulho patriótico, tanto mais que na apresentação oficial os nomes de António Costa e de João Soares foram mencionados pela apresentadora da sessão, que até inventou um cargo para este último: "Portugal"s prime minister of Culture."

Verdade seja dita, Cartas da Guerra foi aplaudido com moderação, algo longe da aclamação que por exemplo As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, teve no ano passado na Quinzena do Realizadores, em Cannes. A impressão é que o filme de Ivo M. Ferreira fica sempre a prometer algo mais do que tem a mostrar, sobretudo depois de um arranque que prometia um deslumbramento perto da obra-prima.

Miguel Nunes interpreta António Lobo Antunes durante a sua partida para a Guerra Colonial, em Angola, em 1971. A ação é feita através das cartas que o então médico destacado na frente da guerra escrevia para a sua mulher grávida, Maria José (brilhantemente composta por Margarida Vila-Nova). António descreve-se como um "homem sombra", perdidamente apaixonado pela sua mulher mas ao mesmo tempo horrorizado com a guerra.

Objeto de um singularidade única, com uma progressão dramática invulgar (quase sempre apenas guiado pela narração das cartas do jovem médico), Cartas da Guerra está visitado (ou assaltado ou possuído...) pela literatura. As palavras de Lobo Antunes no preto e branco espantoso da fotografia de João Ribeiro levam--nos para um estado de espírito de um imaginário próprio de África. Só nos resta deixarmo-nos ir nas letras tragicamente românticas do escritor. Muito bonito.

"A adaptação que Ivo Ferreira fez de uma notável obra da nossa literatura é um grande momento para Portugal", disse António Costa para quem estar presente no Festival no ano em que Portugal regista a "maior representação de sempre", com oito filmes, é um "dever do Estado".

Franceses honrados

Neste fim de semana a Competição acordou para o cinema francês com dois exemplos de cineastas de gerações opostas. Primeiro Berlim viu L"Avenir, de Mia Hansen-Løve, a cineasta de Eden (2014), uma história de uma professora de filosofia que se confronta com um futuro diferente quando descobre aos 60 anos que está sozinha na vida.

Løve quer à viva força mostrar um olhar mais maduro e pensado, não só por aqui finalmente não descrever personagens jovens mas sobretudo por ter uma confiança de mise-en-scène mais sólida. A L"Avenir faltam-lhe os golpes de asa de Eden mas tem muita coisa recomendável, a começar por uma "monstruosa" interpretação de Isabelle Huppert, inspirada na sua mãe. É bom perceber que estamos perante uma cineasta que se esforça por nunca se repetir.

Quanto a André Téchiné, o francês apresentou Quand on a 17 Ans, um conto de crescimento sobre dois adolescentes que iniciam uma relação de ódio e amor num inverno gelado nas montanhas. Não é o Téchiné clássico dos seus melhores filmes mas o homem não sabe filmar mal. Qualquer plano aqui continua a ter uma energia imensa e a direção de atores (sobretudo os mais jovens) é irrepreensível. É um filme que remete para a questão da pulsão homossexual tão cara ao realizador e rima imenso com o seu Os Juncos Silvestres (1994). Téchiné continua a saber compreender a fúria adolescente. Seja como for, não é uma obra-prima, é apenas um objeto honrado...

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