"Dá gozo caricaturar o Trump, é um palhaço, mas preferia falar das pessoas de Porto Rico"

Começa por dizer que está farto dele próprio e de computadores, termina dizendo que os desenhos não interessam nada, o que interessa é que as crianças estejam bem. Pelo meio, o cartoon, a caricatura, as aguarelas feitas num tempo lento.

Nasceu em Lisboa em 1974, é ilustrador, cartonista, caricaturista, faz cinema de animação. A conversa surge a pretexto de uma exposição na galeria Abysmo, em Lisboa, com trabalhos que não são exatamente os que o público lhe conhece melhor, sobretudo como caricaturista e cartonista do Diário de Notícias e em muitas e importantes publicações internacionais. Em vez de trabalhar com computador, pinta com aguarelas.

Estás farto dos computadores?

Sim, estou farto de computadores. Mas estou farto de mim próprio, mais do que de computadores. Quando se fica conhecido por fazer um determinado trabalho, qualquer evolução tem de ser muito incremental para as pessoas não notarem muito. Tenho de ser cuidadoso. Gosto de trabalhar em Portugal porque me permitem mais experimentação do que lá fora. Às tantas, estou farto de fazer sempre as mesmas coisas, parece que não há descoberta. Enquanto criativo, artista, tenho de trabalhar para mim também, ter gozo, sentir que estou a descobrir. Se for só para clientes, não me dá gozo e começo a ficar infeliz. E não estou habituado a sentir-me infeliz no trabalho.

Desde os teus 17 ou 18 anos que a qualidade do teu trabalho se impunha ao olhar.

Tive sorte. Sempre tive qualidade no trabalho para o meio em que me estava a mexer. Se me tivessem posto no New York Times aos 17 não me ia safar.

Chegaste lá cedo, ainda assim.

Sim, aos 29.

O que estudaste?

Não acabei os estudos. Comecei por fazer cartoons, aquilo que estou a fazer agora no Diário de Notícias. Em Macau, aos 17 anos, no jornal Ponto Final que estava a ser criado, deram-me um espaço para fazer um desenho de opinião.

Aos 17 anos?!

Fui lá com um portfólio e eles acharam piada. Eu tinha muito a escola do Quino da Mafalda e recortava cartoons de jornais. Quando vim para Portugal, trabalhava no Fiel Inimigo, um jornal satírico, uma espécie de Charlie Hebdo que durou um ano, e aí ganhei alguma estaleca. Na altura não havia computadores e trabalhava-se nas redações.

Desenhando à mão, claro.

Sim. A minha mãe deu-me o meu primeiro computador em 1994. Comecei a estudar design gráfico nas Belas Artes e fui infeliz, não gostei do ensino. Mas conheci o Nuno Saraiva, o Luís Lázaro, o Fernando Guerreiro, pessoas que ainda hoje são influências.

E não ficaste no design gráfico?

No segundo ano o Luís Lázaro, que é pintor e ilustrador, convidou-me para fazer um ateliê de design. Descobri que o design e as artes são áreas onde nunca perguntam se temos curso. Pedem para ver o portfólio, e entra-se numa contradição: se quero trabalhar para o portfólio não posso estar no curso. Não estou a dizer que ninguém deve ir para os cursos, e não me arrependo de ter entrado. E aos meus filhos vou dizer estudarem... No meu caso específico eu já estava a trabalhar para a imprensa. Um dos primeiros trabalhos que fizemos no ateliê foi a capa do segundo álbum do Abrunhosa. Estávamos com trabalho e eu estava a aprender. Achei que não estava a aprender nada na escola e deixei-a. E mais tarde deixei o design gráfico porque percebi que conseguia sustentar-me melhor a fazer ilustração. O design gráfico é muito mais duro.

Fazes aquilo de que gostas e podes fazê-lo em casa ou numa esplanada.

Já fiz numa esplanada, por exemplo em Goa, virado para o mar, já fiz muito disso. Mas tenho muito talento para me queixar à minha mulher e dizer que sou muito infeliz no trabalho. Estou a contradizer-me, pronto, sou uma pessoa contraditória. Sim, tenho a sorte de fazer o que gosto.

Entraste para o mundo internacional - deve ser um grupo pequeno - dos grandes cartoonistas e caricaturistas. Como chegaste lá?

Não sei se é um grupo pequeno, não faço ideia. Eu estou muito isolado, conheço muito pouca gente, porque estou sempre metido em casa a trabalhar. Sou um bocado bicho-do-mato e confio nas pessoas que me são próximas para me servirem de ponte em relação ao resto do mundo, e confio também no trabalho para servir de ponte para o mundo.

