Companhias sem apoio da DGArtes podem não sobreviver

Há 54 estruturas artísticas apoiadas pelas DGArtes. Cão Solteiro e Real não recebem nada. O resultado dos concursos aos apoios anuais e bianuais foi conhecido sexta-feira e já está a causar polémica.

No total são atribuídos neste concurso, para os anos de 2015 e 2016, 3,9 milhões de euros. Concorreram 170 propostas, das quais foram admitidas (após verificação formal e audiência de interessados) 146. Foram avaliadas 22 estruturas na área de arquitetura, artes plásticas, digitais e fotografia; 89 estruturas de dança, teatro e cruzamentos interdisciplinares; e 35 estruturas da área da música. Destas, apenas 54 receberão efetivamente um apoio.

"Claro que ficam de fora diversas entidades, mas entretanto a DGArtes abriu pontuais (800 mil euros, para 45 projetos) e internacionalização (386 mil euros para um máximo de 45 projetos). Foi alargado até 15 de junho o prazo das candidaturas a Pontual para dar a todos a oportunidade de se candidatar", explica ao DN Mónica Guerreiro, subdiretora-Geral das Artes, lembrando que já a meio do concurso a tutela aprovou um reforço de 400 mil euros em relação ao que estava previsto para este ano para tentar chegar a mais estruturas.

Ainda assim, os resultados chegam tarde - quase a meio do ano -e, mais uma vez, não conseguem satisfazer todos. A listagem dos resultados das estruturas de dança, teatro e cruzamentos (que é sempre a área com mais candidatos e onde há geralmente mais polémica) é encabeçada pela companhia Ao Cabo Teatro que obteve uma classificação de 116 pontos (em 150 possíveis) e que vai receber 71 196 euros este ano e 72 306 euros no próximo ano. No extremo oposto da lista, a última companhia a ser apoiada é a Primeiros Sintomas. Teve uma classificação de 94 pontos (em 150 possíveis) e vai receber apenas 42 151 euros este ano (apesar de ter solicitado apoio bianual).

Bruno Bravo, encenador, não esconde a sua desilusão perante estes resultados: "Apanhou-nos de supresa. Temos passado os últimos dias em reuniões para perceber o que vamos fazer. Somos uma estrutura com 14 anos e temos apoio sustentado da DGArtes há 10 anos. A companhia tem evoluído bastante, com produções mais ambiciosas, mais equipas, temos um espaço. Estes dois últimos anos foram de um esforço brutal e a nossa expetativa era que, pelo menos, mantivéssmos o apoio que tínhamos até aqui, e que já era pouco [na ordem dos 60 mil euros]."

A Primeiros Sintomas tem recebido bastantes elogios, por espetáculo como O Retrato de Dorian Gray ou Cyrano de Bergerac e tem agendadas para os próximos tempos co-produções com o Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro Maria Matos, por exemplo. "Pusemos a hipótese de acabar com a estrutura mas não vamos admitir que a DGARTes consiga acabar com uma companhia que já existe há tanto tempo, com provas dadas. Vamos procurar outras formas de financiamento e resistir", diz Bruno Bravo, que critica bastante a política seguida pela DGArtes: "Antes era uma estrutura plural, agora mudou de paradigma, quer que todas as companhias sejam iguais. Mas não são. Nem todas as companhias fazem itinerância, nem todas têm serviço educativo." E acrescenta: "A estratégia é para que haja uma concentração dos apoios em cada vez menos estruturas. O futuro não é nada promissor, é mesmo muito perigoso. Devíamos estar todos alerta."

O descontentamento é visível entre as estruturas que receberam apoios muito aquém do que foi pedido - como o Al Kantara, que vai receber 96 mil euros por ano o que, segundo Thomas Walgrave, é manifestamente insuficiente para realizar o festival - e sobretudo entre os que ficaram de fora dos apoios, como a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, de Vasco Wellenkamp, que já há alguns anos enfrenta uma situação financeira bastante débil.

