Crescer com Harry Potter e sonhar com o manto da invisibilidade

No dia em que a versão portuguesa do novo livro da saga feiticeira chega às livrarias, fomos conhecer o mundo mágico dos seguidores mais crescidos, que vivem num mundo à parte

O Miguel tem cinco tatuagens que refletem na pele o amor pelo Harry Potter. A saga que apaixonou milhões de pessoas por todo o mundo. Levanta a manga da camisa - que compõe a farda dos alunos da escola de feitiçaria - e aparece a cicatriz de Harry e o símbolo de todas as equipas da Escola de Hogwarts: Gryffindor, Ravenclaw, Slytherin e Hufflepuff. Tem 24 anos e "desde que se lembra" idolatra todos os livros e filmes criados por J. K. Rowling.

Com tanta admiração, resolveu criar uma Escola de Hogwarts em Portugal, que organiza eventos e quase faz parecer que o mundo de magia é, afinal, a realidade - pelo menos a de uma imensa multidão. Em 2013, a Miguel Nunes juntou-se António Paisana e Ana Mateus: o trio que liga os fãs de Harry Potter em Portugal. Andam todos na casa dos 20 anos e têm em comum a paixão e o facto de terem crescido a ler as histórias de magia.

O trio dinamiza vários eventos Harry Potter em Lisboa e no Porto - "sete por ano, o número-chave de J. K. Rowling". Uma vez de dois em dois meses, juntam perto de uma centena de pessoas no Parque das Nações, em Lisboa, e, vestidos a rigor, recriam o universo mágico em feitiços e jogos que surpreendem quem passa. "Como estamos no meio da rua a jogar quidditch ou a lançar feitiços, as pessoas criam uma barreira à nossa volta e se calhar até pensam que nós estamos malucos. Até a polícia já veio ter connosco a perguntar se estamos bem", conta Ana Mateus.

Ana tem 24 anos e é cenógrafa. Tem a seu lado a mãe vestida a rigor, de capa, gravata e varinha mágica. Rosário, de 52 anos, entrou no mundo do pequeno (agora crescido) feiticeiro por causa da filha e agora é uma das dinamizadoras do clube de fãs. É uma das que não perde por nada aquele encontro bimensal debaixo da pala do Pavilhão de Portugal. "Ocupamos o Parque das Nações todos, desde o Oceanário até à Ponte Vasco da Gama. Temos um mapa com os nossos locais, a escola, a floresta, a cabana..." Mas esses locais existem, questionamos, terrenos? "Não! É tudo na nossa imaginação, mas tem mapa."

Não acha estranho um adulto - "muitos!" - vestirem fatos e brincarem ao mundo que não existe. "É divertidíssimo, faz-nos sentir úteis e acompanhar os mais novos neste universo", conta Rosário Bonito. E, salienta, nestas atividades que juntam dezenas de pessoas, as equipas das várias escolas fazem testes e "não há computadores nem telemóveis, é um convívio muito salutar".

Hoje é um dia especial, com o lançamento nacional do oitavo livro, editado em português, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada e muitas livrarias vão estar de portas abertas até mais tarde. A Escola de Hogwarts Eventos vai dinamizar o lançamento na Fnac do Colombo (20.00) e vai receber novos alunos: cada aluno é selecionado através do famoso chapéu selecionador, para integrar uma das quatro equipas existentes.

"Inicialmente a adesão era mais ou menos 40 pessoas por evento, mas já chegámos aos 80 fãs. Os números estão a crescer e nós já somos o maior clube de fãs que cria eventos em Portugal." Ana Mateus é cenógrafa. Fascinada com este mundo, está em pulgas com a noitada de hoje. Não tenhamos ilusões, não é apenas do lançamento de um novo livro que se trata. É o momento de viver a magia juntamente com muitos fãs, a surgirem vestidos como manda o figurino.

Quem não vai perder este convívio é Ema Carvalho. Com 38 anos, e muito sentido de humor, trouxe, com a ajuda da mãe, as suas varinhas mágicas mais bonitas, a gravata dos Gryffindor e a coruja do Harry para mostrar a verdadeira fã que é. Tem uma divisão da casa para colecionar tudo o que há para colecionar do mundo da feitiçaria e vive o mundo de Harry Potter a cem por cento. "É o mundo dela", diz a mãe, Elsa, que a acompanha para todo o lado. Ema tem deficiência motora mas isso não impede que faça os seus feitiços, com um sorriso nos lábios: "Quando vou aos eventos, vou pela companhia. Gosto deles porque brincamos, fazemos duelos, cada um leva a sua varinha e ficamos por ali a lançar feitiços como o stupefy e coisas do género." Na história, encanta-se com os valores da amizade e a morte dos pais e padrinho de Harry. "No fundo, o padrinho é a única família que ele tem, e isso reflete-se um bocado comigo porque a minha mãe é a única pessoa que tenho", conta ao DN.

As poções de Beatriz

Mas também há fãs, como Beatriz Dimas, que não alinham nestes eventos. Com 21 anos, não esconde a t-shirt das equipas que traz vestida e a varinha que lhe ofereceram, feita à mão. Lá em casa, tem uma prateleira que pretende continuar a encher, coberta de frascos com recriações de poções mágicas, dos feijões da Bertie Botts e de varinhas dos mais variados personagens. Até a irmã, com 16 anos, se rendeu ao amor pela saga do rapaz da cicatriz na testa.