Mas tens desenhos de todo o mundo - Paris, Londres, Macau, Nova Iorque, Hong Kong, Viseu, Óbidos e Douro ...

Óbidos não conta porque levei a trupe toda. Fui convidado pela Ler Devagar para ir desenhar Óbidos por causa de um festival de desenho e literatura de viagens e a condição que pus foi ter um sítio onde pudesse instalar a família toda: os filhos, a mulher e as avós.

Tens dois filhos, um com sete semanas e outra com 20 meses. E desenhaste a tua mulher na gravidez, os partos e depois os bebés no dia-a-dia.

Este último parto demorou 20 horas. No primeiro não desenhei nada, estava a olhar. Gostei imenso de ver e tenho muita curiosidade. Da primeira vez houve dificuldades e não pude entrar no bloco operatório, mas no segundo assisti a tudo e só não desenhei o momento de a criança sair cá para fora.

Cortaste o cordão?

Sim, pedi para cortar e aprendi imenso. Uma pessoa não imagina a consistência, a grossura, como aquilo é feito. É fascinante.

E desenhaste também as crianças no dia-a-dia.

Sempre que estou em compasso de espera e não sou útil para nada ponho-me a desenhar. Na primeira gravidez tinha desenhado a minha mulher, mas na segunda, como já não era novidade e estávamos sempre ocupados com a primeira criança, não desenhava tanto e por isso ela quis que desenhasse o parto. Perguntaram-lhe se não sente que está a ser exposta e ela diz que não. Eu cada vez mais ando a resistir a mostrar muita coisa da minha vida.

Porquê?

Por causa das redes sociais. É uma doença de hoje, a excessiva partilha, abdicamos da nossa privacidade, da nossa identidade e daquilo que sentimos, subordinando tudo ao que os outros acham do que estamos a sentir. O facto de ter começado a desenhar à vista é também uma crítica ao Instagram e à cultura da imagem fotografada instantânea. Por exemplo, em Óbidos, enquanto estava a fazer um desenho, uma hora no mesmo sítio, passavam milhentas pessoas a tirar a mesma foto e a olharem pouco para aquilo que estava a ver.

Concentradas em captar a imagem?

Sim, e são fotos que nunca mais vão ver. É como os vídeos. Uma vez fui ver a Mona Lisa e estava uma data de gente a filmar. Não estão a olhar para o quadro.

Nestes teus desenhos não aparecem pessoas, só pintas o que é permanente.

Gostava de desenhar as pessoas mas tenho de criar técnicas mais imediatistas.

Levas uma cadeirinha de pescador, as aguarelas, um bloco, armado como um antigo pintor. Só te falta o cavalete.

O cavalete é muito grande para transportar, tento ser o mais portátil possível. E tento usar técnicas em que não é permitido fazer selfies.

Voltaste ao básico?

Sempre gostei muito de aguarela. Gostava muito do Corto Maltese do Hugo Pratt e das aguarelas que ele fazia. Dizem que a aguarela é a técnica que não mente, porque é impossível de corrigir, a não ser digitalmente. É trabalhar sem rede. Se se erra tem de se começar de novo.

Acontece-te muito deitar fora?

Não, porque aprendi que se o desenho não estiver parecido com o que estou a ver, ninguém sabe. O que interessa é a qualidade intrínseca do desenho e se está feito de uma maneira interessante para as pessoas. Prefiro assumir esse erro, que acontece sempre, sem tentar corrigir. Deixo que ele fique, porque o olho humano vai perceber e gosta do improviso, em qualquer arte. É sempre pior quando uma pessoa tenta contrariar algo que aconteceu espontaneamente. É uma lição que aprendi no desenho.

Recentemente?

Recentemente. No trabalho por que sou mais conhecido sou mais calculado, sou muito cerebral e corrijo muito. Acho que nas novas correntes de ilustração se está a voltar a técnicas que não são obviamente digitais, onde se nota que há uma intervenção humana. E a intervenção humana normalmente é o erro.

Como fazes uma caricatura?

Pedem-me uma caricatura e vou à internet buscar imagens.

Nunca é de memória?

Se for o Donald Trump, o Obama ou o Cavaco é de memória, já fiz muitas vezes. Normalmente vou à internet ver fotos, faço uma composição de fotos dessa pessoa numa página e depois estou a olhar para o ecrã e a desenhar em papel. A partir do momento em que está desenhado em papel e acho que está parecido, digitalizo para o computador e acabo aí o trabalho.