Uma das maiores surpresas nestes resultados foi a exclusão dos apoios da companhia de teatro Cão Solteiro. Vários artistas já manifestaram publicamente o seu apoio à companhia fundada em 1997 por Paula e Mariana Sá Nogueira e Marcello Urgeghe, entre os quais o ator e encenador André E. Teodósio, que num texto em que explica a importância do Cão Solteiro para a sua formação, afirma que foi esta companhia "que ajudou a elevar o teatro da mera animação de textos como confirmação cultural (inexistente, by the way) a um estatuto de Arte (entendida como ciência da experiência)". E conclui: "é justamente pela defesa do Futuro que é necessário que existam estruturas como estas: não é sobre mim! É sobre se queres que o futuro de alguém seja a sofrer novamente do paradigma de servente precário de um amo com uma arma na mão em forma de obra canónica que te dita a moral ou se queres que o futuro de alguém passe a ser o daquele que pode ter acesso às ferramentas de forma a poder trilhar o seu próprio caminho para que escape de ditaduras visíveis e invisíveis."

Outra surpresa foi a recusa de apoio à Real. Na sua página de Facebook, o coreógrafo Joao Fiadeiro manifestou o seu desalento: "Pela primeira vez em quase 20 anos, a RE.AL e o Atelier Real não foram contemplados com apoios do Estado nos concursos abertos pela DGArtes. A primeira reação, à flor da pele, foi dizer basta. Chega. Não quero mais brincar a este jogo perverso, arbitrário, disfuncional." Mas promete que, apesar de injustiçado, não vai desistir: "estamos a passar por uma das fases mais vitais e vibrantes do nosso percurso. A REAL acaba devoltar em força ao trabalho coreográfico, com estreia no Maria Matos e no Rivoli na próxima temporada e com vários teatros europeus na calha para nos programar em 2016."

Fiadeiro sente que o "sistema colapsou, entrou em pane, fez tilt. E que é tempo de fazer zoom out e tentar que esta situação não passe impune e desapercebida. E, sobretudo, que sirva para alterar profundamente a lógica do sistema. Não por mim, que tenho os meus meios e redes e formas de continuar a trabalhar (se não for aqui, será lá fora), mas por Todos."

O mesmo tipo de críticas é feito por Rafael Carriço, da Vórtice Dance Company, uma companhia do centro do país que, mais uma vez, ficou excluída dos apoios: "O sistema está viciado e não é justo. Os apoios vão sempre para os mesmo criadores e não há espaço aos novos." Para sobreviver à falta de apoios estatais, a Vórtice tem vindo a fazer cada vez mais apresentações no estrangeiro e tem recebido ótimas críticas no Brasil e em Espanha, por exemplo. Mas Rafael Carriço diz que a situação tem de se alterar: "Já contactei outras estruturas que também não foram apoiadas para começarmos a pensar em alternativas e soluções."

Para consultar a lista completa dos apoios atribuídos, basta seguir os links:

Arquitetura, Artes Visuais, Artes Digitais e Fotografia

Dança, Teatro e Cruzamentos Disciplinares

Música

A DGArtes esclareceu ainda ao DN que a decisão de cancelar a fase de audiência dos interessados foi tomada para não atrasar ainda mais o processo de atribuição dos apoios: "Tendo em conta a data em que ocorre esta notificação, e considerando que todo o processo administrativo poderá levar a que os apoios concedidos venham a ser atribuídos só a partir do próximo mês de julho, em benefício do interesse das próprias entidades e, naturalmente, do setor em geral, a DGArtes decidiu suprimir a fase de audiência de interessados neste procedimento", explica a instituição, lembrando que, no entanto, todas as estruturas têm o "direito de solicitar a modificação, suspensão, revogação ou declaração de invalidade do ato mediante reclamação ou recurso para o órgão com competência para o efeito".

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