Fã ao ponto de ir a Paris só para ver uma exposição do Harry Potter, fã ao ponto de ir até ao Porto para visitar a Livraria Lello. Fã ao ponto de não saber explicar: "adoro, adoro, adoro o Harry Potter, a magia e todo o seu mundo. Não consigo exprimir o quanto gosto do universo da magia deles." Magia esta que não esconde o desejo de ter. Se escolhesse um feitiço, seria a capacidade de ser invisível, "usar o manto da invisibilidade que o Harry usa de vez em quando ia dar jeito".

Beatriz já tem o oitavo livro reservado na Fnac do Colombo, e vai buscá-lo hoje à noite porque não quer esperar mais. Ansiosa, com boas expectativas, demonstra a vontade que tem de continuar o amor pela saga desde a sua primeira leitura, estava ela no 4.º ano de escolaridade.

Já Bruno Romão, de 34 anos, não vai andar em correrias. "Prefiro ir no sábado de manhã. Antigamente os livros esgotavam em meia dúzia de horas, agora já não." Este técnico de telecomunicações conta que entrou no mundo mágico por acaso. O irmão viu o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal no top da Fnac, achou que ele ia gostar e ofereceu-o. "Ainda não tinha acabado de ler o primeiro, já tinha comprado o segundo e o terceiro!", conta. Estávamos em 2000. Bruno sempre gostara de ler e devorara (mais do que uma vez) séries juvenis como Clube das Chaves e Uma Aventura. "Naquela altura o Harry Potter era uma literatura que não existia. Foi algo que surgiu completamente diferente." Diz que percebeu logo como a história ia acabar - "sabemos que vai haver um confronto" - mas a questão era perceber como lá chegava. E aí elogia a arte de Rowling, "na forma como conseguia colar as personagens à principal".

Zangado com Rowling

O Professor Snape é o seu personagem favorito. "É o que temos sempre como mau da fita, o professor das injustiças, o que nos põe na rua, mas no fundo ele tinha razão. Um bocado como os nossos professores da escola", diz rindo. Admite que a forma como encara os livros foi evoluindo, como é natural. Depois de leitor, foi pai e Rute também se deixou contagiar pelo feitiço.

Hoje a filha tem 13 anos e é ela quem por estes dias mantém cativa a edição inglesa do livro - "mas não faz spoiler". Bruno diz que não tem muita curiosidade com este volume e até está um pouco zangado com a autora. "É muito forçado, fazer o livro a partir de uma peça de teatro de outros. É o querer aparecer, mais valia deixar os fãs fazer o seu papel", defende. O livro que hoje ganha versão portuguesa é o guião da peça de teatro de Jack Thorne, cuja estreia mundial decorreu em Londres em julho. O guião foi escrito por Rowling, Thorne e John Tiffany. "Estraga a magia da coisa..." No entanto, não põe de parte ir a Londres ver a peça de teatro, apesar de reticente com a forma como a magia pode surgir no palco - depois de a ter visto no cinema próximo do mundo que ele próprio imaginou.

A amizade profunda

Marta Costa, com 26 anos, brinca ao dizer que se considera "de 1 a 10, uma fã a 9 e 3/4", fazendo referência à famosa plataforma escondida na parede da estação de comboios. Partilha da opinião de Ema, explicando que a história do Harry Potter agarra as pessoas (sejam crianças ou adultos) porque os temas abordados na saga são temas da atualidade, temas com que as pessoas lidam no dia-a-dia. A amizade profunda e sincera (entre Harry, Ron e Hermione), o significado da família e os problemas familiares, o amor entre jovens (Harry e Ginny) e o período da adolescência. O truque é o facto de a história começar no mundo real e depois passar para o mundo da magia, o que "dá para acreditar que eles andam mesmo por aí".

Ana Marques, 46 anos, é a prova disso mesmo. Operadora de call center, diz que quando chega aos encontros (de que é organizadora) ou entra nos grupos na internet, os problemas deixam de existir. Nem o desemprego nem os anos de call center, ela que é da área de administração e secretariado. O mundo de Harry Potter "é a minha válvula de escape e dá-me muita imaginação", diz bem-disposta, entre o trabalho e a casa. Fala pelos cotovelos. É fã "desde mil novecentos e carqueja" quando comprou os dois primeiros livros. Uns anos depois entrou nas "escolas virtuais" do MIRC (um chat vintage) através de um amigo. "Comecei por ser aluna, passei a professora e já sou chefe de equipa", diz do seu outro mundo, onde venera Hermione. Em 2009, juntou-se à Escola de Hogwarts de Ana, Miguel e António e é secretária do grupo.

Esta vida ensinou-lhe "muito". Como "o que é a amizade, lealdade, o que é ter amigos". Não tem filhos ("nem sou casada nem tenho namorado"), tem dois gatos e os pais. Mas tem "a família Harry Potter, uma família gigante". Com Mariana Silva (estagiária curricular)