Portanto, há um trabalho inicial feito à mão?

Sim, sempre, nunca perdi isso.

Não é pegar numa fotografia e manipulá-la?

As pessoas julgam que sim, mas não é. O que eu faço é impossível através de fotografia. O computador faz muito pouca coisa sem uma pessoa a comandar. O meu trabalho tem uma junção de várias coisas, à mão e digital, que dá o caráter que é meu.

E no cartoon? Tens de criar uma imagem que represente um acontecimento, uma situação.

É uma simplificação, um exagero, um retrato de uma opinião que tenho acerca de determinada coisa que se está a passar. Numa caricatura penso pouco, é mais imediato. Num cartoon tenho de pensar e pesquisar sobre o assunto. Durante muito tempo achei que não conseguia mas comecei a ver que o que estava a fazer era oco de sentido, um bocado vazio de opinião, de um processo de raciocínio. Então achei que a minha autoria tinha de passar também por aí, e se calhar mais por aí do que por uma qualquer técnica visual. Tinha de passar por uma metodologia de raciocínio e de interpretação do mundo. E tive a sorte de o DN me dar um espaço para eu fazer essas experimentações.

Lembro-me do dia do atentado do Charlie Hebdo e do que tu fizeste: um lápis com umas raízes. Transformaste uma situação numa imagem, sem seres literal: não puseste lá o Charlie Hebdo, as armas, os mortos.

Foi complicado. Tinha acabado de chegar de uma viagem de várias horas de Macau, estava de jet lag, e mal pude dormir. Tinha conhecido no ano anterior no Porto uma das pessoas mortas, e fiquei tocado. Fui para a net ver o que se estava a passar e os cartonistas de todo o mundo tinham desenhos de fúria e de dor. O DN lançou-me o desafio de fazer uma capa e eu tinha quatro ou cinco horas para pensar naquilo. Já estou treinado a baixar as expectativas do que consigo fazer a nível técnico com tão pouco tempo. Portanto, pensei numa imagem simples. A simplicidade da imagem vem também do pouco tempo que eu tinha. E lembrei-me de ir pelo outro lado, o lado da esperança, ou seja: isto é horrível, mas estes tipos vão desaparecer e nós vamos continuar cá, isto vai passar e vamos aprender e ultrapassar.

Falaste em Trump, que é uma desgraça para muitas pessoas, mas parece ser uma felicidade para um cartonista, porque é tão óbvio, é quase uma caricatura ele próprio.

Sim, o problema é que na caricatura há sempre uma contradição que eu aprendi com um grande caricaturista, o Ralph Steadman. Ele disse numa entrevista que tinha parado de fazer caricaturas, e eu fiquei intrigado. Tive a oportunidade de lhe perguntar pessoalmente e ele explicou-me: quando estás a fazer uma caricatura, não consegues evitar estar a promover essa pessoa, porque estás a dizer que é conhecida o suficiente e merece ser caricaturada. Por mais que sejas corrosivo, uma caricatura é sempre um sinal do estatuto dessa pessoa no mundo. Portanto, ao desenhar o Trump tenho sempre sentimentos contrários. Dá gozo, porque ele é um palhaço, mesmo fisicamente, mas já começo a ficar um bocado chateado. Todos nós, humoristas, comediantes, todas as pessoas que desenham humor, estamos constantemente a falar dele. E acho que ele até gosta, porque ele sempre aproveitou esse lado, ele fez um roast no Comedy Central, dispôs-se ao ridículo de ser gozado por comediantes durante uma hora, muito antes de ser candidato a presidente. É muito esperto e sempre percebeu que enquanto estiver a ser falado por toda a gente ele vai ganhar.

É uma figura que tu gostarias de não ter que fazer?

Às vezes gostava de não ter de falar dele e falar das pessoas que precisam, das pessoas em Porto Rico que agora estão a precisar da ajuda que ele não manda.

Estás permanentemente, por razões profissionais, a acompanhar a atualidade?

Mais ou menos, sim. Quando consigo que a criança durma vou ler as notícias. Mas tenho amigos que estão mais informados, jornalistas, e a quem posso telefonar a perguntar o que se passa. E ajudam-me, dizem-me o que se está a passar. Às vezes estou focado numa assunto que já passou.

Li no teu Facebook uma história tua com o John Le Carré que é muito curiosa, mas só os teus amigos puderam ler. Podes contar?

