Dançar o mundo em Guimarães, nessa fina linha que separa e une todas as artes

Victor Hugo Pontes faz dançar A Gaivota, de Tchekhov, sem uma palavra, e Miguel Moreira convoca danças urbanas e Mapplethorpe nas duas estreias absolutas. Um festival apostado na relação da dança com as outras artes.

Há palavras debaixo da pele dos bailarinos em Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a - que esta quinta-feira abre o GUIdance - Festival Internacional de Dança Contemporânea, em Guimarães. A nova criação de Victor Hugo Pontes parte das palavras com que A. Tchekhov deu forma a uma peça fundamental da história do teatro, A Gaivota, e é com elas que cada um dos intérpretes tem que se haver, num monólogo interior que vemos desenhar-se no corpo. "O texto nunca é verbalizado. O desafio a que me propus foi construir a partir dele mas ficar sempre na acção e emoção da peça. Existe tudo, a cronologia da narrativa, as personagens, mas retiro o resto, as palavras, quase todos os objetos, fico com os corpos. Portanto é e não é A Gaivota de Tchekhov".

Pontes faz dançar a peça sem uma palavra e com todas as palavras, num movimento que vai do texto para a coreografia, espécie de espelho do seu próprio caminho enquanto criador que "foi convocado para a dança" a partir dos estudos de teatro (e artes plásticas) e da colaboração com o encenador Nuno Cardoso em várias peças, nomeadamente n"A Gaivota. Mas a dele ainda estava por vir. "Há uma relação de amor com Tchekhov e com esta peça - que é uma peça de desamor, em que todas as personagens estão apaixonadas por alguém que não retribui esse amor. Mas há também a questão do ato criativo que para mim é muito importante". Se alguma vez precisares da minha vida... é a dança a cruzar-se com a análise dramatúrgica minuciosa de uma peça de teatro e com a memorização do texto correspondente por cada um dos bailarinos.

Destruir para criar

"Tiramos a voz e ficamos com o corpo. Como se os bailarinos fossem um desenho e o texto um papel vegetal que pudéssemos sobrepor-lhes. O nível de intensidade do gesto corresponde à intensidade do dizer do texto no teatro". Uma criação do "domínio das ideias abstratas" como a que Treplev, criador incompreendido, defende n" A Gaivota original, a vida "como se nos apresenta nos sonhos".

Maremoto, a outra estreia absoluta deste GUIdance (dia 6, Centro Cultural Vila Flor) é mais um movimento no caminho de Miguel Moreira e do Útero, a estrutura que fundou e deslocou, de Lisboa para Guimarães. "Maremoto tem a ver com a procura do nosso lugar, com as coisas que mudam o nosso caminho. São paisagens de destruição que também carregam imensa beleza, é uma força que vem do interior da terra com um poder que é destruidor e transformador ao mesmo tempo". Na procura que o caracteriza, um movimento circular com o teatro e a dança como base, Moreira vai convocando artistas de quem se sente perto. O Mapplethorpe, agora, e as questões da mestiçagem e dos corpos masculinos. Continuo apaixonado pela questão da dança e estou a trabalhar pela primeira vez com bailarinos que vêm do hip hop, o André e o Gonçalo Cabral, gémeos aparentemente iguais, e negros. O que também é interessante porque eles são portugueses e eu africano e branco. Além disso eles são virtuosos, são belos, há ali uma luz que me interessa. E acho que o hip hop com as suas técnicas que me são estranhas pode ser muito rico para a linguagem desta peça".

Um enigma por desvendar

Continua a obsessão por corpos que dançam sozinhos e por vezes se encontram, continua a obsessão pela água - que vem de longe, como lembra Parede, peça de 2002 que agora regressa. "É a primeira vez que, de uma forma provocatória, me transfiguro num coreografo e num realizador. Confrontar-me com ela outra vez tem a ver com a génese do Útero e com a preocupação de repor peças que acho nucleares. Está lá a génese do que faço agora, só que de uma forma mais intuitiva".

Esta Parede torna-se membrana em 2016 e convoca-nos a todos. "Cabe a cada um dar-se ao encontro, entregar-se ao diálogo, disponível e aberto para se expor aos universos e obsessões de outros, procurando em si os códigos próprios e referências particulares para encontrar e escolher para si, em resultado dessa dialética, o que a peça significa. Cada obra é um enigma por desvendar", escreve a ensaísta e crítica de dança Cláudia Galhós no programa deste Guidance. É isso mesmo.

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