"Cresci num país onde o único indivíduo que podia existir era o ditador"

Faustin Linyekula é o Artista na Cidade 2016. Vai dançar na Cova da Moura como no Centro Cultural de Belém. Ao DN revê a jornada até aqui e explica o que é dançar a história do Congo, fora e dentro dele

Li-nye-ku-la. Havemos de nos habituar a pronunciar o seu nome. Ainda nos resta todo o ano, ele é o Artista na Cidade 2016, na terceira edição da bienal. Andará por Lisboa a dançar ou a fazer dançar muito do que se passará nos grandes palcos da capital. Encontramo-lo ao final do dia no Teatro Camões. Acabara de posar para as fotografias, depois vídeo. Quando a câmara já se afastava do seu rosto, enquadrando o rio ao longe, Faustin começa a cantar. Não foi trautear ou sibilar em jeito de evasão, cantou sozinho, seguro e sem aviso.

Antes da entrevista, explica que aquela é uma canção típica de onde vem. Canção de luto cantada quando aqueles que vieram assistir à cerimónia fúnebre regressam às suas casas. "Não tinham maneira de prever, quando há uma morte não se prevê, tu vens. E quando partem nós sentimo-nos tristes."

Em que sítio do Congo, então Zaire, nasceu?

Nasci numa pequena vila 125 quilómetros a sul de Kisangani, que se chama Ubundu. Depois cresci numa pequena aldeia que se chama Obilo. O meu pai era professor na aldeia e levou-nos com ele. Ainda tenho primos lá. Saímos em 1982, eu tinha 8 anos, e durante muitos anos não voltei lá. Passava por Ubundu de comboio, mas não ia lá. Em 2011 decidi voltar, para [a peça] Le Cargo. E em 2013 para Drums & Digging. Queria encontrar a minha primeira recordação da dança, que se situa em Obilo.

Essa recordação é de quando era muito novo?

Muito, muito novo. Era a dança que acontecia nas grandes festas da aldeia. Não era "eu" a dançar.

O que descobriu ao regressar?

Desde que comecei a criar houve esta obsessão em relação à história ou às histórias. Mas em 2011 comecei a perguntar-me como poderia apenas dançar sem contar histórias. A dança, o movimento pelo movimento.

Estava cansado de dançar a história do seu país? Pesava-lhe?

Sim. Quando nos interessamos pela história do Congo percebemos que desde que este país existe tem a mesma história de violência, de exploração: quando era uma colónia belga, quando era apenas uma propriedade do rei belga... O paroxismo foi quando começaram a cortar a mão direita das pessoas que não trabalhavam depressa o suficiente nas plantações. Mesmo hoje dizes: se eu olhar para o passado ou para o presente são sempre histórias de gente que sofre. Mas como contar outra coisa?

Ou então calar-se de vez. Não lhe passou pela cabeça?

Calar-me, não. Tudo mudou talvez no momento em que me perguntei como contar o Congo ao congolês. Às pessoas que vivem aquela violência e negoceiam com ela no quotidiano. E que se tentam projetar, apesar de tudo, no amanhã. Foi com tudo isto que pensei: é preciso parar de contar as histórias como as que contei até aqui, é preciso encontrar outra maneira.

Mais ou menos violenta?

As histórias do Congo são sempre violentas.

Mais ou menos bela?

Mesmo quando conto as histórias violentas, para mim a questão foi sempre como inventar um espaço de beleza com isso. Mas não para o estetizar.

Refere-se a uma beleza que já existe nas coisas, não inventada?

Eu não invento nada. Há um escritor congolês, Sony Labou Tansi, que escreveu: Tout étais par terre, même la terre était par terre ("Tudo estava arruinado, mesmo a terra" - perde-se a aliteração do francês - "estava arruinada"). Uns anos mais tarde, um escritor do Togo, Kossi Efoui, escreve o que para mim é uma resposta a Sony: Mais les hommes étaient toujours là ("Mas os homens estiveram sempre lá"). Há a ruína, o sangue, a violência, mas é preciso dizer também que há homens, mulheres que tentam continuar de pé. E isso é um ato de resistência, de beleza, de poesia.

E a arte é capaz de recordar isso?

Recorda talvez a necessidade disso. É como a alguém que tem fome: em vez de apenas lhe dares o que comer, tu recordas-lhe quão delicioso é comer, esperando que isso provoque nela a raiva de ir procurar [comida]. Não se trata de pôr a resposta na boca das pessoas, mas de provocar um espaço onde vão procurar respostas por si mesmos.

O projeto de dança e teatro que fundou em 2001, e em que trabalha na cidade de Kisangani, o Studios Kabako, tem o nome de um amigo que morreu de peste...

Sim. Antes de ser o seu nome é uma personagem de uma peça de teatro de Bernard Dadié, um escritor da Costa do Marfim. É um guarda de escritório, que vê o interior e o exterior. Não pode mudar nada, mas vê. Um amigo meu de infância que se chamava Richard interpretou essa personagem. E fê-lo tão bem que toda a gente lhe passou a chamar Kabako. Em 1994, eu vivia no Quénia há um ano e encorajei-o a vir ter comigo. Ele morreu na estrada. Passou por aldeias onde havia peste e apanhou a doença. Foi enterrado numa aldeia a 25 quilómetros da fronteira entre o Zaire e o Uganda. Kabako foi a primeira pessoa que conheci que me mostrou ser possível viver fazendo só arte.