Lá está, é uma daquelas histórias que eu pensei duas vezes antes de divulgar. Não contei durante muito tempo porque hoje toda a gente partilha tudo e acho porreiro ter histórias que ficam nossas. Foi uma correspondência por email que tive com o John Le Carré porque porque fiz um retrato dele para um dos maiores jornais da Suíça - o Neue Zürcher Zeitung - para onde faço mensalmente as capas do suplemento literário. Já o tinha desenhado para a capa do NYT Book Review e para o DN. Ele mandou-me um email, assinado com o nome real dele [David Cornwell], e dizia que tinha gostado muito do desenho e queria comprá-lo. Eu não vendo impressões à pessoa caricaturada. Posso vender o original, mas hoje raramente tenho originais, e então costumo oferecer o ficheiro digital para imprimirem. Sou muito despassarado, é mau confiarem em mim para enviar prints assinadas. Enviei-lhe as três caricaturas dele que tinha feito e disse-lhe que gosto muito do filme A Casa da Rússia, que começa e acaba em Lisboa. Não é um filme genial que ganhe óscares mas, não sei porquê, é um filme que me ficou. Gosto daquela história que é uma adaptação de um livro dele e disse-lhe isso. Gosto muito de livros de espionagem e policiais. Ele agradeceu-me ter enviado os desenhos e passadas umas semanas recebi em casa uma encomenda de três livros assinados e dedicados por ele. É uma pessoa que eu admiro. Há muitas pessoas que tenho caricaturado que não admiro.

O que apanhas numa caricatura? Os traços fora do comum? Há maneira de explicar?

Não, é muito difícil. Eu consigo talvez ensinar uma pessoa, mesmo que desenhe bem, a ficar melhor em caricatura, mas não consigo ensinar ninguém a ser bom caricaturista que não o seja já. A caricatura é um tipo de perceção que não sei explicar, é preciso tê-la. Pode-se treinar mais ou menos mas não se adquire, ou se consegue ou não se consegue.

Vai diretamente do cérebro para a mão?

Vai da memória. É a capacidade de desenhar a memória que todos temos daquela pessoa e saber identificar onde está essa memória. O cérebro humano avalia caras - e tudo em geral - por pontos-chave. Não estou a ver todos os pormenores deste microfone ou da tua cara. Vemos pontos que achamos relevantes em comparação com tudo o resto. E o caricaturista, no fundo, identifica esses pontos e, de uma maneira artística, evidencia-os. Às vezes é só apagar. Para desenhar o príncipe Carlos, por exemplo, posso apagar toda a cara, deixar o nariz e as orelhas, e fica uma caricatura do príncipe Carlos.

Há pessoas incaricaturáveis?

Sim, a primeira de que me lembro é o Basílio Horta, que já me deu muitas dores de cabeça. Durante muito tempo foi o Tony Blair mas agora já o consigo fazer bem, porque as pessoas vão envelhecendo e ficando mais marcadas. Há pessoas com quem tenho dificuldade. No outro dia tive dificuldade com a Nicole Kidman, mas não acho que seja um bom exemplo disso porque já consegui fazer caricaturas dela muitas vezes. Há publicações, principalmente americanas, que dizem "faz aquela cara mas respeita e sê simpático". Isso normalmente mata-me logo o desenho. Fico condicionado, porque não consigo fazer retratos realistas, só consigo fazer caricaturas.

Retratos realistas só dos teus filhos e da tua mulher.

Aí apanhaste-me. Mas aí estou a olhar para a pessoa e isso é sempre puxado para um lado ou para o outro. A minha mulher poderia argumentar contra muitos desenhos que eu faço dela, pode não gostar.

A exposição Atrito vai ser transformada em livro, tal como tinha acontecido com a exposição e o livro Inércia, de 2013. Qual é a diferença entre atrito e inércia?

Inércia era quando eu estava a viajar - a tendência é para um corpo continuar no estado em que está, em movimento ou parado, e o atrito é aquilo que faz com que mude de estado. E eu deixei de viajar para parar em Lisboa.

E gostas?

Gosto muito de Lisboa. Já tive oportunidade de viver em muitos sítios e volto sempre para Lisboa.

E gostas desse teu estado familiar, de ter um núcleo familiar muito forte?

Sempre fui uma pessoa de família, a família que me criou e agora da família que estamos nós a criar. Está a atrapalhar-me um bocado o trabalho porque me faz deixar de ter vontade de trabalhar. Porque os desenhos não interessam nada. O que interessa é se as crianças estão bem.

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