Comité retira autoria de Bosch a três obras do Prado

A preparar a maior mostra de sempre dedicada ao pintor, museu discorda de opinião dos peritos holandeses, que é "para rir", diz

De uma assentada, o Museu do Prado viu a sua coleção de quadros do pintor Jheronymus Bosch reduzida a metade. Um comité internacional, ligado ao museu holandês Noordbrabants, que há seis anos está a rever a obra do artista antecipando os 500 anos da sua morte que neste ano se assinalam, decidiu que, afinal, A Extração da Pedra da Loucura, As Tentações de Santo António Abade e A Mesa dos Pecados Capitais não foram executados por El Bosco, como é conhecido em Espanha.

Numa altura em que a instituição espanhola está a preparar aquela a que chama "a maior exposição de sempre dedicada a Bosch", Pilar Silva, conservadora do museu, considera que os critérios utilizados pelo comité para retirar a autoria às três obras "são para rir", afirmou ao diário espanhol ABC. Em relação a As Tentações de Santo António Abade, por exemplo, o Bosch Research e Conservation Project argumenta que a paisagem do fundo não é do pintor holandês (1450?-1516), que a obra tem pouco desenho subjacente. "Qual a proporção de desenho necessária para se considerar que uma obra é de Bosch?", questiona a chefe do departamento de pintura flamenga do Prado. "Mais", continua, "argumentam que um dos demónios se está a rir e que Jheronymus Bosch nunca os pintava assim. É para rir".

O relatório oficial apenas será conhecido a 1 de fevereiro, mas a instituição espanhola já foi informada do seu conteúdo, que, claro, não agrada ao Museu do Prado, que a 31 de maio inaugura a exposição El Bosco: La Exposición del Centernário, que vai reunir 65 obras, 25 das quais da autoria de Bosch ou a ele atribuídas, entre as quais As Tentações de Santo Antão, do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. O Metropolitan de Nova Iorque, o Louvre de Paris, a National Gallery de Washington, o Albertina e o Kunsthistorisches de Viena são outros museus que emprestam obras para a mostra que poderá ser vista até 11 de setembro.

Guerra entre museus

A obra do museu português também foi analisada pelo comité e até viu a sua autenticidade reforçada. "Tem um ADN da mais pura linhagem", explicou ao DN António Filipe Pimentel. O diretor do museu português adianta que tem assistido com "alguma surpresa às conclusões do comité internacional", considerando que se está a assistir "a uma guerra entre instituições" - o Prado e o Noordbrabants, em Hertogenbosch, terra natal de Bosch situada a 80 quilómetros de Amesterdão, que entre 13 de fevereiro e 8 de maio reúne 20 pinturas e 19 desenhos do artista na exposição Bosch: Visões de Um Génio.

Ao ABC, Miguel Falomir, diretor adjunto de Conservação e Investigação do Prado, explicou: "Este autodenominado Bosch Research and Conservation Project enviou--nos as conclusões do relatório, já finalizadas, sem nos questionar antes. Não me parece que sejam concludentes. Pilar Silva está convencida da autenticidade das obras. Apoio-a totalmente." Falomir reconhece que as atribuições das obras de arte é um assunto muito complexo - "há tantas opiniões como historiadores", ilustra.

E puxando os galões da instituição a que pertence lança: "O Prado não defende atribuições só porque sim. Já retirámos algumas atribuições sem qualquer problema. Exporemos as nossas teses no catálogo da exposição. Aí constará uma extensa ficha para cada uma dessas obras em que será referida a bibliografia recente, incluindo aquela que nega a autoria. A uma publicação científica há que responder com outra publicação científica. O Museu do Prado tem a maior coleção de obras de Bosch do mundo. Aqui se fizeram os primeiros estudos técnicos sistemáticos do pintor. Este comité está associado ao Museu Noordbrabants e à sua exposição. Foi aí que nasceu Bosch, mas não conserva uma única obra sua. Praticamente não há quadros de Bosch na Holanda", remata.

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