Quando deixou o Zaire durante a ditadura de Mobutu e partiu para o Quénia fê-lo como exilado?

Não, parti para encontrar melhor. Em 11993 estava convicto de que a única forma de fazer arte era saindo do Congo. Disse à minha família: vou ver se consigo ir para a universidade [que deixou] no Quénia. Tive ajuda da minha mãe, que criou um pequeno negócio e que me deu 300 dólares para a viagem de quatro dias. Parti antes de todos os meus amigos, e foi uma ideia de Kabako. O Quénia era o país mais estável na região. Foi lá que comecei a explorar o campo teatral.

Falava na sua mãe. Já é pai?

Tenho dois filhos, de 8 e 11 anos, que chegam a Lisboa nesta semana e vão ficar até fevereiro. A mãe é francesa, vive no Congo connosco. Levamo-los para todo o lado, porque é importante passar o máximo de tempo possível com os meus filhos, e que eles conheçam o meu mundo.

A família que criou é muito diferente daquela em que cresceu?

Eles não compreendem muito bem como vivo. Num contexto como aquele, onde a arte nunca foi compreendida como uma via possível, para que eles compreendessem primeiro foi preciso que eu mostrasse que ganhava a minha vida assim. A partir do momento em que isto foi possível disseram: OK, ele não foi para a universidade mas fez qualquer coisa da sua vida. Depois ficaram curiosos. É o quê, exatamente? Então conheceram o meu trabalho.

O que dizem dele?

O meu pai morreu há três anos. Ele canta em Sur les traces de Dinozord. Na minha família cantávamos sempre muito. O meu pai dirigia um coro na Igreja Católica do sítio onde vivíamos.

O Faustin é católico?

Cresci numa família católica. Hoje não sou praticante, mas é a minha herança.

E o que diz a sua mãe das peças que apresenta no Congo?

A minha mãe está muito orgulhosa. Vai a todos os espetáculos em Kisangani, quer compreender, põe questões. Mas o mais importante não é compreender com a razão, é achar uma ligação pessoal àquilo.

É muito diferente fazer um espetáculo no Congo ou numa sala como esta, em Lisboa?

No Congo representamos sempre ao ar livre. As pessoas vêm e sentam-se, mas não é um público que se cale e se exprima apenas no final. Exprimem-se ao longo de todo o espetáculo. E vão comentar e vão interpelar-te quando estás no palco, vão interrogar-te. Não esperam necessariamente uma resposta, mas no momento precisam de se exprimir. E exprimem-se. Eles têm referências em relação à história do Congo que estamos a contar, mas não têm referências em relação à forma. Aqui, as pessoas talvez não tenham as referências socio-históricas, mas têm-nas em relação à forma. Então vou aprendendo a negociar em contextos diferentes.

Como a associação cultural Moinho da Juventude, com uma grande comunidade africana, na Cova da Moura, onde vai levar Le Cargo?

Em junho, disseram-me: há uma senhora belga [Lieve Meersschaert] que tens de conhecer. É uma das fundadoras. Conheci-a e disse: tenho de atuar aqui. Primeiro vou fazer o espetáculo, depois a ideia é ao longo do ano irmos trabalhando juntos.

O que descobre a dançar que nunca descobriu de outra forma?

Acredito sinceramente que sou relativamente jovem, mas sou antigo. Todos estamos conectados a gerações que têm pelo menos mil anos. Geneticamente podemos retraçar a conexão. Depois sou verdadeiramente obcecado pela história. Quando começamos a explorar a história do meu país, só encontramos documentos escritos desde que ele existe enquanto nação, e não é suficiente. 130 anos não são nada para compreender a evolução de um povo. E, sobretudo, essa história foi escrita essencialmente pelos vencedores. Mas dançar pode tornar-se uma forma de pôr questões a este corpo que transporta em si mil anos, [começa a bater no corpo de forma sonora], dançar é então interrogar, esperando que o corpo possa responder e revelar-me coisas. Pelo menos, de cada vez, há momentos em que sinto que qualquer coisa se passou.

E sente que a resposta vai chegar?

Voilà. E que, se eu tenho esta experiência, talvez ela possa revelar algo ao espectador também. Espero.

A sua obra corre o mundo, mas é no Congo que a constrói. O que é ser artista hoje no seu país?

Cresci num país onde nunca houve um lugar para o indivíduo. O único indivíduo que podia existir era o ditador. Nós devíamos ser apenas uma parte do rebanho que segue o guia, o único que pode pensar por toda a gente. Hoje, acho que é justo pensar a democracia como aquele espaço onde há indivíduos responsáveis que decidem estabelecer um diálogo com o seu meio e que negoceiam o seu espaço de igual para igual. Ser artista é sonhar com isso. Tentar negociar o meu lugar, estando consciente de onde estou e da minha responsabilidade em relação ao espaço que devemos partilhar.

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